Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, abril 07, 2016

Coisas simples


Hoje estou meio off. No post abaixo, onde falei sobre a Marilú e sobre o cãozinho Lulu, já vos contei que cheguei muito tarde a casa. Outro dia assim. Foi mais um daqueles em que as reuniões são consecutivas e, ainda por cima, em lugares diferentes da cidade. E a verdade é que, entre as reuniões e os percursos entre elas, parece que se me esvaiu o pouco que me sobrava de alguma verve.



Estive a ler mails e comentários, todos sempre tão simpáticos, tão carinhosos, para mim, até para a minha corajosa e jovial mãe, e com vontade de responder, de agradecer mas, a cada um que leio, logo penso que queria responder com vagar, que queria mostrar o meu agradecimento -- e estou tão cansada e ia levar muito tempo e depois não consigo manter-me acordada, a escrever aqui. Talvez amanhã consiga chegar um pouco mais cedo, não sei, não anda fácil isto. Se conseguir, agradeço um por um, como deve ser.


A verdade é que me sinto desconcentrada, só me apetece veranear, andar de blogue em blogue.

Os que mais me atraem são aqueles em que a voz de quem os escreve parece estar rente à terra -- tanta a verdade que se sente nas palavras, parece que o mundo ainda não contaminou a pureza da voz que nelas se ouve -- aqueles em que chega até mim a generosidade delicada de quem partilha as suas lembranças ou impressões. Não estivesse eu tão sem energia e, tal como fiz no outro dia, elencava aqui, outra vez, aqueles que percorro como se fosse no banco de trás da bicicleta, por entre os solitários caminhos da serra ouvindo a aragem nas folhas e a música da água, ou como se pudesse eu também descer ao convés e ouvir as conversas e as gargalhadas, ou ir eu também até junto dos índios onde a verdade ainda é estranhamente sábia ou, então, parar e ouvir o silêncio puro de quem sabe da vida colher a luminosa e destilada beleza. E outros, outros. Sou injusta por não falar dos outros mas é mesmo apenas cansaço. Mas, mesmo não falando, quem eu visito sabe como gosto de passear pelos caminhos amigos onde há sorrisos, inteligência, bondade. 


À hora a que aqui me sento a ler as palavras dos outros falta-me energia para suportar palavras violentas, obscenidades gratuitas, insultos ou maldades. Talvez quem as escreva se sinta engraçado ou libertado das suas peias interiores soltando, assim, a sua amargura ou má índole. Cada um sabe de si, é bem verdade. Mas eu não consigo suportar. Por isso, também não uso o meu tempo para ler o Correio da Manhã ou as revistas em que falam de um que saíu da regeneração alcoólica, de outra que foi abusada pelo padrasto, de uma que é rica e se queixa que não consegue arranjar namorado ou de outro que foi traído pela família. Não consigo. É tudo má onda. Pode ser que o mundo real seja isto, espancamentos, agressões, violações, facadas, roubos, insultos, ordinarices. Talvez. Mas, se parte do mundo é assim, eu, nos momentos em que posso escolher, opto pela parte não conspurcada.


Por esse mesmo motivo, depois de ter espreitado jornais, desisti e mergulhei na fantasia. Fui parar àquela coisa de que, para duas pessoas caírem nos braços uma das outra, basta sentarem-se em frente uma da outra e responderem a um conjunto de perguntas. Estive a lê-las. Intriga-me. Será que se eu me sentasse em frente a um estupor e nos puséssemos a responder a estas perguntas, esquecíamos as nossas vidas anteriores e sentíamos que estávamos a nascer ali, um para o outro? Tenho dúvidas, muitas dúvidas.

Lembrei-me agora de pegar em algumas das primeiras e responder aqui. Será que as minhas respostas fazem algum dos meus Leitores sentir que há entre nós uma empatia que poderia ir em crescendo? Mas mesmo que sim, teria eu, ao mesmo tempo, que gostar de ouvir as respostas do meu interlocutor para que a química se pudesse esboçar.
Digo eu -- incrédula em relação a estas receitas mágicas.


1. Se pudesse escolher não importa quem, em qualquer parte do mundo, para jantar, quem escolheria?
Para começar, sinto-me sempre tapada e burrinha perante perguntas assim porque adivinho que a maior parte das pessoas teria uma resposta na ponta língua e a mim pouco se me ocorre ou, se me ocorre, acho sempre que me estou a esquecer do mais importante. 
Mas, enfim, sem pensar muito, acho que gostaria de jantar com o Manuel João Vieira (tal como referi no post abaixo). Também poderia ser o Jeremy Irons, pela voz, e pedia-lhe que me dissesse poemas. Ou o Malkovich para ver se, armado em malandreco, passava a língua pelos lábios, insinuando inconfessáveis gulodices. 
2. Gostaria de ser célebre? De que maneira?
Não, não gostaria de ser célebre. Ou, se fosse, sê-lo como a Elena Ferrante que não se chama Elena Ferrante e que ninguém sabe quem é ou onde vive. 
3. Com que se pareceria um dia perfeito para si?
Um dia simples, de manhã com passeio na praia, junto a um mar revolto, o areal envolto em brumas, as gaivotas inquietas. Um almoço numa esplanada ao sol, talvez num restaurante grego, com a família alegre e ruidosa como sempre. Depois dormir ao sol, nua, onde ninguém me visse. À tarde passear numa floresta, com caminhos atapetados de musgos, árvores muito grandes, riachos, regatos, pássaros. Um picnic numa clareira, uma toalha no chão, um livro, alguém a dizer poesia. À noite, em casa, lareira, amigos, uma festa, jantarada preparada por mim. Depois, a seguir, quando os outros saíssem... (não quero dizer, cenas cá minhas). E, a seguir, dormir dez horas de seguida.
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Jon Lord - Afterwards 
Poema de Thomas Hardy lido por Jeremy Irons

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Amanhã, se estiver neste meu indolente e exaustivo comprimento de onda, repesco mais algumas perguntas daquela lista e ponho-me aqui a responder. Se no fim, os meus leitores estiverem quase apaixonados por mim, a culpa não é minha, é das perguntas. O pior é se as minhas leitoras também ficam na mesma...
(... embora, pensando melhor, pior porquê?)
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As fotografias mostram um mundo maravilhoso e são da autoria de Alix Willemez. Lá em cima a Buika canta Las Simples Cosas.
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E queiram, por favor, descer até onde o cão Lulu espanta o mau astral que fica onde a Marilú passa.

(e se isto estiver carregadinho de gralhas, por favor, relevem)


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