Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, março 05, 2016

As escolhas de Cavaco: desta vez, Barahona Possolo para seu retratista oficial enquanto Presidente -- e o que eu digo é que teve sorte. Vá lá que ao Barahona não lhe deu para pôr o Aníbal a fazer de cartaginês depravado. Vá lá.





Sempre que o Cavaco ou a Srª Dona Cavaca fizeram escolhas nos domínios artísticos franzi o sobrolho. Os meus santos não cruzam com os santos do casal em nada, mas em nadica mesmo, nem nas fadistas, nem nas artistas plásticas, nem nos costureiros.

E digo isto agora porque andava em felgas. Interrogava-me: quem irá ele escolher para seu retratista? 

Vontade de ressuscitar o Malhoa não lhe deve ter faltado. Aquele lá, sim, pintava como deve ser, devem eles ter suspirado dias a fio. E a Maria até deve ter condescendido: Se ele fizesse questão, até não te importavas de ficar com uma guitarra ao colo. Mas ele, com aquele pragmatismo tão bastamente documentado nos seus Roteiros, deve ter rematado a conversa: Mas não dá, não dá, vamos tirar daí o sentido.

Uma coisa tinham eles como certa, e isto desde o início: com a Paula Rego é que ele não se ia meter.


Terá D. Maria dito: Vai que aquela maluca te põe outra vez a coçar o que não deves e a mamar na teta de uma velha. Ainda iam dizer que a velha sou eu. Essa gentinha peçonhenta é capaz de dizer tudo. Ou vá que não, que te pinta como deve ser mas, já sabes, com ela nunca se sabe, vá que ainda te põe cabeçudo, pezudo e enjoado, com uma república de fantasia ao lado, como fez ao pobre do Sampaio... Nem pensar.


A Dona Cavaca também deve ter resolvido: Com o Pomar é melhor também não te meteres, que dali não ia sair boa coisa, ainda te fazia todo abstracto e às cores mas, com a mania de ser engraçado ainda te punha a dares ares de cagarra embasbacada a olhar para uma vaca risonha. Não, o Pomar também não. Resultou com o Soares mas é porque do Soares o Pomar gosta... agora de ti... ui... medo....


E muito ela se deve ter lastimado: A nossa Joaninha pintar não pinta, porque se pintasse era ela mesmo, e posavas num cadeirão com um naperon nas costas, ao pé de uma mesa redonda coberta por uma camilha de renda, de rosetas e, em cima, um candeeiro com abat-jour com franjas feitas de tampões e, aos pés, um cão feito de crochet. Até parece que estou a ver. Mas não, é pena mas não dá, a nossa Joaninha é mais bibelots. 


O consultor artístico deve ter sugerido o Julião Sarmento,  era uma hipótese, iam dizer que afinal o Cavaco era moderno mas a Dona Cavaca não é moça de ir em conversas, deve logo ter alertado: Vai que ele te pinta só as pernas ou te põe inclinado e sem cabeça? E ele deve ter dito, Capaz disso é ele. Risca, Maria.


Um dia, alguém lhe deve ter dito: A Clotilde Fava também faz umas figuras engraçadas, pinta bem, é do estilo quase realista. E o casal Mariani, já em desespero, deve ter dito: Então, se calhar.

Mas as amigas da Dona Maria devem ter-lhe segredado: É melhor não, o seu esposo não ia gostar, e não é por ela ser ex-sogra do Sócrates, é mais porque ele ainda se arrisca a sair com cara de preto ou de peixe. Ao que a Maria deve ter ido a correr ter com o maridinho: Ai filho, disseram-me umas coisas, olha, a Clotilde também não.


E assim devem ter andado, dilema atrás de dilema, todos descoroçoados, O que é que a gente resolve, Maria? Qualquer dia já não dá tempo, vê lá se ajudas, mulher.
Sei lá eu, homem, por mais que puxe pela cabeça já não me sai nada, que é tu queres? Mas olha lá: tu já perguntaste ao Liberato? Não?! Então pergunta, homem, que aquilo lá é ladino, sabe tudo.

E portanto alguém lhes deve ter dito (se calhar até foi mesmo o Liberato, sei lá): Há um tipo que tem mão. E devem ter mostrado ao casal uns quadros em que o Barahona se manteve na linha, tudo tão realista que até parecia uma fotografia, tudo nove horas, nem um fio fora do lugar. E o casal deve ter-se entreolhado e, à uma, deve ter ter feito um alegre give me five e dito em uníssono: Feito!

E assim foi.

Claro que ninguém os deve ter avisado da desbunda que volta e meia grassa pelas pinturas do Barahona. Uma coisa que só vista. Na última exposição que vi dele até tive que, volta e meia, desviar o meu pudico olhar. Um realismo que até faz impressão, benza-os deus.




Claro está que ao Barahona Possolo vontade de despir o Cavaco -- e pô-lo em poses impróprias para consumo -- não lhe deve ter faltado. Quiçá até pô-lo com um espelho à frente onde se reflectisse a imagem do seu alter-ego, a sua alma gémea: a Dona Maria Cavaca em pessoa. Ou todo barrigudo, prenhe de si próprio, e, a espreitarem lá atrás, os amigos do BPN. Mas vá lá, não sei como, conseguiu conter-se e parir um Cavaco igual a ele mesmo. Teve sorte nisso, o Cavaco. Vá lá.


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Já agora, para quem não conhece a obra de Carlos Pedro Barahona Fernandes Possollo de Carvalho (Lisboa, 5 de Agosto de 1967) -- filho de Abecassis João Martins Possollo de Leão Vasco de Carvalho (Alenquer, Aldeia Gavinha, 8 de Fevereiro de 1928), de ascendência Italiana e Alemã, e de sua mulher Luísa Cândida Calleça Barahona Fernandes --  aqui fica um vídeo que mostra bem a sua mão para retratos e a sua imaginação transbordante.

Chamo a atenção para que algumas das pinturas poderão chocar algumas almas, especialmente as mais dadas a apreciar modelos masculinos do género dos que aparecem no vídeo linkado no post abaixo. Portanto, aqui fica o meu aviso: vão com calma.

Estou a avisar.


Recomendo ainda (a maiores de 18, conforme lá se aconselha) a visita ao site do grande Barahona.

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Lá em cima, o acompanhamento musical do post esteve a cargo de Kátia Guerreiro e Anselmo Ralph, numa de transição do actual presidente para o futuro: 'Não me toca'

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A quem ainda não visitou o post que se segue, no qual se recomenda a algumas figuras uma ida ao espaço para ver se crescem 5 cm e onde se faz referência a um curioso concurso para homens, sugiro que vão por aí abaixo.


4 comentários:

Rosa Pinto disse...

Oooo que pena ter fugido ao habitual...ou então. ..tenho uma mente que só Deus sabe...slgo teria wue seguir viagem para o espaço. ..crescer 5, vá 10 cm.

Eu gostava de uma pintura destas...acentuando volumes do corpo.

Anónimo disse...

Ei, o Barahona é muito à frente. Podia ter usado no Cavaco algum desse imaginário repescado do fim da Idade Média ou podia ter feito qualquer alusao à sexualidade do Cavaco. Enfim, plantou lá uns livros.

Claudia Sousa Dias disse...

Olhem que não sei...uma amiga já me tinha avisado...tendo em conta a obra, o currículo e aos antecedentes...já reparam bem como é que sua Excelência segura a caneta? Depois de ver isto, de facto dá que pensar...

Um Jeito Manso disse...

Rosa, Cláudia e Anónimo(a),

Pois eu tenho cá para mim que o Barahona, que acho que é moço que não brinca em serviço, terá feito o retrato oficial e, nas horas mortas, terá feito um outro: o retrato secreto do Cavaco. Nu, numa posição muito bizarra, (e, coitado, a precisar de ir ao espaço), com a sua Maria também numa pose pouco recomendável, e a trupe de amigos, todos nus, rastejantes, todos a deixar muito a desejar. Lá ao fundo, provocador, o pequeno Liberato, sorrisinho malandro, acabado de chegar do espaço, de uma longa temporada no espaço (if you know what I mean).

Um abraço!