Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, outubro 24, 2015

Está na hora de ir para casa, Sr. Cavaco Silva. Não desestabilize mais o País, não afronte mais a democracia portuguesa que custou tanto a conquistar, não inquiete os seus queridos 'mercados'. Go home, Mr. Aníbal, go home.
[E O processo de apagamento em curso - do brilhante FF- e um cartoon da Cristina]






Parafraseando um Leitor, regressei à superfície. Não ouvi o Cavaco (nem tenciono ouvir, que não sou masoquista) nem tão pouco li o que a pacóvia personagem disse. 

O que sei é do que me contaram e das reacções que li agora nos jornais online ou na blogosfera. Ouvi também, há pouco, parte do discurso do Ferro Rodrigues, na qualidade de Presidente da Assembleia da República. Foi eleito por uma maioria de votos, como sempre acontece quando há votações: por maioria. Felizmente temos uma esquerda que, finalmente, resolveu agir com inteligência, superando o que a desune e unindo-se em torno do que a une. Não sei se esta demonstração prática terá sido suficiente para demonstrar aquilo que, na teoria, os PàFs e o seu padrinho Cavaco não quiseram perceber.


Ouvi também apontamentos das reacções, em fóruns distintos, de António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. Contudo, todas as manifestações de irritação ou perplexidade face à decisão de Cavaco me parecem algo exageradas.

Confesso: como escrevi no outro dia (para ser publicado ontem à noite), não me espanta a reacção ressabiada e anti-democrática de Cavaco. Sempre assim foi, ele. Tem uma visão distorcida do que é o exercício político (por exemplo, estando há décadas a exercer nefasta acção política continua a achar que não faz parte da classe política portuguesa), não percebe bem como funciona a democracia e parece ter uma visão enviesada da Constituição. Como disse: sempre assim foi - e a verdade é que vai de mal a pior.

Por caridade para com o senhor, seria bom que o pudéssemos pôr em casa para o pouparmos ao nosso desprezo. Contudo, acho que o povo não tem esse poder - o que é uma pena.
A esperança agora está em que algum dos filhos ou netos o convença a que, para não acabar o cargo sob vaias e assobios e visto pelo povo como o pior presidente desta nossa República (para a qual ele mostrou estar a marimbar-se mas nós não), deverá renunciar ao mandato o quanto antes.

Entretanto, Passos Coelho andará a esta hora a ver se consegue alinhavar meia dúzia de patacoadas para fazer de conta de programa de governo (o que, nem isso, deve ser fácil dado que começa a destapar-se o que andou a esconder - nomeadamente a barraca que acabo de ouvir noticiar: a dedução da sobretaxa de IRS afinal não vai ser os 35% que ele e a Pinókia apregoaram durante a campanha eleitoral já que houve uma quebra súbita na colecta fiscal, imagine-se: de um mês para o outro! inesperadamente! por magia!). Deve também andar a ver se consegue arregimentar uma dúzia de figurantes para nos aparecerem como ministros na ópera bufa da tomada de posse. 

Cavaco Silva, com a sua inabilidade e estreiteza de vistas, lançou o país numa situação caricata (em que vai ver o seu pífio poder esboroar-se, sendo criticado abertamente por todo o lado, por toda a gente), numa situação instável, numa situação de nadar em seco - quando, pelo contrário, devíamos era estar a relançar a economia. Mas, ao mesmo tempo, tão zarolhas são as suas atitudes que, querendo atirar a matar na esquerda, o que conseguiu foi dar um tiro na coligação PSD e CDS e, de caminho, ficar com os próprios pés completamente esburacados.


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Ora bem. Não vi nem ouvi a comunicação do Cavaco excomungando os perigosos comunistas e bloquistas da influência política portuguesa mas caíu-me do céu aos trambolhões um vídeo que, consta, lhe serviu de inspiração.

A Sta Padroeira que, parecendo que não, ainda continua a ter alguns devotos


Discurso de Salazar, esse grande estadista, sobre o comunimo



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As imagens que usei para ilustrar o texto provêm, como tantas vezes acontece, do fantástico e inesgotável We Have Kaos in the Garden

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E, uma vez mais (sempre), Ferreira Fernandes assina uma crónica brilhante no DN: 

O processo de apagamento em curso


Cavaco Silva deve ser ouvido pela sua linguagem gestual. 
Quando apontou, esticou o dedo, enfim, indigitou Passos Coelho, entendemos. 
O pior é quando ele fala


(...) Dando-se conta de que talvez não, Cavaco voltou ao boletim. Desta vez, com a parte azul, a mais abrasiva, duma borracha, Cavaco continuou a sua sanha contra aquelas duas linhas malditas. Olhou-nos, outra vez: "E, agora, já perceberam?!" Achando-nos estúpidos, ele insistiu na explicação: com um X-ato, cortou as duas linhas. E com a convicção de que uma imagem vale mais do que cinco pareceres de constitucionalistas mostrou-nos os dois finos buracos em retângulo: os comunistas e os bloquistas tinham sido abolidos da democracia portuguesa. Eu estava num café quando ouvi o senhor Presidente da República. Olhei à volta e foi terrível. Percebi que as pessoas agora nem por gestos entendiam Aníbal Cavaco Silva. Aquilo era um olhar alucinado e poucos viram isso.
Saí do café a matutar na velha e desiludida ideia de que as pessoas só entendem quando lhes batem à própria porta. O abuso cometido, por enquanto, é só um problema "deles", os do PCE e do BE, só 996 872 portugueses, só 18,44% dos votantes, a quem acenaram com um direito que depois rasuraram, mas só a eles. Ninguém, para lá dos comunistas e dos bloquistas, pensou: e se amanhã outro alucinado também me quiser apagar?
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Esquerda com moção única de rejeição ao governo


(Cartoon de Cristina, no DN)
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E estava com vontade de escrever mais qualquer coisa para não acabar o dia com visco salazarento na ponta dos dedos, mas a verdade é que consigo. Estou mesmo perdida de sono. Colocar aqui por baixo algumas palavras ou músicas de jeito seria injusto, iria untá-las de ranço. Por outro lado, para fazer um post novo, estou sem ideias e sem energia. Por isso, com vossa licença, irei retirar-me.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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2 comentários:

Humberto Barbosa disse...

Boa noite caríssima UJM
Bem-vinda à superfície.
Hoje fiquei deliciado com as cenas na Assembleia da Republica.
Não estavam habituados à democracia. Habituem-se !
Desejo-lhe um óptimo fim de semana
HB

Anónimo disse...

Grande Post, cara UJM! Estes últimos acontecimentos, o discurso inqualificável de Cavaco Silva e a eleição de Ferro Rodrigues para Presidente da A.R merecem reflexão, embora por razões diferentes. Cavaco, convém nunca esquecer, durante este seu abjecto mandato condecorou um Pide e recusou a mesma distinção a Salgueiro Maia. Não nos deveremos pois surpreender que faça afirmações como as que veio a proferir ontem. Cavaco nunca foi, ao contrário do que demagogicamente afirmou, o PR de todos os Portugueses, mas, como agora ficou amplamente demonstrado, o de uma facção - a da Direita, PSD/CDS. Cavaco peca ainda por uma incapacidade de ser inteligente. É certo que já vinha apresentando há algum tempo a esta parte fortes sinais de alguma debilidade mental, mas com este seu anti-democrático discurso, ao indigitar Passos, revelou aquilo que já se suspeitava. O homem é um primário e incapaz, politicamente falando. Com aquele seu discurso, de ontem, conseguiu a extraordinária proeza de unir os Socialistas, ao propor-lhes a rebelião contra a sua legítima liderança (António Costa). E isso constatou-se hoje, sem margens para dúvidas, com a eleição de Ferro Rodrigues para Presidente da A.R. Que fez um excelente discurso, sem receio de deixar recados à minoria de Direita, mas sobretudo de criticar, com sabedoria, a “patética esfinge de Belém”. Gostei de ver os líderes parlamentares do PSD e do CDS em estado de exaltação extrema. António Costa, que aqui critiquei pela campanha eleitoral que vinha fazendo, tem vindo a surpreender os seus cépticos (onde me incluí, mas já não me incluo) e revelou-se um Líder e dirigente político de excepção, ao ter a coragem de mudar a página do panorama político. Como disse e bem, numa frase inspirada, o muro de Berlim acabou – e há muito! Sinceramente e ainda relativamente a Cavaco Silva, a criatura devia era ser destituída. Um PR que reduz Partidos democráticamente eleitos a Partidos de 2ª, que desqualifica mais de um milhão de eleitores, pelas escolhas, legítimas e democráticas que fizeram (como foi o meu caso), que tenta limitar o acesso à governação de Partidos democráticos, sufragados pelo eleitorado, só pelo facto de não serem da sua facção política, não deveria continuar exercer o cargo que ocupa. Infelizmente, a nossa Constituição não contempla este tipo de procedimentos, gravíssimos, como passíveis de serem susceptíveis de levar à sua destituição. Que fique o registo para um futura revisao constitucional. O PR é o Presidente de todos os Portugueses e como tal deve respeitar, por igual, todos os seus representantes na A.R. Este video sobre Salazar, vem, tristemente, mesmo a calhar. A diferença entre o manholas de Santa Comba e esta esfinge de Belém reside apenas...no facto de Cavaco ter de conviver (embora muito mal, como se tem visto) com uma Democracia. De resto, as semelhanças são, largamente, superiores ás diferenças. A começar, como recordei, na preferência em condecorar um Pide e negar o mesmo a um militar de Abril, como Salgueiro Maia. Quanto a Passos/Portas, agora até o inefável apoiante José Gomes Ferreira os vem atacar, com a tal história da dedução da sobretaxa de IRS. Este caso revela, uma vez mais, a falta de carácter deste ordinário governo. Apoiado por Cavavo Silva.
P.Rufino