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domingo, setembro 20, 2015

Uma Europa manietada por acéfalos*




Falava-se de centenas, depois de milhares, pouco depois passámos para as dezenas e centenas de milhares e agora já se fala que cerca de dois milhões e meio de refugiados estão às portas da Europa, preparando-se para entrar; e, mais: que, se os conflitos que grassam como uma peste nos países de onde eles fogem persistirem, poder-se-á falar de doze milhões de pessoas.

Hoje, numa reportagem (fantásticas as reportagens da RTP), um homem dizia que, porque no barco vinham cerca de mais 20 pessoas do que os que cabiam, nove homens se tinham atirado ao mar para que os outros sobrevivessem. Ouvi isto e fiquei quase paralisada. Tudo isto tem uma grandeza que vai para além das escalas que eu conhecia.

Todos os dias há naufrágios, mortos, crianças ao colo dos pais percorrendo caminhos, de noite, comboios transbordantes de gente que dorme de qualquer maneira, campos onde gente se amontoa como animais para abate, hordas de famílias inteiras apenas com uma mochila nas mãos. Uma invasão de gente que, fugindo da morte, tudo enfrentará. No outro dia, ouvi uma mulher dizer, numa outra reportagem, que lhe levassem ao menos a filha que ela, caso não pudesse acompanhá-la, voltaria para a Síria (certamente, para morrer na Síria). Ouve-se isto e percebe-se a dimensão sobre-humana da coragem desta gente.

E, enquanto isto, nas caricatas instâncias europeias, agendam-se cimeiras com semanas de antecedência, porque é tudo gente com agendas muito preenchidas: cimeiras em que se reúnem os ministros das pastas respectivas em cada país.

Neste caso não é de finanças que se trata, é de segurança (acham eles). De Portugal foi, então, uma senhora que mal consegue falar quando está assarapantada e que parece que ainda não percebeu bem qual o seu papel no meio do filme onde se meteu. Ora, se não consegue dar conta do recado com cabos ou sargentos da GNR, imagine-se o que terá ela ido fazer numa cimeira onde se foi discutir o que fazer com esta vaga imensa de gente desenraizada, cansada, tudo fazendo para sobreviver?

Se todos os outros ministros dos outros países forem do calibre desta Anabela Rodrigues estamos conversados. Como a dita cimeira não deu em nada, agora parece que vai haver uma outra mas subindo na hierarquia. Ora alguém consegue ver que da intervenção do láparo possa nascer algum contributo que se aproveite? Zero. Presumo que não vá para lá tentar habilidades verbais, trampolinices infantis e outras afoitezas com que costuma brindar os seus concidadãos. Por isso, na melhor das hipóteses ficará calado. E não é só ele: pense-se no galarucho do Hollande e nos outros todos que por lá se atrapalham uns aos outros.

Está a acontecer agora o que aconteceu com a crise financeira: nessa altura, uma avalancha a desabar sobre os países e os atrasados mentais que se alaparam por tudo o que é lugar de poder a fazerem avançar os contabilistas para a travar. Os países a caírem que nem tordos às mãos dos especuladores financeiros e os chernes e outros totós de cabeça à nora sem conseguirem fazer o que quer que fosse. Lá apareceu, então, o Draghi que, do mal o menos, pôr a impressora a trabalhar e vá de despejar dinheiro para cima dos países. Claro que, como politicamente a desregulação se manteve inalterável, o dinheiro está a servir para a Alemanha e os outros mais fortes sacarem o seu dos países endividados e para os endividados continuarem a endividar-se alegremente.

Contudo, agora é pior, esta crise é bem pior. Agora, a ineficiência daquelas cabeças ocas traduz-se nas tragédias diárias a que estamos a assistir e que tendem a agravar-se.

Nos países de origem daquela pobre gente nada acontece para se atalhar o problema na raiz: a brutalidade animalesca continua à solta na Síria e em todos esses países cuja instabilidade foi alimentada por estes mesmos totós. E, portanto, o êxodo continua, intensifica-se.

E estes atrasados mentais, em vez de se entenderem e perceberem o problema brutal de que estamos em presença, arranjam soluções para mil ou duas mil pessoas aqui e ali, uns fazem barreiras, outros favorecem a acção de voluntários - ou seja, na prática, brincam aos escuteirinhos.

Não sei como vai isto acabar. Não sei mesmo. 

E, sobretudo, não lavemos as mãos: quem elege aqueles inúteis somos nós, quem permite que a Europa esteja como está, sem liderança, sem alma, sem tino, somos nós.

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*Acéfalo, significando que não tem cabeça, é um adjectivo. Acéfalos, como substantivo, refere-se a uma certa classe de moluscos, de reduzida cabeça. Portanto, parece-me bem assim: substantivo.

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1 comentário:

Corvo Negro disse...

Não carece de comentário (o texto fala por si), mas merece um muito grande e prolongado aplauso. Bem-haja.