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sexta-feira, junho 17, 2016

A Caixa Geral de Depósitos e João Miguel Tavares
-- ou os riscos de dar a palavra a quem dela não sabe fazer sério uso


Agora que já viajei por dentro daquilo de que sou feita -- e que, se visse em qualquer lado, não seria capaz de reconhecer como sendo um bocado de mim -- volto ao tema que, nestes últimos dias, congrega as atenções da comunicação social e sobre o qual ontem já falei. A CGD.




Que, se a Caixa Geral de Depósitos caísse, seria uma desgraça sem tamanho e que, por todos os motivos e mais alguns, deve ser apoiada parece-me inquestionável. Bem podem as maria-amélias rasgar as vestes que isso, a meus olhos, não passa de fricote de quem, da vida, não sabe senão o mediatismo mesmo que um mediatismo travestido de dores da sociedade.


Note-se: aqui não estamos no domínio das escolhas bacteriologicamente puras. Num mundo ideal, a Caixa, como qualquer outro banco, seria financeiramente robusta, sustentadamente equilibrada e não precisaria de qualquer apoio do accionista. Num mundo ideal. Num mundo ideal também não haveria crimes, poluição, lixo no chão, pessoas más ou nuvens negras no céu.

Também nesse mesmo mundo perfeito, limpinho de qualquer vestígio de mal, logo que a troika apareceu pronta para sanear o sector financeiro, todos -- desde a equipa de gestão, obviamente o governo. e passando pelas entidades reguladores, e, of course, pelos ceguinhos que exercem funções de auditores -- aproveitariam a oportunidade para limpar créditos malparados, mitigar as imparidades, e para avançar sobre mais desafogado terreno. Mas não. Por algum bizarro motivo, o Governo de Passos Coelho tentou que o sector bancário passasse por entre os pingos da chuva. Fez mal.

Depois da troika se ter ido embora, as castanhas começaram a saltar na mão dos investidores e depositantes, dos outros bancos e, claro, dos contribuintes. Mau papel.

Mas as causas dos problemas são diversas, temporalmente distribuídas, atravessando diferentes governos. Apontar o dedo a um único governo é outro mau papel.

Sobre bancos, empresários, sobre a forma foram sendo concedidos créditos que vieram a revelar-se de risco e, muitas vezes, impossíveis de pagar, já ontem falei um pouco.

Mas o tema é multifacetado e qualquer abordagem nestes espaços (em especial, quando quem escreve não sabe muito como é o meu humilde caso) peca por defeito. 

Se ontem ficou expresso o lado venal e fútil de quem gosta de viver a efabulação da riqueza e do poder, hoje afloro uma outra face da mesma moeda.

Imagine o Leitor que, nos anos em que a terra parecia jorrar leite e mel, imaginou um negócio. Consultou peritos que lhe afiançaram que devia ir em frente. Foi ao banco, apresentou o plano de negócio e eles acharam bom. Contrato assinado, crédito concedido. Como garantia a empresa a formar. E o caro Leitor, entusiasmado, comprou instalações, máquinas, contratou pessoal, comprou matérias primas e, ao fim de algum tempo, era empresário de sucesso. A actividade a crescer, as instalações a expandir, mais pessoal a ser contratado. Para tal entrou com capitais próprios mas, convencido que o crescimento se manteria, novos empréstimos iam sendo contraídos.

Imagine ainda, meu Caro Leitor, que à volta do seu negócio, novos outros se foram instalando: eram os fornecedores que trabalhavam para o seu negócio.

A região desenvolveu-se, grande parte da população local vivia, directa ou indirectamente, do seu negócio. 

Até que as coisas começaram a dar para o torto. A fábrica começou a ter avarias, o produto tornou-se menos competitivo, as vendas baixaram. Depois foi a matéria prima que, fruto da conjuntura internacional, começou a subir. De cada vez que se comprava nova remessa era um sufoco, não havia dinheiro em caixa e os fornecedores, suspeitando das dificuldades, queriam pagamento antecipado ou pesadas garantias bancárias. Numa aflição, a equipa de gestão, voltava-se para o banco. O banco estudava e estudava o dossier e acabava por ir libertando nova linha de crédito. É que, se não emprestasse, a fábrica parava, as vendas paravam e aí é que já não haveria maneira de se recuperar parte do que já se tinha emprestado. Assim, sempre seria um balão de oxigénio, e talvez a sorte virasse.

Além disso, a população começava a temer o pior e a autarquia, temendo uma hecatombe, juntava esforços consigo, caro Leitor empresário, para que o banco autorizasse mais um arriscado empréstimo.

Pelo caminho, percebendo que não se poderia aguentar, V., Caro Leitor, tentará vender todo ou parte do negócio mas as dívidas eram já muitas, já não consegue vender. Começa então a vender o que pode, edifícios, viaturas, para ir pagando as tranches vencidas. 

Foi assim - aliás, é assim - que muitas empresas acaba(ra)m em mãos estrangeiras, outras fechadas, outras reduzidas à sua mínima expressão.

E os bancos com os rácios estragados: dívidas incobráveis, imparidades.

De quem é a culpa nestas situações?

É difícil. São situações de tal aflição, em que todos temem tanto, em que todos fazem tudo para prolongar a vida das empresas mais um mês, depois mais um mês, um sufoco permanente, que é difícil dizer em consciência: no mês tal deveria ter-se atirado a toalha ao chão. 

Depois há ainda um outro aspecto: tantas vezes os clientes, apanhados também pela crise, deixaram de pagar. As empresas olham para as suas contas e pensam que, se os clientes lhes pagassem, poderiam pagar ao banco e, fiados nisso, tentam, tentam -- mas os clientes, tantas vezes, já desapareceram do mapa.

O tonto do João Miguel Tavares -- essa insignificante figura a quem a comunicação social paga para que ele continue desfiando baboseiras -- cheirando-lhe a baderna, já saíu à rua agitando as bandeiras de Sócrates e Vara. Que sabe ele do que se vive em situações assim? Que sabem esses que se acham sabedores dos destinos do mundo quando nunca viveram o terror de ter que mandar para o desemprego centenas de pessoas?


Claro que nem todas as dívidas incobráveis resultaram de situações como as que, de forma genérica, acabei de descrever. Há as que tão bem lembramos de vã ambição, de quem se endividou para comparar acções para ter mais poder, para atingir objectivos e receber bónus, trapalhadas sem perdão.

Mas sobre os empresários da construção civil, da indústria e tantos outros, que não se façam juízos precipitados que poderão ser injustos. Se querem fazer juízos de valor, comecem por limpar a cabeça de preconceitos e façam um esforço por compreender os dramas que tanta gente tem vivido nestes horríveis tempos de crise.

A nossa economia, tantas vezes o tenho dito, não está na mão de capitalistas endinheirados: está, em geral, na mão de empresários endividados que, muitas vezes, de seu pouco têm.

Ainda há cerca de um mês soube da desgraça que se abateu sobre uma pessoa honesta que tão bem conheço: apenas não perdeu o andar onde vive porque o tinha posto em nome dos filhos. De resto, perdeu tudo: empresas e propriedades. Competente, sério, responsável. Quis crescer, sentiu que havia condições para isso. Cresceu. Mas não contou com a crise que fez com que, qual castelo de cartas, cada peça fosse tombando sobre as restantes. Ele sem nada. O banco a arder.

Poderá dizer-se: e que têm os contribuintes com isso? Claro. No rescaldo de um incêndio, pode perguntar-se: porque tenho eu que apagar as chamas? Mas e os anos em que a empresa prosperou, pagou impostos, deu trabalho a muita gente, gente que pagava impostos? vejamos, pois, as coisas em perspectiva. E, se se deixar cair o banco, quantos investidores vão perder as suas poupanças? Quantas mais pessoas vão perder o seu trabalho, passar a viver de subsídios para que, V. caro Leitor, vai ter que contribuir?

Continuo a simplificar a realidade. O dia a dia esconde, frequentemente, situações muito complexas. Muitas vezes nem quem trabalha em empresas que estão na corda bamba se apercebe bem da ginástica que alguém anda a fazer para ver se consegue continuar a pagar ordenados.

Com isto não estou a branquear ou a desculpar aqueles que agiram de má fé, com incúria ou simples incompetência. Sobre esses que alguém actue que o que não falta são reguladores, auditores e inspectores que os identifique.

Mas que não se pense que essa é a única realidade. Nem será a principal. Presumo que o que agora é posto a nu não seja senão o somatório de muitas situações complicadas, parecidas com a que descrevi, e que foram acontecendo ao longo de anos.

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Contudo, se não é caso para rir, também não é caso para dramas nem para histerias. Tiremos conclusões do que, no passado se fez mal, ponhamos os pés na terra, sejamos realistas. E sejamos exigentes, competentes, reestruturemos, reorientemos o foco da gestão - o que for adequado

Mas não deixemos que, no meio do bruá-á que os media tanto gostam de alimentar, alguns mais espertos -- aqueles que agem na calada e se aproveitam dos pobres bobos que em cada rombo vêem a prova da malignidade da humanidade -- venham a pôr em prática as suas velhas práticas de abutres, esperando a melhor altura para saltar sobre a carniça.

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As imagens nada têm a ver com o texto mas também não vejo porque haveriam de ter. Mostram pinturas estranhamente realistas do alemão Mike Dargas.

E, também na mesma onda, a música é Clair de Lune mas, nem mais nem menos do que por Kamasi Washington.

Os preconceitos não moram aqui.
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Caso ainda não tenham lá estado, aceitem o meu convite e desçam até ao post seguinte: 

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