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terça-feira, fevereiro 16, 2016

Aceitar e sentir-te em qualquer lugar e em todas as situações, estejas tu perto -- ou longe.
Palavras de João Paulo II dirigidas a Anna-Teresa.


O Cardeal Wojtyla e Anna-Teresa Tymieniecka num viagem de campismo em 1978

Durou cerca de 30 anos, tendo-se estendido até depois de ser Papa e durando até poucos meses antes da sua morte, a intensa amizade entre Wojtyla, mais tarde João Paulo II, e Anna-Teresa Tymieniecka, uma filósofa polaca, casada.


O Papa no Vaticano, já bem velhinho, com Anna-Teresa Tymieniecka

O Papa com Anna-Teresa quando eram mais novos

A amizade mais parecia um afecto romântico, frequentemente com contornos de paixão, e traduziu-se em centenas de cartas. Só ele escreveu-lhe mais de 350.

É sabido o poder terrível que as palavras têm nisto dos afectos: é como se uma ligação directa entre quem escreve e quem lê se estabelecesse, sem barreiras pelo meio. A magia das palavras deve ter sido o combustível que ajudou a para manter acesa a chama da emoção ao longo de tantos anos.

Contudo não deve ter sido fácil: nem para ela, que era casada, nem, sobretudo, para ele que era cardeal e, mais tarde, Papa. Por vezes, nas cartas, Karol Wojtyla referia a procura por uma forma cristã de lidar com o sentimento que se tinha instalado entre eles.

Amante da vida ao ar livre, o Papa com Anna-Teresa na neve

Uma intimidade profunda e crescente é evidente nas palavras que ao longo do tempo ele lhe escreveu. Mas a relação não foi apenas epistolar já que se encontraram por diversas vezes. Em várias cartas, ele refere a recordação dos lugares onde estiveram juntos.

Não há, contudo, provas de que os votos de celibato tenham sido quebrados.

Quando o Papa sofreu uma tentativa de assassinato, ela largou tudo para voar para o seu lado: “I am overwhelmed by sadness and anxiety, and want desperately to be close to you,” escreveu ela num telegrama “I arrive on Saturday…” Foi uma das poucas pessoas a poder estar com ele na Gemelli Clinic para o acompanhar enquanto ele recuperava da cirurgia feita de urgência.

Quando lhe foi declarado Parkinson, ela foi o suporte emocional de um homem debilitado.

E eu acho isto extraordinário. Não percebo porque se exigem votos de castidade aos padres até porque, como é sabido, não são raros os casos de comportamentos pouco 'católicos' -- mas, sendo esse um tema quase tabu, acho que este amor trará forçosamente uma nova luz sobre as verdades absolutas que têm sido o terreno onde têm frutificado todos os dogmas.

E aqueles que clamam virtudes e tão facilmente batem com a mão no peito, sempre prontos a censurar as fraquezas alheias, deveriam meditar bem neste episódio fantástico da história do agora Santo João Paulo II.

Jimmy Burns, que escreveu uma biografia de Francisco, o actual Papa, diz que isto apenas humaniza o anterior Papa “If he managed to have a good, strong emotional relationship, without breaking his vows, it humanises him. From an ethical point of view, one can’t hold anything against him,” 


Para já apenas se conhecem as cartas que ele lhe escreveu. Existem, claro, várias centenas escritas por ela mas a essas ainda não foi dado acesso -- que eu saiba.


The letters 'intimate' Pope John Paul II and a woman



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma serena e feliz terça-feira.

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2 comentários:

Anónimo disse...

Eu achei fantástica esta notícia. A carta é uma das formas de comunicação que transmite mais afecto. Porque é pensada com cuidado e porque é pessoal. Tenho muita pena que esteja em extinção e fiquei agradavelmente surpresa que um papa ainda tenha tido tempo para as escrever. Rita

Anónimo disse...

Um contraste com um seu antecessor, o Papa Pio V, que odiava as mulheres e veio posteriormente a excomungar Isabel I de Inglaterra (na sua guerra religiosa contra ela), acusando-a de “serva do vício e adoradora do Diabo e de ter cometido adultério 17 vezes!” Já alguns dos Papas da Renascença, designadamente Alexandre VI, foram bem diferentes, no que ao sexo feminino respeitou (e até ao masculino, que o diga Júlio II).
P.Rufino