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sábado, fevereiro 20, 2016

E a resposta é... Basílio. Primo Basílio.
Who else meus caros, who else por amor da santa...?


Acabei o post lá de baixo assim: Não, cara amiga leitora, ele não é o canalha que partiu o seu coração. 

E agora completo:

Ele é Basílio, personagem de Eça de Queiroz do livro "O Primo Basílio", que levou sua prima Luísa, de vinte e poucos anos, à ruína.





Publicado em 1878, o romance deveria ser leitura obrigatória para todas as meninas em fase de formação. 

Não apenas porque a narrativa é pungente e questiona os valores das famílias ditas tradicionais, tampouco por tratar-se de um grande clássico, com personagens riquíssimos; nem por nos prender à sua narrativa do começo ao fim das 266 páginas; mas porque, para além da chantagem que Luísa - a prima que se apaixona pelo primo galanteador – sofre da sua criada invejosa Juliana (que descobre a traição da patroa, casada com Jorge), podemos entender a lógica desse tipo de homem:
"Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris com aquele trambolhozinho! Trazer uma pessoa, havia sete anos, a sua vida tão arranjadinha, e patatrás! Embrulhar tudo, porque à menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora, o descaro! No fim, toda aquela aventura desde o começo fora um erro! Tinha sido uma ideia de burguês inflamado ir desinquietar a prima da Pratiarcal. Viera a Lisboa para os seus negócios; era tratá-los, aturar o calor e o boeuf à la mode do Hotel Central, tomar o paquete e mandar a pátria ao inferno - e ele, burro, ficara ali a torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipoias para o Largo de Santa Bárbara para quê? Para uma daquelas! Antes ter trazido a Aphonsine! Que verdade, verdade, enquanto estivesse em Lisboa o romance era agradável, muito excitante; porque era muito completo! Havia o adulteriozinho, o incestozinho. Mas aquele episódio agora estragava tudo! Não, realmente, o mais razoável era safar-se"!
Imagino que se eu tivesse lido a obra de Eça de Queiroz aos dezasseis anos teria poupado muitas lágrimas inúteis em minha vida e teria pensado algumas vezes antes de me jogar de cabeça em certas relações com janotas como Basílio. Talvez nunca tivesse pensado, como Luísa:
"As qualidades de Basílio apareciam-lhe então magníficas e abundantes como os atributos de um Deus. E estava apaixonado por ela! E queria vir viver ao lado dela! O amor daquele homem, que tinha esgotado tantas sensações, abandonado de certo tantas mulheres, parecia-lhe como a afirmação gloriosa de sua beleza e da irresistibilidade da sua sedução. A alegria que lhe dava aquele culto trazia-lhe o receio de o perder. Não o queria ver diminuindo; queria-o sempre presente, crescendo, balançando sem cessar diante dela, o murmúrio lânguido das ternuras humildes".
A pomba Luísa teve um final trágico - aliás, o final do livro é arrebatador –, porém não senti pena dela. Afinal, não passava de uma mocinha que vivia numa província, em 1878, que nada sabia da vida. Senti pena de nós, mulheres ditas modernas, que vivem sua sexualidade livremente, trabalham, têm acesso à informação, grau universitário; mulheres viajadas, inteligentes, cultas, independentes, que sabem se vestir, falam várias línguas, comandam empresas, escrevem romances, mas que ainda, sim, caem nessa pantomina.

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Na música "Amor I love You", de Marisa Monte, consta um trecho do livro - referente aos sentimentos de Luísa ao receber a primeira carta “apaixonada” de Basílio – na voz de Arnaldo Antunes. 
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Nota: Para os que têm dificuldade de interpretar texto, informo que as características citadas no começo dessa resenha (beleza, educação, erudição, gentileza, etc) são sempre muito bem vindas, em homens e mulheres, não há nada de errado com elas. O erro acontece quando tais características são usadas de modo perverso, como ferramentas de manipulação, como Eça de Queiroz nos demonstra brilhantemente com seu personagem Basílio.
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Quer o texto acima quer os que constam dos posts anteriores não são de minha autoria. Foram escritos por  Mônica Montone para a Obvious e trouxe-o aqui porque me parece uma forma inteligente de motivar o gosto pela leitura. Nos excertos anteriores dei um ou outro pequeno toque para não se perceber que estava escrito em português do Brasil.

Claro que me dá uma certa pena que, se for ao Youtube procurar vídeos sobre o Primo Basílio, só me apareçam (ou, pelo menos, apareçam nos primeiros lugares) vídeos brasileiros. E canções com excertos de Eça de Queiroz...? Alguma vez alguém se lembrou disso? Que eu saiba, zero.

Mas nós, portugueses de Portugal somos assim: parece que só damos valor ao que vem de fora. Valorizarmos a nossa literatura de uma forma abrangente e 'viva' parece que não é connosco. 
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Transcrevo ainda do Youtube, o texto que acompanha o vídeo que, veja-se bem, é obra de alunos de uma escola pública brasileira:

Publicado a 30/09/2013

Trabalho Escolar do 3º1Escola: Profª Magdalena Sanseverino Grosso - Artur Nogueira-SP (Brasil)


SINOPSE:

"O Primo Basílio" conta a história de Luísa, jovem sonhadora e ociosa da sociedade lisboeta, que acaba envolvida por Basílio, seu primo, com quem se reencontra, após anos de distância. Achando-a sozinha, já que Jorge, o marido, viajara a negócios, Basílio serve-se de sedução e galanteios, até levá-la a se envolver profundamente consigo, tornando-se sua amante. Juliana, a criada, descobre a corres­pondência trocada por ambos e chantageia a patroa.

Após sofrer muitas humilhações e ter que se submeter aos caprichos da crudelíssima criada, Luísa consegue, ajudada por um amigo, reaver as cartas; e Juliana, pressionada a entregá-las, ante as ameaças, acaba morrendo do coração. Após tanto sofrimento, Luísa adoece. Basílio, de há muito, encontra-se longe de Lisboa. Jorge regressa ao lar. Certo dia, chega uma carta do primo para a esposa e o marido intercepta a correspondência e toma conhecimento de tudo que ocorrera.

Desesperado e sofrendo demasiadamente, ainda assim Jorge resolve perdoar Luísa. Ela, no entanto, piora muito ao saber que o marido descobrira tudo o que fizera de errado, e vem a falecer. A reação de Basílio, ao saber da morte dela, é de pesar, por ter perdido sua diversão em Lisboa. Destaca-se, ainda, na obra, a figura do Conselheiro Acácio, amigo do casal, caricatura repleta de formalismo e hipocrisia.

A obra, um dos clássicos da literatura, é de Eça de Queirós.
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E, portanto, o louvor vai em exclusivo para a Teresa Diniz que adivinhou. Parabéns!


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom sábado.

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2 comentários:

Rosa Pinto disse...

Parabéns à vencedora.
Pronto ...tb não vale morrer como a Luísa. ..

Claudia Sousa Dias disse...

Genial! Eu pensei, sinceramente, que fosse o Miguel Sousa Tavares.