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sábado, abril 23, 2016

Shakespeare
- em jeito manso -





Antes que a noite caia e eu adormeça, Senhor, entrai. Vinde. É por vós que tenho esperado. A vida toda à vossa espera, a vida toda ansiando por esta emoção, Senhor, a vida toda.

Pois não é vossa a voz que ouço nos meus sonhos? Pois não é em vós que penso quando entardece e eu sozinha, entre almofadas suaves, sinto como é de seda a minha pele que espera que vós?

Pois não é para vós, Senhor, que vai o meu sorriso quando os cortinados pesados trazem a sombra do dia e eu sei que, com a noite, vem o meu desejo por vós e o vosso por mim, Senhor?

Pois não sois vós o anjo perdido que, quando a madrugada esfria e os lobos descem às ruas, subis à minha varanda para espreitares o meu corpo que é róseo, macio e generoso como o de um inocente cordeiro? Não é vosso o olhar que pousa, em brasa, no côncavo do meu ventre, na curva das minhas ancas, no mais fundo do meu corpo, Senhor?

Não...!? Como podeis dizê-lo, Senhor? Como?

Não...? Insistis que não? Insistis...?

Pensais, então, que me podeis enganar. Mas não podeis, não. Julgais que não sei eu? Sei. Sei-o bem, Senhor. Sei bem como o vosso olhar segue os meus passos quando refresco o meu corpo, eu molhada, o meu vestido molhado, colado ao meu corpo nu e eu, com o meu olhar, a desafiar-vos, Senhor.

Pois não sois vós que, com o vosso olhar espiando as minhas pernas, as minhas costas macias e os meus seios quentes e pesados, me deixais assim, abrasando, abrasando, Senhor?

Sabeis que sim, sabeis, Senhor, sabeis. 

Pois, então, porque esperais? De que palavras minhas esperais mais, Senhor, para que não duvideis, para que ouseis como eu quero que ouseis? - que eu vos quero ousado, Senhor. Entrai. Entrai. sem delongas, Senhor.

Mas, Senhor, vinde devagar. Devagar. Devagar.

E dizei-me que feche os olhos. Fechá-los-ei, Senhor, assim tal me seja pedido. Sou tímida, tão tímida, não julgueis que não, não me façais pedir-vos por vós, que vos quero tanto, Senhor, tanto..

E quando, olhar profundo, intenso e insinuante como um perigoso tigre, chegueis perto de mim, pousai-me uma rosa no colo, Senhor.

Mas antes, deixai que vos ensine, passai-a pelo meu rosto oferecido, passai-a devagar, uma carícia azul, Senhor, deixai que eu sinta como é atraente o perfume das inexistentes rosas azuis.

Depois, Senhor, pousai um beijo no meu decote que ele se abrirá para vós, Senhor. Deixai que eu sinta o morno perfume do vosso desejo, Senhor. Encostai o vosso rosto ao meu, Senhor, e que ele fique assim, a vossa pele junto à minha minha, o vosso hálito junto ao meu, deixai, Senhor, que eu sinta o calor da vossa respiração, a impaciência do vosso corpo, Senhor.

E não vos apresseis que o meu tempo é todo vosso, Senhor. Deixai-vos estar aqui, Senhor, e beijai-me o pescoço, gosto tanto de vagarosos beijos no pescoço, Senhor, tanto. Depois a nuca, ah a nuca, Senhor, e chegai devagar o meu cabelo para o outro lado -- as vossas mãos, o meu cabelo, as pétalas da rosa azul, carícias que tão bem me sabem, Senhor, tão bem.

E continuai a beijar-me, Senhor, ou, se os beijos vos cansam, Senhor, pois passai apenas os vossos lábios impacientes, ou apenas a vossa língua, Senhor, que imagino que a vossa língua seja um animal sedento e eu posso matar a sede dele, Senhor, posso, posso mesmo. Por isso, não hesiteis, Senhor. Nada temais. Vinde. Vinde que toda a vida vos esperei. Vinde para que eu possa, finalmente, começar a viver, Senhor.
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Tenho, ainda, duas memórias. A minha pessoal e a daquele Shakespeare que parcialmente sou. Melhor dizendo, duas memórias têm-me. Há uma zona em que se confundem. Há um rosto de mulher que não sei a que século atribuir.
Perguntei-lhe então:
- O que é que fez com a memória de Shakespeare?
Houve um silêncio. Depois disse:
- Escrevi uma biografia romanceada que mereceu o desdém da crítica e um certo êxito comercial nos Estados Unidos e nas colónias. Acho que é tudo. Preveni-o de que o meu dom não é uma sinecura. Continuo à espera da sua resposta.
Fiquei a pensar. Não tinha eu consagrado a minha vida, não menos insípida do que estranha, à busca de Shakespeare? Não era justo que ao fim da jornada o encontrasse?
Disse, articulando bem cada palavra:
- Aceito a memória de Shakespeare.
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Shakespeare in love


(Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Judi Dench, Geoffrey Rush, Ben Affleck
-- dirigidos por  John Madden) 


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Lá em cima, dançando o Romeu e Julieta composto por Sergei Prokofiev, Federico Bonelli e Lauren Cuthbertson interpretam o pas de deux da varanda numa coreografia de Kenneth MacMillan para o Royal Ballet.

A seguir, Tom Hiddleston lê o Soneto 130 de Shakespeare.

O texto em itálico é um excerto de 'A memória de Shakespeare' de Jorge Luis Borges.

As fotografias não têm nada a ver. São de Kirsten Dunst no filme Marie Antoinette e apeteceu-me usá-las para ilustrar o meu texto que, como é bom de ver, também não tem nada a ver. 

Efeitos de um certo tigre azul que passou por aqui nesta noite em que me estava a apetecer evocar William Shakespeare [que viveu entre Abril de 1564 e, justamente, 23 de Abril de 1616 (faz hoje 400 anos), em Stratford-upon-Avon, Reino Unido].


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William Shakespeare lido por  Benedict Cumberbatch -- 7 Ages of Man


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

3 comentários:

Rosa Pinto disse...

Bom dia.
Para quem gosta de teatro a rtp2 aos sábados tem vindo a passar teatro de Shakespeare.
No final deste mês no teatro Camões passa o bailado - Romeu e Julieta - a não perder, digo eu.

Rosa Pinto disse...

E do dito....



Quando penso em você me sinto flutuar,
me sinto alcançar as nuvens,
tocar as estrelas, morar no céu...

Tento apenas superar
a imensa saudade que me arrasa o coração,
mas, que vem junto com as doces lembranças do teu ser.

Lembrando dos momentos
em que juntos nosso amor se conjugava
em uma só pessoa, nós...

É através desse tal sentimento, a saudade,
que sobrevivo quando estou longe de você.
Ela é o alimento do amor que encontra-se distante...

A delicadeza de tuas palavras
contrasta com a imensidão do teu sentimento.
Meu ciúme se abranda com tuas juras
e promessas de amor eterno.

A longa distância apenas serve para unir o nosso amor.
A saudade serve para me dar
a absoluta certeza de que ficaremos para sempre unidos...

E nesse momento de saudade,
quando penso em você,
quando tudo está machucando o meu coração
e acho que não tenho mais forças para continuar;
eis que surge tua doce presença,
com o esplendor de um anjo;
e me envolvendo como uma suave brisa aconchegante...

Tudo isso acontece porque amo e penso em você...

Um Jeito Manso disse...

Olá Rosa Pinto,

Obrigada pelas dicas. A ver se consigo ir e se sintonizo a 2. Gracias!

E os meus agradecimentos pelo poema, Rosa Pinto. De facto, tanta coisa e nenhum poema de Shakespeare. Obrigada, Rosa!