Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, abril 17, 2016

Animais como nós




Quem convive de perto com animais sabe da sua inteligência. Conheço pessoas que têm cães de guarda nas suas propriedades e que os tratam como se fossem coisas. Aliás, nem tratam, têm alguém que trata. Se os cães estão doentes, o mais provável é que morram pois isso nem é tema. Podem estar uma vida inteira com uma corrente de ferro presa, de um lado, à coleira e, do outro, à casota onde vivem.

A minha cadela, uma boxer meiga e cor de mel, viveu quase treze anos connosco, em casa, tendo privilégios praticamente idênticos aos dos humanos que cá habitam. Nos dias de verão, levantava-se a meio da noite e vinha pôr-se debaixo da nossa cama. Sabia-lhe bem o fresco do chão de madeira. Nas noites de inverno, dava um salto para cima da nossa cama e vinha aninhar-se entre nós, por cima dos cobertores. Como era enorme, ocupava imenso espaço, tendo eu, muitas vezes, que dormir encolhida para não cair da cama. Mas nós concedíamos-lhe essa prerrogativa. A casa era também dela e nós éramos os seus bons amigos. Pelos meus filhos tinha uma adoração brincalhona, provocava-os, pedia farra e desafios, e eles retribuíam com alegria e mimo esse amor incondicional.

Não tem conta as vezes em que me abracei a ela e ela a mim. E esperta, esperta. Eu falava com ela e ela punha a cabeça de lado para me ouvir bem e perceber o alcance das minhas palavras. Depois agia em conformidade. Era obediente, meiga, bem disposta. Se eu dizia que fosse buscar a bola, ela ia à procura e regressava com a bola, se eu pedia a bolinha, logo quase saltava para me aparecer, pouco depois, com a bola pequenina, se pedia o brinquedo, ela buscava por todo o lado até aparecer com o brinquedo. Se eu, dentro de casa, pedia um pau, ela olhava-me ainda mais de lado, intrigada, e ficava a olhar para mim, perplexa e paciente, até que eu reconsiderava e pedia uma coisa razoável. Mas se estivesse no campo, ela achava normal e abalava a correr logo me aparecendo, a seguir, com um pau.

Nunca me passou pela cabeça tratar a minha caçulinha como se ela fosse um ser inferior. E se há imagem que guardo, e ainda com enorme tristeza, é dos seus últimos tempos, tão doente, tão sem forças, a olhar-me com tanta tristeza e eu, cobarde, quase incapaz de aguentar a tristeza e impotência do seu terno olhar.

Desde que comecei este blog que tenho vontade de falar sobre ela, mas chego a este ponto e não consigo, fico logo com lágrimas nos olhos. Custou-me tanto, tanto, que é difícil descrever. Tive tanto desgosto quando ela morreu como tive com a partida de alguns dos meus mais próximos familiares. Quem nunca tenha tido animais dificilmente poderá perceber como se pode gostar tanto de um animal, pode tender a achar que são carências afectivas que são compensadas desta forma. Nada mais errado. Ama-se um animal como se ama uma pessoa, não como compensação de alguma coisa, mas com amor de facto.

Hoje, comecei o meu dia com uma caminhada pela beira rio. Como sempre andei de volta dos gatos. Hoje estavam em cima das rochas, ao sol. Aquele ali em cima espreguiçava-se e depois deixava-se estar, pensativo, a olhar o céu. E todas as suas expressões me pareceram superiormente inteligentes. Eu a fotografá-lo e ele, ali, indiferente à minha proximidade, olhando as árvores, o céu, o tempo tranquilo.

De tarde, encantei-me, de novo, com a inteligência que se percebe no olhar de outros animais. Desta vez nas aves de rapina de Mafra.


Os animais têm um porte altivo, um olhar que, em alguns casos é quase cego, mas noutros parece arguto, superior, condescendente.




O rapaz que esteve a falar connosco sobre estas belas aves falava com entusiasmo, com verdadeira estima, descrevia proezas, depois  enternecia-se e falava com gentileza das cataratas de uma coruja mais velhota. Gostei de o ouvir.

Agora estive a passar as fotografias para o computador e a escolher algumas. De gosto aqui teria mostrado mais, tão encantada fiquei com a beleza destas belas aves. Mas não vos maço mais com isto e vou escolher fotografias para vos falar do resto da minha tarde.

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Entretanto, desejo-vos já um belo dia de domingo.

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Entretanto, se aterraram agora aqui e ainda não leram o que escrevi sobre as proezas do Bloco de Esquerda, a saber: a mudança de sexo a la minute, a mudança de sexo do cidadão no cartão e a fúria (nitidamente um acesso de TPM) da Catarina Martins contra um espantado António Costa, queiram, por favor, continuar a descer.


6 comentários:

P. disse...

UJM,
Inteiramente de acordo consigo nisto dos cães. Quando nos morreu um anterior, aqui há uns 5 anos, foi um desgosto enorme cá por casa. Atá os nossos filhos, lá fora, sentiram e muito a falta dele. Hoje, temos outros 2, da mesma raça, Whippets, que são a nossa alegria. Sempre que um de nós chega a casa a festa que nos fazem, a virem cumprimentar-nos! E sim, também gostam de pular sobre as nossas camas e ficarem aninhados ao fundo da cama, a fazerem-nos companhia. Gosto de animais, respeito-os e choca-me a agressão e maus tratos sobre eles. É inaceitável.
Lá diz um ditado, que um de meus tios, irmão de meu pai costumava dizer, tantas vezes:" quanto mais conheço os homens, mais gosto dos cães!"
P.Rufino

josé neves disse...

Cara de "Um Jeito Manso",
Venho aqui para dar uma palavra acerca do vosso post sobre as "Mulheres de Atenas" que só agora li.
Já tinha confessado antes que lera quase tudo mas não os gregos e isso nota-se perfeitamente no modo ligeiro como tratou o problema das "mulheres de Atenas". Essa ligeireza é patente ao propor uma confrontação sem mais de costumes e práticas sociais entre uma sociedade de há 2500 anos com a sociedade actual. E abusa dessa situação ao legendar um quadro de Apásia como a "amante" de Péricles, um termo cujo significado e sentido moral de hoje ou não existia para os gregos e por isso mesmo as titulavam de "heteras" que não eram "mulheres por conta" como uma vulgar amante mas, como diz um helenista francês , "As raparigas particularmente dotadas para o canto e para a dança eram com frequência treinadas como heteras".
Aspásia é a mais célebre porque cativou Péricles (este deu o divórcio à mulher e assumiu viver com Aspásia)e exerceu uma grande infuência sobre os costumes atenienses mas, também Praxíteles teve a sua Frine, Platão a sua Arqueanassa, Epicuro as suas Dánae e Leôncia, Sófocles a sua Teóris e Míron a sua Làide. E porquê, porque as heteras eram as únicas mulheres cultas de Atenas.
Embora sendo Atenas uma demoracia esclavagista e consequentemente o estatuto das mulheres estar inteiramente sobordinado aos homens e ao serviço do tear e trabalhos domésticos nem por isso deixou de haver mulheres livres como Safo de Lesbos e aquelas que nas tragédias gregas aparecem como sendo activas e inteligentes como Medeia, Antígona e outras.
Mas sobretudo, nesta sociedade de homens e esclavagista onde a filha era do pai e a mulher do marido sem quereres ou vontades, os racionalistas gregos punham-se a discutir e filosofar, como Platão pela boca de Sócrates, acerca de uma sociedade perfeita onde existiria uma "Comunidade de Mulheres" cuja defesa vai sendo fundamentada por Sócrates, lógica e racionalmente passo a passo, até chegar à conclusão: "Por conseguinte, meu amigo, não há nenhum emprego respeitante à administração da Cidade que pertença à mulher enquanto mulher ou ao homem enquanto homem; pelo contrário, as aptidões naturais estão igualmente distribuidas pelos dois sexos e é próprio da natureza que a mulher, assim como o homem, participe em todos os empregos, ainda que em todos seja mais fraca do que o homem".
A sociedade da democracia grega só foi possível pela liberdade de pensar e racionalizar todas as questões da existência e também do papel dos escravos, dos sábios, da justiça, da moral, dos deuses e religião e também das mulheres dentro do seu tempo e conhecimentos. Não é possível comparar seriamente aquela sociedade com a de hoje e muito menos opondo uma à outra através dos costumes ou moral.
E mesmo que a comparemos, salvo determinados aspectos mais primitivos que entretanto foram sendo ganhos da humanidade, ficam sérias dúvidas acerca da grandeza de uma e outra.

Um Jeito Manso disse...

Caro José Neves,

Lamento mas, uma vez mais, tresleu o que escrevi.

Diz-me no seu comentário: "Venho aqui para dar uma palavra acerca do vosso post sobre as "Mulheres de Atenas" que só agora li.
Já tinha confessado antes que lera quase tudo mas não os gregos e isso nota-se perfeitamente no modo ligeiro como tratou o problema das "mulheres de Atenas". Essa ligeireza é patente ao propor uma confrontação sem mais de costumes e práticas sociais entre uma sociedade de há 2500 anos com a sociedade actual."

Ora eu não 'tratei' nem 'propus' coisa nenhuma. Todo o texto é a transcrição directa de uma parte do livro 'Os gregos'. Não acrescentei uma opinião nem comentei. Nada. Apenas um excerto do livro.

Apenas já um pouco à parte, no final, juntei uma imagem de Artemis, nome pelo qual fui 'retratada' por um poeta. Quase como legenda, referi que não me revia em Artemis como não gosto do que leio sobre a forma como os gregos (de então, claro) olhavam as mulheres. De resto, se fui buscar isto de Artemis foi para, de certa forma, fazer a ligação com o início do texto que transcrevi: 'Passar da perfeição civilizada de Sófocles e de Platão para a vida grega em bruto é quase como sofrer uma deslocação mental.' Sim, usei a palavra 'amante' para me referir a Aspásia na sua relação com Péricles e acho que isso não desmerece a sua dimensão intelectual.

Ou seja, concluindo: se achou que o que leu era conversa minha, só posso ficar contente pois estará a assumir que a minha escrita não fica aquém da de Kitto e isso é um senhor elogio.

E gosto que comente e que acompanhe o 'Um jeito manso' mas, se me permite, não queira ler para além do que está escrito. E agradeço os apontamentos que aqui deixou que enriquecem o conhecimento.

Talvez até os puxe, mais logo, para o corpo do blog.

Obrigada.

Um bom domingo, Caro José Neves.





josé neves disse...

Também podia ler em Kitto logo na Introdução que "a democracia, como os gregos a entendiam, é uma forma de governo que o mundo actual não conhece nem pode conhecer. Mas se não viviam numa democracia, os gregos eram, pelo menos, «membros», não súbditos, e os princípios da governação, toda a gente os conhecia. O governo arbitrário ofendia os gregos até ao fundo da alma"
Só este parágrafo, ao iniciar a sua história de "Os Gregos" basta para alertar alguém atento que, tentativas de comparar o pensamento e comportamento dos gregos clássicos com a nossa sociedade actual só para grandes helenistas e mesmo assim cairá sempre em simplismo e formulas redutoras.
Ainda,o facto de se fazer uma transcrição (ou tradução)não iliba a responsabilidade da autoria dessa escolha pois quando faz essa não faz outras de sentido diferente ou oposto transparecendo, muitas vezes claramete, mais o que pensa a autora da transcrição do que o autor transcrito.

P. disse...

Há hoje, sobretudo na historiografia inglesa, muita informação sobre a Antiga Grécia e, no caso em questão, sobre as mulheres desse tempo e das diversas categorias de “prostitutas”, que de facto possuíam características diferentes e destinavam-se a fins igualmente diferenciados, como as “dicteriades”, as “auletrides” e as “hetairae”, sendo as primeiras as de mais baixa categoria, trabalhando em bordeis, as seguintes, “auletrides” (que significava “tocadoras de flauta”), possuíam mais instrução e capacidades, tais como cantoras, músicas, dançarinas, etc. Por fim, as “hetairae” eram as de mais elevado estatuto, devido às suas qualidades e conhecimentos intelectuais, de beleza, educação, etc. Muitas, como já se disse, ficaram na História dessa grande civilização, que foi a Grécia Antiga, “o berço da nossa civilização actual”. Terá sido Solon, o grande reformador dessa época, que terá criado os primeiros “bordéis” (“porneia”), com vista a que aos cidadãos nunca faltasse “conforto sexual”. Curiosamente, a iniciação sexual dos mancebos muita das vezes fazia-se através de contacto com homens mais velhos, os “erastes”, com quem o tal adolescente , “eromenos”, acabava por ter uma relação sexual. O sexo entre homem e rapaz era comum nessa época e fazia parte da cultura e hábitos de então. Para as mulheres casadas, nessa altura, sexo três vezes por mês era considerado suficiente para qualquer cidadã casada.E o guardião de uma mulher solteira, se aquela fosse apanhada em “flagrante delito” tinha o direito a vendê-la como escrava. Sobre este tema haverá muita coisa para dizer e contar, mas também pode ser maçador. Agora, há autores e, sobretudo, autoras – historiadores/as -, cujos relatos e descrições desses tempos, bem como das situações e respectivos hábitos culturais, que sabem ser cativantes para quem é leigo na matéria e cuja leitura acaba por se desfrutar, com prazer (salve a redundância). É preciso avançar vários séculos, até chegar à Renascença, para se encontrar um tipo de “prostitutas” semelhantes às tais “hetairae”, como algumas famosas cortesãs italianas (“somptuosa meretrize”), cuja designação acabou por vir a ser a de “cortegiana honesta”, em vez de meretriz. Eram mulheres que para além de serem muito belas, possuíam um elevado grau cultural e até social. Algumas pintaram, outras eram poetisas, etc. Verónica Franco (pintada por Tintoretto) foi poetisa e escritora, Beatrice de Ferrara, cuja casa ficou célebre pelo esplendor e que foi modelo de Rafael, foram alguns desses exemplos. Voltando à Grécia, há uma pintura mural em Pompeia (que recomendo vivamente que se visite – fiquei fascinado) que retrata Safo, a tal poetisa Grega. E na Roma Antiga, Aesia Pola foi uma das raras mulheres a exercer medicina, actividade que posteriormente veio a ser proibida às mulheres Romanas. E já que se fala de prostitutas, deixo-lhe uma curiosidade: Roma é talvez a única cidade do Mundo a ter uma praça, ou melhor, pela dimensão, praceta, dedicada a uma “cortesã” (“cortesã honesta”), que significava, mais ou menos, “mantida por alta roda”, na pessoa de Fiammetta Michaelis, que foi amante entre outros de Cesário Borgia, filho do Papa Alexandre VI. Fiammetta tinha residência perto da dita praceta que hoje tem o seu nome e “costumava deslocar-se à igreja de Sant’Agostino para se confessar, rezar e fazer inúmeras doações generosas para as almas do Purgatório. Acabou sepultada naquela igreja, embora os vestígios da sua sepultura tenham desaparecido.
P.Rufino

Um Jeito Manso disse...

Caro José Neves,

A ver se a gente se entende: aqui eu faço o que me apetece sem ter que dar explicações ou, muito menos, ter que me preocupar com o que qualquer um lhe der na cabeça tresler.

Não gostou da passagem que eu transcrevi? Olhe, sabe o que lhe digo? - Paciência.

Não ia transcrever o livro todo ou, antes de escolher uma passagem, pedir-lhe autorização para o que poderia fazer sem ferir a sua sensibilidade. Ou passa-lhe pela cabeça que era isso que eu deveria fazer?

Mais: não sigo religiões nem clubes desportivos nem reconheço quaisquer vacas como sagradas. Por isso, se me apetecer escolher uma parte de um livro, faço-o, e era o que me faltava ter que estar a dar justificações a quem tira conclusões e as atribui a mim - que não tirei uma única.

Mas, se quer que lhe diga, aquilo que me fez apetecer transcrever aquela passagem em particular nem foi aquilo que porventura (não faço ideia a que propósito) pensa que foi. Foi um aspecto que atravessou séculos e civilizações e que ainda hoje é muito notório, inclusivamente em quem se diz tão devoto da civilização grega.

De resto, volto a dizer-lhe: se gosta de passar por aqui a ler o que escrevo, tente limitar-se a ler o que eu escrevo.

Estamos entendidos, José Neves? Se ainda não, diga que eu tentarei explicar-me melhor.

Uma boa noite.