Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, outubro 12, 2015

De amore


Nunca sofri nenhum desgosto de amor mas não gosto de o dizer. Há coisas que apenas devem ser faladas depois de uma pessoa ter oitenta ou noventa anos. Nessa altura podem ouvir-se confissões de um certo tipo com alguma ternura ou admiração. Antes disso, corre uma pessoa o risco de ser tomada por convencida ou mentirosa.







Hoje, ao ver um vídeo, o que abaixo vos mostrarei, pensei nisto: já assisti de perto a tantos fins de relacionamentos, às crises que precedem os finais que, tantas vezes, já se antevêem como inevitáveis, às dores de quem ama e se sente rejeitado, à frustração de quem sente que vive uma relação sem chama, em permanente apatia ou contagem decrescente. Mas eu nunca passei por isso. Talvez um dia o sinta (e já apaguei várias vezes o fim desta frase porque sobre as razões que poderão levar-me um dia a sentir isso eu não quero pensar).

Desde que me conheço que tive paixões e que fui objecto de paixões. Eram paixões infantis, as primeiras. 

O Pipas que saía da mesa dele para se vir pôr de joelhos agarrado às minhas pernas, aos beijinhos nos meus joelhos, todo escondido para a educadora não o ver. E o Tó, de que eu tanto gostava e que tanto gostava de mim, e que eu, sedutora avant la lettre, gostava de fazer sofrer causando-lhe ciúmes com outros. Ou o Carlinhos, filho de uma colega da minha mãe, que fazia toda a espécie de maluquices para chamar a  minha atenção e que eu estimulava, mostrando a minha admiração. Depois, aos 12 anos, o primeiro grande amor, o JP do meu coração. Um amor imenso, à rédea solta, ele um rebelde e, quanto mais rebelde, mais eu apaixonada. Os nossos corpos cresceram um com o outro. Descobria no meu corpo o efeito que o corpo dele provocava em mim. E eu nele. Ambos surpreendidos, tão meninos, tão apaixonados. Não falo de pequenas paixonetas que outros diziam sentir por mim, não falo dos bilhetinhos de amor que recebia, presentinhos inocentes. Eram-me indiferentes. Quebra-corações, dizia de mim a Menina Alzira, contínua no Liceu. E vinha dizer-me: o Raul, anda caído por ti e não tem comparação com o maluco do JP. Onde tens tu a cabeça, rapariga? O Raul era mais velho que eu, moreno, olhos verdes cor de mar, alto, lindo. Mas faltava-lhe qualquer coisa, faltava-lhe entregar-se de corpo e alma -- que eu sou assim, tenho que sentir que, sem mim, a vida de quem me ama perde o sentido. Quando jogava futebol o JP rebentava-se todo, ficava esfolado, andava à pancada com os adversários, ficava quase roxo de tão encarnado, a blusa encharcada colada ao corpo, o cabelo escorrendo, todo ele sujo. Quando marcava golo, procurava-me logo com os olhos e eu, nas bancadas ou no terra ao lado do campo, delirante de alegria como se ele tivesse ganho o Nobel. E, no fim, vinha ter comigo, contente, e eu derretia-me por ver que ele tinha feito tudo aquilo para, no fim, ver o meu amor por ele. Fazia tantas coisas loucas, tantas; volta e meia era ameaçado de expulsão do liceu, outras vezes ia passar noites na esquadra e isso tornava-o, aos meus olhos, o meu grande herói, e, depois, vinha ter comigo e era meigo, tinha uns lábios muito quentes, umas mãos macias e ternas. E era muito inteligente, um aluno brilhante -- um provocador de quem quase todos os professores gostavam muito mas que uns dois ou três odiavam.

Mas depois veio o poeta trovador, desestabilizou tudo. Ao contrário dos que escondiam as suas paixonetas porque sabiam que o meu coração tinha dono, este exibia a sua paixão, desafiava o JP, desafiava-me a mim. Foram tempos conturbados. Zangas devastadoras e reconciliações arrebatadas. Todos os dias. Um fogo que não se extinguia.




Mais tarde, zanguei-me com o JP e talvez aí, sim, tenha sofrido qualquer coisa. Mas não era desgosto, era raiva, raiva por ele ter ciúmes, raiva por não me vir implorar que o desculpasse por ser tão parvo, vontade de me vingar, e havia uma máxima a matraquear na minha cabeça: 'rei morto, rei posto', ou 'se é para ter a fama, vou mas é ter o proveito'. E, portanto, contrariada, comecei a namorar o trovador. Nessa altura, talvez tenha voltado a sentir um pouco de mal de amor mas era às escondidas. Via o descaminho que estava a levar a vida do JP e sofria por isso, queria impedi-lo mas o orgulho não mo permitia, queria que ele me puxasse para os seus braços e me beijasse e, em vez de lhe dizer isso, continuava a namorar com o poeta. Acabei por me desligar do JP, a vida separou-nos. Afeiçoei-me ao trovador, ele gostava tanto de mim que eu, sentindo-me tão amada, acabei por confundir o gostar de ser amada com amar.




Mas, por essa altura, já na faculdade, eu gostava de me sentir olhada, desejada. No verão, levemente bronzeada, gostava de vestir um vestido decotado branco e sentir os olhares em mim. E um certo vestido verde, de seda, curto, colado ao corpo. Ou jeans justinhos, blusas justinhas, o cabelo ondulando nas costas. Despertava paixões, sim, e gostava de fingir que as ignorava. E gostava de sentir que aqueles a quem eu atraía sentiam ciúmes uns dos outros e gostava de lhes mostrar que eu não estava nem aí. Enquanto isso, o meu namorado sentia uma paixão cega por mim, idolatrava-me, eu era a sua musa - e nunca percebeu que, mais que sua namorada de corpo e alma, eu era sobretudo a sua allumeuse, era aquela que o inspirava mas, de facto, com o coração inacessível.

Até que surgiu o outro. E aí foi o coup de foudre absoluto de quem já muitas vezes aqui falei. Conto isto porque este outro é o meu marido, ele sabe bem o que se passou. E os meus filhos também sabem.

Acabei por me decidir por ele, causando um brutal desgosto de amor ao trovador, desgosto que durou anos e que se manifestava publicamente. E, que não se pense que sou insensível, porque, claro, que também me custou causar esse sofrimento tão profundo. Mas as pessoas são como são e as circunstâncias também ajudam.

O texto vai longo pelo que acabo já.




Mas quero, antes, ainda dizer mais algumas coisas: não sou ciumenta e acho que isso é uma virtude nisto dos assuntos de amor. Quase toda a gente que vi em crises amorosas, é gente que padece de ciúmes ou vontade de controlar ou ser controlada. Nunca fui ciumenta, nunca controlei ninguém (da mesma forma que também nunca me armei em frágil, querendo que tomassem conta de mim - embora, por vezes, o seja e embora goste de colo, sempre que dele preciso). Tenho para mim que, nisto dos afectos, não quero disputar coisa alguma, muito menos o lugar no coração de alguém. Quem gostar de mim, será pelo que sou, tal qual sou - e não porque eu, a golpes seja do que for, afaste alguém do lugar ou me esforce por alcançá-lo. Não me faço passar por mais nova, por mais bonita, por mais inteligente, por mais culta, por mais simpática. Sou como sou. Se alguma vez tivesse sentido ou se vier a sentir que aquele que o meu coração ama já não gosta tanto de mim como eu quero ser amada, será, na hora: bye bye, há mais marés que marinheiros. Não quero sacrifícios, fretes, favores. E o pensar assim dá-me uma liberdade mental que me impede de ter ciúmes. Tenho também muito claro na minha cabeça que homem que valha a pena entregar-se a gente emocionalmente a ele tem que obedecer a alguns requisitos. Se os não tem, então o bye bye é logo à partida, nem vale a pena qualquer investimento emocional. Se, por exemplo, é vingativo, mesquinho, se faz contabilidade ao tostão sobre quem paga a conta, se é preconceituoso, fútil, armado em engraçado sem ter gracinha nenhuma, ou coisecas do género, então não vale a pena qualquer esforço. Também acho que não vale a pena uma pessoa afobar-se a procurar o outro. A vida, na sua imensa sabedoria, encarrega-se de colocar na nossa frente aquele que, como por magia, aparecerá para encher de amor a nossa vida. Virá com sorrisos, com as mãos cheia de amor, com abraços no olhar, com poemas ainda húmidos, acabados de colher, com irreverências sedutoras, com malícias nos silêncios, com a doçura que nos dobra o orgulho, com a tolerância que nos protegerá de nós próprios, com a teimosia que vencerá as nossas resistências. Só temos que estar disponíveis e deixar que a vida nos aconteça.

Não sei se esta é a receita para não se ter desgostos de amor mas, comigo, é isto que se passa.



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E este, aqui abaixo, foi o vídeo que me fez escrever este texto. A coreógrafa Talia Favia conta um rompimento amoroso através da dança, ao som de « Let It Go » interpretado por James Bay. Os bailarinos são Chaz Buzan e Courtney Schwartz.


Let it go - a breakup story


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As fotografias são de Mert and Marcus e as fotografadas, como é bom de ver, não têm nada a ver comigo (se eu fosse assim, era modelo como elas ou uma performer como a incomparável Madonna que figura na primeira fotografia). 

A música lá em cima é I love the way you're breakin' my heart interpretada por Nicki Parrott.

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Permitam que vos refira que, descendo um pouco mais, entrarão num outro mundo: o do humor e das coisas muito sérias.

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