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quinta-feira, janeiro 28, 2016

Disse-lhe que a situação me fazia lembrar 'O velho e o mar'


No post abaixo já falei do ex-deputado que, em tempos, precisava de pimenta na língua, o José Eduardo Martins, e que, nos frente-a-frente da SIC N, se porta como a versão bijeenche do catavento. Para evitar cenas maçadoras daquelas, com as quais já não se aguenta, apresentei umas quantas sugestões. Os Departamentos de Programação das televisões deviam pôr os olhos no que eu digo, que, entretenimento por entretenimento, que seja a valer.

Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra. Recordações de novo, recordações de um tempo que me parece tão estranhamente longínquo. Recordações que irão sair com um certo toque de nostalgia, quer-me cá a mim parecer.



Era um homem que todos diziam frio e implacável. Muito rico. Despudoramente rico. Podendo usar carro de serviço usava os seus carros pessoais, carros antigos, vintage, lindos. Quem percebia do assunto, fazia estimativas para o valor dos carros: uma exorbitância que deixava alguns muito irritados (exibicionismo, diziam muitos). Tinha também um motorista particular. Os muitos detractores alegavam que era para tratar de negócios secretos, pouco abonatórios. Também lhe atribuíam negócios com ouro ou diamantes por terras de África. Um dia ele disse, Dizem muitas coisas mas poucas são verdadeiras. E contou-nos a proveniência da sua fortuna. Segundo ele, não passava pelo ouro nem por pedras. Também disse, Falam muito dos carros que uso. Uso-os porque gosto muito deles e porque, tendo eu possibilidades, acho que não devo usar carro de serviço. Também falou do motorista: era alguém a quem se tinha afeiçoado, já trabalhavam juntos há muito tempo, fazia recados para a família, tratava de tudo o que fosse preciso. Se podia pagar a alguém de quem se tinha tornado amigo, porque haveria de recorrer a motoristas de serviço?

Quando o filho se casou, a festa foi fantástica. Convidou-me. Convidou os colaboradores mais próximos. Muita gente, família, amigos, quer do lado dele quer do lado da noiva. Uma tenda gigante numa zona plana da sua belíssima quinta. Estava um belo dia de verão e um ambiente muito agradável. A mulher, o oposto dele, dançou a noite toda. Ele não, manteve-se reservado, quase silencioso. Mas via-se que estava feliz. Sorria vendo a alegria e a vivacidade da mulher.


Mas era implacável, sim. Quando desconfiava da lealdade ou da seriedade de algum colaborador, munia-se de provas, cercava-o sem que ele se desse conta. Depois, quando confrontava o prevaricador, o golpe era rápido e certeiro. Tantas e tão inequívocas as provas que quem assim era confrontado apenas tinha que aceitar as condições que lhe eram propostas para se ir embora. E tinha um feeling impressionante. De um colaborador antigo, que toda a gente tinha por exemplar, teve uma desconfiança estranha. Tão melindroso era o assunto que apenas confiou em mim para o ajudar a confirmar. Fiquei chocada, quase ofendida. Como duvidar assim de uma pessoa tão leal, tão séria? Inflexível, inalterável, pediu que eu lhe desse o benefício da dúvida e que fizesse o favor de atender ao seu pedido, só isso -- e de maneira que ninguém desconfiasse. Senti-me a pior das criaturas por estar a ir na cantiga dele. Mas pior fui ficando à medida que fui confirmando aquelas suas absurdas desconfianças. Nem queria acreditar. Antes de o informar do que quer que fosse, muni-me eu, pela calada, de todas as provas possíveis. Não havia dúvida: aquele de quem ele tinha desconfiado e em quem eu confiava sem pestanejar andava mesmo a roubar – e de uma forma absolutamente ardilosa, quase indetectável. Foi despedido de um dia para o outro. Ninguém soube das razões, foi como se o próprio tivesse tido razões para sair. Quando lhe perguntei como tinha desconfiado, disse-me que alguém lhe tinha dito que tinha encontrado num certo Casino uma pessoa que ele talvez conhecesse, o tal. Só isso. A partir daí, através de perguntas inocentes, foi percebendo que algumas pequenas pontas pareciam ligeiramente soltas. Desconfiou que tivesse o vício do jogo. Pensou que só com o ordenado, não conseguiria fazer face a dias de infortúnio. Pensou que de algum lado haveria de vir o dinheiro. Penso que, no fundo, foi o faro do predador.

Mas mesmo em situações menos redutoras, agia de forma irredutível, tranquila, segura. Uma vez, numa acesa reunião, um dizia que não concordava, que não podia aceitar o que ele queria. Ele dizia que agradecia a sinceridade da opinião mas que se faria como estava a dizer. O outro, ao fim de alguma insistência, levantou o tom de voz e disse que, com ele, aquilo não se faria. A mesa estava cheia. Ele, impassível, disse O senhor doutor está enervado, talvez seja preferível sair para ver se consegue acalmar-se. O outro, desabituado de ser tratado dessa maneira, ainda por cima em público, respondeu secamente: Não preciso de ir lá para fora. Mas ficou corado, quase parecia um puto que tivesse levado um raspanete. Ele, tranquilo, disse-lhe, Como queira, senhor doutor, esteja à vontade, se sentir que precisa respirar ar fresco ou dar uma volta, esteja à vontade. O outro não piou mais.

Vi-o anular várias resistências sem levantar o tom de voz. De todas as vezes teve razão em fazê-lo mas a forma como o fazia, de facto fria e implacável, assustava. Ficava-se com a sensação de que podia matar alguém a sangue frio, sem se alterar. Geralmente, a seguir, prosseguia como se nada se tivesse passado. Era uma pessoa muito educada mas inexoravelmente distante.

E era um jogador destemido. Arriscava sem medo, com a convicção de que, estando a fazer o seu melhor, mesmo que errasse teria tentado dar o seu melhor. Quando pensava numa dessas jogadas arriscadas ouvia várias pessoas. Geralmente desaconselhavam-no, aconselhavam prudência. Ele ouvia em silêncio. Depois vínhamos a saber qual a sua decisão, geralmente a que tinha em mente desde o princípio.  

Era desconfiado, não o escondia e, por isso, temiam-no. Um amigo meu ficava nervoso sempre que ia falar com ele. Quando vinha de lá, muitas vezes ia ter comigo ou telefonava-me para desabafar: ‘Acho que passei… mas olha, foi mesmo à tangente. Filho da p…!’


Comigo não se passou isso: nunca senti que desconfiasse de mim, nunca o temi. Muitas vezes, a conversa acabava com ele a fazer-me confidências. Acabei por me tornar o seu braço direito. Eu confiava nele, ele confiava em mim. Sendo a pessoa mais racional que até hoje conheci, era, noutras circunstâncias, absolutamente crente na minha intuição. Perante movimentações de risco que eu lhe propunha, esperando eu que ele as dissecasse e as analisasse numa perspectiva racional, e eu queria que ele o fizesse para me fazer sentir segura, ele olhava para mim e perguntava-me ‘O que é que a sua intuição lhe diz?’ E se eu, por dentro meio assustada, lhe dizia que sentia que era de arriscar, ele concluía, ‘Então, força’.

Encontrava-o geralmente durante o dia mas quase parecia ao lusco-fusco. Corria quase completamente os estores, dizia que com muita luz não via muito bem, e geralmente só recebia uma pessoa de cada vez. Quando havia mais pessoas para a conversa, a coisa convertia-se em reunião e decorria noutra sala.

Uma vez, havia uma cena importante em curso. Ele chamou-me e disse-me qual a sua ideia. Achei coisa de envergadura, não sabia se tínhamos pedalada nem se os outros que ele queria envolver teriam peito para isso. Parecia-me um sonho impossível. Mas ele acreditava. Falou com todos, de facto aderiram, confiavam nele -- era, verdadeiramente, um lobo ou, melhor, aquilo a que se chama um falcão. Metemo-nos, pois, nessa aventura. Mas, como logo percebemos, os dados estavam viciados.

Lutou como um leão mesmo quando era mais do que óbvio que não poderíamos ganhar. No fim, quando a derrota se confirmou, tivemos um enorme desgosto, ele mais do que todos os outros. Apesar de não levantar a voz, quase parecia que, por dentro, rugia. Ou uivar em silêncio como um lobo revoltado, esfaimado.

Resolveu avançar para os tribunais. Dissemos-lhe que estávamos com ele. Estávamos.
Mas eu alertei: Se fizer isso, será certamente destituído. Respondeu-me que não acreditava que o fizessem, que era um cidadão livre, que podia fazer o que quisesse na sua vida privada sem que isso interferisse na sua vida profissional. Homem conservador, lembrou-me a mim, cujo coração sempre bateu mais à esquerda, Vivemos em democracia, miúda.
Avançou (avançámos) em força para os tribunais. Gastei algum dinheiro nisso mas ele muito mais, muito mais do que qualquer um dos outros. Não quis acordos, queria mesmo a reparação do erro. Por vezes parecia querer sangue, de tão revoltado que estava. Mas sempre educado, aspecto sereno, voz baixa. Sentia que estava com a razão e, quando assim era, só estava habituado a ganhar. Várias vezes lhe dei o meu apoio mas dizendo-lhe que achava que o corredor se estava a estreitar, que talvez fosse preferível desistir, aceitar um acordo ou desistir mesmo. Que não, que não era pessoa de se ficar pelo caminho.


Um dia, algum tempo depois, estranhei que não quisesse falar comigo durante o dia como habitualmente. Chamou-me ao fim do dia, a escuridão era quase total. Disse-me em voz baixa: Fui destituído. Tinha razão.

Fez-se silêncio. Durante um bocado, não fui capaz de dizer nada. Depois disse-lhe que me estava a lembrar de O Velho e o Mar. Ele fez que sim com a cabeça, que percebia a analogia, mas que não poderia ter feito outra coisa. Não sei o que lhe disse a seguir mas lembro-me do que ele me respondeu: Sinto que as suas palavras são um abraço. Nesse dia fiquei muito triste, senti que um capítulo importante da minha vida estava a chegar ao fim.

Foi-se embora.  Tinha (e tem) as suas próprias empresas e muitos bens. Nada daquilo ali lhe fazia falta. Estava lá porque gostava daquilo, porque tinha ambições muito legítimas, porque, de certa forma, tinha um sonho (que eu partilhava). Nessa altura perdi muitas das minhas ilusões. O país estava, de facto, votado ao empobrecimento a troco do favorecimento de uns quantos eleitos.

Já lá vão uns anos.

Deixou para trás alguns inimigos (alguns, ainda agora, com uma antipatia e rejeição tão fundas como na altura, o que é o costume quando se está perante pessoas carismáticas), muito poucos amigos e muitos, muitos admiradores. Eu, tendo conhecido, antes dele, pessoas extraordinárias, depois dele poucas mais conheci com a visão, capacidade de liderança, determinação e coragem que lhe reconhecia.

Um dia, tempos depois, num almoço, contei-lhe, Vou ser avó. Olhou para mim incrédulo, O quê, miúda…? A sério…?. Estava emocionado. Tantas guerras, tantas situações complicadas pelas quais o vi passar e sempre impassível, frio, e foi preciso saber que eu, a miúda, ia ser avó para o ver de lágrimas nos olhos. Tenho para mim que foi a constatação de que o tempo passa, de que a vida continua, de que aquele sonho de tempos antes haveria de ser esquecido, que de tão longínquo e de tão utópico que já parecia, haveria por não ser lembrado por ninguém, talvez nem pelos próprios que o viveram.

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O Velho e o Mar começou por ser um livro de Hemingway
(depois foi filme, animação, metáfora, etc)
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Os desenhos são da autoria da polaca Justyna Stoszek excepto o penúltimo, mais colorido, que é da autoria de Dimitra Milan (que tem apenas 16 anos). Lá em cima Kenny Wheeler & John Taylor interpretam Fordor.
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E, para uma coisa mais actual e para uns números a la Monty Phyton ou para uma padaraia muuuuuuiiito especial (a propósito da participação do José Eduardo Martins num debate da SIC) queiram, por favor, descer um pouco mais.

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1 comentário:

Claudia Sousa Dias disse...

Os desenhos são fabulosos.