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domingo, maio 22, 2016

As cefaleias de Hildegard


Scivias I.6: The Choirs of Angels.
(From the Rupertsberg manuscript, fol. 38r.)



Hildegard escreve:

"As visões que tive não as vi em sonhos, durante o sono ou em ataques de loucura, nem nos meus olhos ou ouvidos carnais, nem em locais ocultos; estava acordada, desperta, e foi com os olhos do espírito e com os ouvidos internos que as percebi, claramente e segundo a vontade de Deus."

Uma tal visão, como a que é ilustrada pela figura das estrelas a cair e a extinguirem-se no oceano, é interpretada por ela como "A Queda dos Anjos":

"Vi uma enorme estrela de grande beleza e esplendor e com ela uma enorme quantidade de estrelas cadentes que a estrela seguiu em direcção a sul. Subitamente todas foram aniquiladas, transformadas em carvão... e lançadas no abismo, de forma que deixei de as ver."
Esta é a interpretação alegórica de Hildegard. A nossa interpretação literal é que ela passou pela experiência de uma chuva de fosfina em trânsito através do seu campo visual, sendo a sua passagem sucedida por um escotoma negativo. (...)

Estas visões revestem-se de uma enorme intensidade arrebatadora, especialmente nas raras ocasiões em que, à cintilação original, se segue um segundo escotoma:
"A luz que vejo não é localizada, no entanto é mais brilhante do que o sol. Não consigo perceber qual é o seu peso, comprimento e largura e chamo-lhev'a nuvem da estrela viva'. E, tal como o sol, a lua e as estrelas se reflectem na água, assim os escritos, dizeres, virtudes e obras dos homens se reflectem nela como perante mim...
Por vezes contemplo, dentro dessa luz, uma outra luz à qual chamo 'a própria luz viva'... e quando a contemplo toda a triteza e dor se desvanecem da minha memória, volto a ser uma rapariguinha e deixo de ser uma velha"
As visões de Hildegard, revestidas desta sensação de êxtase, ardentes de significado filosófico profundo conducente a Deus, eram instrumentos que a dirigiam em direcção a uma vida de santidade e misticismo. São um exemplo único da forma como um acontecimento psicológico, banal, odioso e sem significado para a maioria das pessoas, se pode transformar numa consciência privilegiada, no substrato de uma suprema inspiração extática.

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Hildegard von Bigen (1098 - 110), freira e mística de poderes intelectuais e literários excepcionais, teve inúmeras 'visões' desde a mais tenra idade até ao fim da vida e que nos deixou relatos e desenhos maravilhosos nos dois manuscritos que chegaram até nós: Scivias e Liber Divinorum Operum ('O Livro das Obras Divinas').

Um estudo cuidadoso desses relatos e desenhos não deixa dúvida em relação à sua natureza: eram, sem dúvida, cefaleicos e ilustram muitas das variedades da aura visual (...)

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Vision - A vida de Hildegard von Bigen


The story of twelfth-century Benedictine abbess Hildegard von Bingen—a Christian mystic, author, counselor, naturalist, scientist, philosopher, physician, herbalist, poet, channeller, visionary, composer and polymath.


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O que acima transcrevi (até à introdução ao vídeo) é parte do capítulo 'As visões de Hildegard' do livro 'O homem que confundiu a mulher com um chapéu' da autoria do neurologista Oliver Sacks.

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Se quiserem fazer ginástica, podem dar um salto até à mente elástica e às non dangereuses liasons entre a ciência e o design e a arte -- é já a seguir,

3 comentários:

P. disse...

Ficou também conhecida na “História da Música Clássica” como compositora, durante o Período designado por “Idade Média e Renascença”. Hildegard de Bingen (a terra que lhe deu o nome/apelido pelo qual ficou conhecida) aparece na primeira fase desse período da Música Clássica, o da Idade Média. Vem a morrer no Outono de 1179, com a bonita idade de 81 anos, em Rupertsberg (perto de Bingen, de onde lhe vem o nome/apelido), onde fundou um convento para freiras e na sua composição “O Jerusalém” faz a ligação entre Jerusalém e o tal convento. A sua paixão pela poesia e música estiveram na origem das suas composições, como foi o caso da “Symphonia armonie celestium revelationum”. Desse período da Música Clássica a que ela pertence destacaria, em particular, Pérotin (seguindo-se, mais tarde, já na Renascença, Josquin Desprez, Palestrina, Byrd, etc). Na sua música, constata-se a devoção à Virgem Maria. Foi uma mulher notável no contexto daquela época, um mundo, ou sociedade, dominada por homens. Bonito trecho musical que aqui nos deixou, em cima. Gosto daquelas suas composições. São de uma serenidade espantosa! Muito belas. Já não ouvia composições dela há algum tempo. Foi pois uma excelente oportunidade para a voltar ouvir! UJM consegue sempre surpreender-nos agradavelmente! Que Post inspirado! E a vida dela é muito interessante.
P.Rufino

Maria disse...

"experiência de uma chuva de fosfina em trânsito através do seu campo visual, sendo a sua passagem sucedida por um escotoma negativo"

escotoma negativo e escotoma cntilante sei bem o que são até porque tenho este último desde criança e sempre me diverti com eles chegando a forçar o seu aparecimento para lhe seguir o rasto e tentar apanhar. adormeci muitas vezes neste jogo. ainda hoje se quiser o consigo fazer pois basta-me fechar os olhos, concentrar-me e elas, as luzes e pontos e serpentinas cintilantes logo aparecem
tal como hoje se faz naqueles jogos computador/plau staytion/telemóvel em que se tenta encaixar uma peça e anda uma coisa a correr atrás de outra :)
não consigo lembrar o nome
mas é das primeiras coisas que apareceram


Quanto a Hildegarda von Bingen admiro-a por demais e é uma santinha do meu altar :)

uma boa se
mana para si
GG

http://www.publico.pt/temas/jornal/a-inventora-da-lavanda-e-doutora-da-igreja-25331568

Maria disse...

esqueci de escrever
o que é: "experiência de uma chuva de fosfina em trânsito através do seu campo visual"
GG