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terça-feira, maio 17, 2016

Rodrigo Queiroz e Melo e Nilza de Sena versus Alexandra Leitão e Daniel Oliveira no Prós e Contras
- Ou seja, Ensino com Contrato de Associação versus Ensino Público



Passei por acaso pela RTP 1 e vejo uma senhora com carinha de bonequinha-pafinha, com lábios debruados a cor de betinha, a dizer, com ar grandiloquente, umas coisas muito arrebitadinhas. Vi-lhe o nome. Nilza de Sena. Pela conversa percebo que é PSD. Condiz. Se calhar é deputada na especialidade ensino privado.


Não sei quem é a Nilzinha, nunca tinha visto, não sei a que propósito apareceu ali. Talvez seja a única deputada do PSD que consegue dizer duas palavras de seguida e, agitando-as guturalmente, dar-lhes o ar de conversa articulada.

Depois vi um senhor com ar atarantado e cujo fácies não deixa lugar a muitas ilusões. Vejo que se chama Rodrigo Queiroz e Melo e que é director da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo. Procurava arranjar um argumentário como quem anda, de cabeça perdida, à pesca à linha e só lhe aparecem botas da tropa arrombadas. Quase tive pena do senhor. 


Do que aquelas duas almas disseram não se aproveitou uma mas, porque apelaram ao sentimento e ao lado mais primário da raça humana, arrancaram saraivadas de palmas à assistência.

Vi, então, a brava Alexandra Leitão, a Secretária de Estado do Ensino de quem já aqui falei com admiração. Segura, combativa, uma mulher de armas. Fico, de novo, rendida. Esta, sim, é uma mulher que qualquer governo gostaria de ter nas suas hostes. Inteligente, certeira, uma guerreira. Tudo o que ela diz faz sentido e, depois do ministério do C-rato, sabemos bem a bênção que isso é.


Também ali estava Daniel Oliveira. Habituado ao debate, facilmente meteu no chinelo os pobres do balcão da frente. Enquanto ele falava, o outro rodopiava mentalmente à sua frente e a nilzinha alvoroçava-se na ânsia de poder ripostar com ti-ti-tis.

Mas, uma vez mais, concluí como é difícil, perante a opinião pública, desmontar o discurso direitolas. É que aquilo é gente que nunca se ensaia nada de ser pouco escorreita na escolha de argumentos: vale tudo, sobretudo tirar olhos - e quanto mais sound bites, falácias matrafonas, populices que facilmente caiam na boca dos papagaios ou façam soltar lágrima às senhoras dos programas da Fátima Lopes, melhor. 

Regra geral, parece que a malta de esquerda é intelectualmente mais honesta: documenta-se, é séria na esgrima, é caridosa na aplicação de golpes, não vai aos golpes baixos, tenta não magoar os olhos dos adversários, estuda a lição, sabe aritmética, usa de um verbo mais elaborado -- ou seja, nem toda a gente consegue acompanhar.

E, assim sendo, tenho cá para mim que a gente de esquerda deveria receber um banho de marketing e comunicação para aprender a fazer passar a sua mensagem junto de quem não deve muito à inteligência, já que esse parece ser o nicho-alvo dos direitolas de quinta categoria que hoje gravitam em torno dos ex-PàFs.

Quanto ao tema em debate, se eu tivesse filhos em idade escolar, depois de ter visto aquela fraca ave queirozeana, aquele desagradável rodrigoto, só se não houvesse alternativa à superfície da terra é que eu os deixava nalgum colégio que estivesse sob influência daquele senhor cuja inteligência deu ideia que escorregar do tripé de cada vez que a enérgica Alexandra lhe abria os olhos. Que coisa.

E pronto. Não falo mais nisto que é um tema meio parvo.

Faz sentido para alguém financiar o ensino privado em lugares em que existe oferta pública? 

Caraças.
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E agora vou ver se adivinho qual a continuação da minha primeira noite de amor (salvo seja, claro). 

Se não a publicar ainda esta noite, talvez saia durante o dia, quiçá lá para a hora do almoço, que volta e meio me perco na escolha das imagens)

(Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência)

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Entretanto, a quem queira conhecer os hits de momento, as notícias fantásticas que inundam as capas das revistas e primeiras páginas da actualidade -- tragédias, cenas secretas, paixões, mulheres peitudas e maridos de mulheres com histórias clandestinas -- convido a descer até ao post já a seguir.

...... 

2 comentários:

Anónimo disse...

Olá, UJM!

Vi parte do debate, mas não apanhei a intervenção da nova secretária de Estado.
De qualquer forma, se há contratos para cumprir, por muito compadrio que tenha havido no momento em que foram celebrados, o Estado não pode deixar de os cumprir. Pela minha parte, e num plano ainda quase ideológico, sempre achei que o Estado não perdia nada por dar a escolas privadas o montante (ou melhor, até ao montante) que gasta por aluno nas escolas públicas vezes o número de alunos que frequentam as privadas. Talvez uma coisa do tipo cheque-ensino, que permitisse aos pais escolherem se põem os filhos nas públicas ou nas privadas, sem que o Estado gaste mais do que já gasta. O facto de serem os pais a escolher talvez servisse para que essa concorrência evitasse um modelo de caça ao subsidio, em que as privadas tentam poupar ao maximo o montante que recebem do Estado para o levar ao bolso como lucros. Num plano menos teórico, tenho muitas dúvidas de que um tal modelo resulte, não só por causa dos exemplos do seu fracasso, mas também porque me parece que permitida essa concorrência e diminuindo o número de alunos nas escolas públicas, estas tornar-se-iam, muito provavelmente, bastante mais dispendiosas por aluno, perdendo-se economia de escala. O que levaria a pagar mais por aluno, quer frequente uma escola publica, quer frequente uma privada. Daí achar bem que se mantenha o tal critério da necessidade, só subsidiando privadas se houver falta de oferta publica.
Toda a vida frequentei escolas publicas e acho que, no nosso país, frequentar privadas significa encaminhar as crianças para um mundo elitista, diminuindo-se o círculo de pessoas com quem tomam contacto. De facto, só a partir de um certo nível económico podem as famílias colocar os filhos em privadas (em localidades onde nao faltam escolas publicas e, portanto, se pagam mensalidades para ter os filhos nas privadas) e acho que é importante para o nosso desenvolvimento não crescer num meio que adultera o mundo real dessa forma, excluindo dele parte da população. Isto ressalvando os casos em que a escola publica nao é capaz de tomar conta das crianças o dia inteiro, nao tendo os pais, que trabalham o dia inteiro, outra solução senão colocá-as em ATL's no horário não letivo ou colocá-las em privadas com atividades extracurriculares que preenchem o seu tempo de forma completa.

Boa semana,
JV

P. disse...

Já anteriormente referi que discordo da forma enviesada de como se tem vindo a discutir esta questão. Tal como a UJM, gostei bastante da maneira como Alexandra Leitão defendeu a sua causa, bem como de Daniel Oliveira. No caso da Sec. De Est. ela não pode ir além deste tipo de argumentário, dada a posição institucional que exerce. A questão é sobretudo política e ideológica, da parte da Direita, que tudo fez nos últimos 4 anos para desvalorizar a escola pública, desprestigiar professores, desinvestir nas infraestruturas dessas escolas (equipamento escolar, cantinas, qualidade dos edifícios, chove em muitos deles, etc), deste modo “justificando” o desvio de dinheiros públicos para o tal ensino privado, sobretudo também ao fechar escolas públicas. É uma falsidade e um argumento desonesto falar em liberdade de escolha nos termos em que temos vindo a ouvir. As pessoas e os políticos têm de perceber que ao Estado compete, é a sua obrigação (constitucional), criar uma rede nacional de ensino público, que cubra todo o país, com qualidade e exigência e que, numa determinada altura, esse mesmo ensino público venha a ser gratuito. Depois, se existirem empresários que pretendam vir a abrir escolas privadas estão no seu pleno direito de o fazer. E os pais que decidam onde colocar os seus filhos. Eu frequentei escolas públicas e privadas. Nestas meus pagaram caro – porque assim o quiseram, nas públicas, Liceus, os custos eram irrisórios comparados com as privadas. E também frequentei escolas de "padralhada", porque os meus progenitores nessa altura assim o quiseram, e pagaram caro (dinheiro) por isso. Foram opções deles. Tenho sobrinhos que, uns frequentaram sempre as privadas, outros as públicas. De novo, opções. O facto de o Estado poder vir a providenciar mais escolas do que o privado não quer dizer que está a impor um modelo de ensino. Só um mentecapto pode pensar isso! O ensino do público é isento, embora seja laico, como é o nosso Estado. Usam-se falácias imbecis, como as que se ouviram ontem, para justificar a pedinchice ao Estado para sustentar aventuras privadas. O que aqueles que defendem este abuso - que é o Estado subsidiar o ensino privado – não querem perceber é que uma escola privada (ou hospital privado) é uma empresa privada como qualquer outra e como tal deve ser tratada, ou seja, que se amanhe, subsista por si, como faz o sector privado em geral. Nesta fase, após a destruição de boa parte do ensino público pelo bando PSD/CDS, posso aceitar, que, a título meramente provisório, o Estado faça esse tipo de contratos, até finalmente ter completado a rede pública pelo país em geral. Mas, mesmo aqui, haverá que acabar de vez com qualquer ajuda financeira a escolas pertencentes à Igreja, porque aí sim, seria permitir impor um tipo de educação que contraria a Constituição, que defende o laicismo da República. A terminar, esta questão, de o Estado não dever apoiar o sector privado do ensino, em minha opinião deveria estender-se, no futuro, às universidades. No fundo, o que é patético e imoral dos defensores da esmola pública ao ensino privado, é que são os mesmos que defendem os cortes nas pensões, reformas, salários, subsídio de reinserção social, no subsídio do desemprego, na baixa dos salários no sector privado, no apoio às crianças, maternidade, mas depois advogam a livre iniciativa privada, os mercados e todas as injustiças sociais e se “esquecem” que numa economia de mercado o Estado e o sector privado devem conviver sim, mas por caminhos paralelos. Daí que, um dia, este ou outro governo, terá de ter a coragem de alterar esta legislação que permite este tipo de abusos e discussões estéreis e, através de uma decisão política, revogar o que existe e separar de vez as águas, entre o ensino público e privado e cessar qualquer contributo financeiro aos empresários do ensino privado (assim como às escolas da Igreja).
P.Rufino