Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, setembro 19, 2015

As armas balanceiam no resguardo das donzelas


No post abaixo falo e mostro a brilhante Senhora Cor de Rosa que atirou o Láparo ao tapete, falo de António Costa com o RAP e digo quais as minhas previsões relativas aos resultados das eleições. Podem anotar para na noite das eleições falarmos. Vão por mim. Não sou nada parecida com o Cavaco (em nada mesmo e, muito menos, naquela coisa de nunca ter dúvidas e de raramente me enganar), pelo que assumo que esta minha previsão é apenas intuição (mas a intuição, calma aí, não é coisa de somenos, é apenas um shortcut usado pela inteligência).

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, vocês desculpem-me mas, depois do meu dia de hoje, tenho que me desviar disto tudo.

Vamos lá.





Leva-me pela mão. Leva-me. E conta-me o que me quiseres contar. As tardes estão amenas, as folhas tombam, douradas, os pássaros cantam, e eu estou pronta. Passearemos, amor, de mãos dadas, pelas alamedas cobertas pelas copas das grandes árvores e tu, enquanto passeamos, porque sabes que me agradarás, perguntarás, sabes aquele poema que fala das palavras interditas? E eu direi, sei, mas quero ouvir a tua voz a dizê-las; diz. E tu, em voz baixa, abraçar-me-ás e, junto ao meu ouvido, contar-me-ás que

Os navios existem, e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios

Sim, leva-me até à beira do rio, mostra-me os navios, embala-me no ondular das marés. Leva-me. Eu vou.

Estou à janela. Espero-te. Olho o portão ao fundo, espero que o sino toque. Ou que o abras e entres e, lá de baixo, me acenes. Sairei correndo, o vestido esvoaçando tal como esvoaçando estará o meu coração.

Mas demoras. Porque demoras tanto, amor? 

Entretenho-me pensando. Penso que vou pedir que me digas, a seguir, um poema que me fale de pássaros brancos. Não sei de nenhum mas tu, que sabes todas as palavras mesmo as ainda não escritas, saberás. E dirás, a voz leve,

As asas do pássaro
que vê com os olhos de Deus
abrem-se com as tuas mãos.

E eu, surpreendida, enlevada, direi, tocas-me as mãos, tocas-me os olhos, tocas-me o coração. Mas, depois, perguntarei mas porque achas que o pássaro é branco? E tu sorrirás e dirás que o pássaro é branco porque é meu irmão, o meu reflexo. 

Sim, visto-me de branco. Virgem. Sou virgem. Hoje vesti-me de noiva. Coloquei brincos de pérola, enfeitei os meus cabelos com flores brancas. Estou nesta casa silenciosa, uma música líquida tocando lá dentro, e eu, aqui, à janela, esperando por um noivo que virá para me levar por entre caminhos de sombra e sussurros. Mas demoras, amor. Olho-me ao espelho, os meus olhos sempre tão tristes. Faz-me rir, amor. Ou não. Ensina-me. Conta-me de outras mulheres. Fala-me de mulheres imorais. Ensina-me para que, talvez então, me procures. Dir-te-ei, fala-me de perdições. E, então, tu abrirás um fosso na tua voz e dir-me-ás em voz quase rouca

Requebros do manto vencem o olhar
perde-se a folha
onde escreveu o seu saber - ave, que não, o
o simples mundo serpenteante

E eu olhar-te-ei e pedir-te-ei, desdobra-me o manto, ensina-me a voar. Ou despe-me o manto. Despe-me. Não me deixes assim, inutilmente vestida de noiva, eternamente de branco.

Mas tu não vens. Anoitece e tu não vens. Os cães estão tranquilos, não ouço passos. Não vens. Não me trazes a tua voz nem o teu olhar nem as tuas mãos.

Mudo o penteado, o toucado, a pintura. Destruo a virgindade do meu olhar.




Ensaio malícias, travessuras. Quando vieres, amor, e os cães lá em baixo ladrarem porque a noite já vai alto, encontrar-me-ás igual às que te prendem. Vais ver. Os meus olhos provocarão os teus, surpreender-te-ei, dir-te-ei  

Morrer de amor 
ao pé da tua boca 

Desfalecer 
à pele 
do sorriso 

Sufocar 
de prazer 
com o teu corpo 

E tu, então, talvez me olhes como nunca me sonhaste. Talvez eu me dispa. Eu. Eu, não tu. Deitar-me-ei e olharei para ti com o meu olhar de mulher vestida de branco, sem mácula, sem pecado. À espera. E, como se delirasse, direi

as donzelas, solevados cimos, inquietam no
veneno na estúrdia casta do papel

E tu, silente, inquieto, olhar-me-ás com espanto. Quem és tu?, perguntarás. E eu nada te direi. Se queres saber, pois descobre tu.




Ou talvez te peça, despe-me como despes as outras mulheres. Verás como, por baixo do vestido de noiva, estarei coberta por quase nada. Despe-me. Não tenhas medo. Despe-me. Vê como é o meu corpo. Apanho o cabelo para que melhor vejas o meu pescoço, o meu colo, as minhas pernas, os meus braços nus. Olha como te olho. Se eu não tenho medo, o que temes tu? Olha-me, devora-me com o olhar que eu não fugirei porque, sabes, eu, de ti, nada temo. Olha-me. Toma-me. Sou um cisne branco, sente-me. 




Mas nada sinto. Não te sinto. Estás longe. Não sinto as tuas mãos. Terei, pois, que te recriminar. Terei que te fazer sentir culpado. Talvez te diga, Ah, como és cuidadoso. Ou não, cuidadoso não. Cobarde. Vê como baixas os olhos. Não baixes. Olha para mim. Aproxima-te. Toca-me. Sente a minha pele morna, macia, virgem. Não fujas. Vê como é o meu corpo, os meus seios de menina, os meus lábios que te esperam, a serpente que se enrola de desejo, o meu ventre. Olha-me. Olha-me. Olha este corpo que te aguarda, este corpo tão desconhecedor dos prazeres que o teu olhar promete e que as tuas mãos não procuram.




Mas tu não vens. Não virás. Raramente vens. Penso em ti a cada minuto que passa, tudo o que penso é como se o falasse contigo, tudo o que sei é para te contar, tudo o que quero aprender quero que me seja ensinado por ti.

Mas tu estás longe. Nunca vieste. Não sei sequer quem és.

Sento-me, então, triste, noiva que nunca noivou, e sonho. Sonho. Sonho que um dia serei a mulher que um dia tomarás nos teus braços, que de ti escutarei belos poemas de amor, que um dia navegarás dentro do meu corpo virgem, branco, branco como um barco silencioso atravessando as brumas das madrugadas vazias.

E adormeço. Perdida.



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As fotografias mostram Cara Delevingne (que é capa da Revista E do Expresso deste sábado).


Os excertos de poemas são, respectivamente, de Eugénio de Andrade, Richard Zimler, João Miguel Fernandes Jorge, Maria Teresa Horta e, finalmente, outra vez, João Miguel Fernandes Jorge (o título do post pertence a um dos seus poemas).

Na harpa, Catrin Finch interpreta Clair De Lune

Tom O'Bedlam diz Taking Off Emily Dickinson's Clothes de Billy CollinsEmily Dickinson nos últimos anos vestia-se de branco, pensa-se que morreu virgem. Vivia solitariamente.

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Caso queiram agora ver a Senhora Cor de Rosa ou saber as minhas previsões para os resultados das próximas eleições, façam o favor de descer até ao post já aqui a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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1 comentário:

Rosa Pinto disse...

Bom dia. Bom fim de semana.