Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, setembro 06, 2015

O importante não é ser perfeito, o importante é ser inteiro


Desintoxiquei-me do meu vício do Expresso mas este sábado tive uma recaída. Quis ler o artigo sobre a situação na Ucrânia, que a agenda mediática já deixou cair e que, por motivos vários, é tema que me interessa.

E foi com uma certa saudade, tenho que confessar, que antes de me debruçar sobre esse artigo, me atirei aos cronistas que, antes, faziam com que eu, semanalmente, não prescindisse o Expresso. Destes, foi como que a medo que logo procurei José Tolentino Mendonça: ia com receio que, desta vez, não tivesse saído nada de marcante e fosse uma oportunidade desperdiçada já que nem tão cedo conto voltar a compre o jornal. Mas, thanks God, não me desiludiu - muito pelo contrário.






E se o tema da crónica me é particularmente querido, a mim que luto contra o determinismo absoluto que parece alastrar por todo o lado, como se a vida tivesse que ser uma sucessão de factos (ie, de feitos) para atingir objectivos previamente determinados...!
Como me custa que pareça encarar-se o imprevisto como um corpo maligno que deva ser extirpado ou como se o ideal fosse previamente ocupar todo o tempo e todo o espaço para que não haja lugar a acomodar situações inesperadas. 
Ou como me parece fútil que algumas pessoas se apresentem permanentemente como vítimas, como se fossem predestinadas à desventura apenas porque lhes sucedem alguns infortúnios. 
Ou como me custa ver como outras quase desprezam os que valorizam os pequenos nadas como se estes fossem mentalmente desvalidos por não se deixarem abater perante as desgraças do dia a dia.
Ou como há intolerância perante pequenas fraquezas, quase querendo condenar à fogueira do opróbrio público quem não foi capaz de se eximir a insignificantes pecadilhos, como se apenas fossem dignos de respeito os que, de tão perfeitos, se apresentem como anódinos e amorfos seres. 
Tolerância, generosidade, inclusão, disponibilidade para a surpresa dos instantes, maravilhamento: tudo isso para mim são vectores que tento que norteiem a minha vida. Talvez nem sempre o consiga mas tento-o. Humildemente, tento-o.

Durante anos e anos sentia-me estranhamente abençoada: sem doenças, oriunda de uma família saudável, de gente que vivia até tarde, eu era, até não há muito tempo uma pessoa que tinha ainda vivos não apenas os pais mas também os avós (excepto o que morreu de acidente quando eu era pequena), e todos os tios - tudo gente a respirar saúde. Depois, um a um, os avós foram indo e, surpreendentemente, até uns tios saudáveis foram desta para melhor em três tempos. Depois o cerco apertou-se e vi o meu núcleo mais estreito também ferozmente atacado. Do lado do meu marido também tem sido um vê se te avias.

No outro dia, por causa de uma outra situação triste, fui ver as fotografias do casamento da minha filha e reparei como, de lá para cá, já desapareceu tanta gente de um lado e de outro.

Fez-me impressão, por pouco não me punha a contar os que, naquele dia, riam felizes e que, agora, poucos anos decorridos, já não pertencem ao nosso mundo. Mas não contei porque pensei que, nisto, não faz sentido fazer contabilidades até porque, para ser correcta, deveria também fazer a contabilidade dos que nasceram de lá para cá.

É que, ao mesmo tempo, tanta gente que, então, não existia, hoje por aí anda saltando e rindo. Ainda há cerca de um mês nasceu mais um, desta vez mais um filho de um primo meu que já tinha idade para ter juízo - se a memória me não atraiçoa já tem uns 54 anos.

Assim é a vida.

Imprevistos, insucessos, tropeços, sustos, desgostos, ausências que nos esquartejam, mas, pelo meio, alegrias, orgulhos, ternuras, surpresas, momentos de amor e felicidade.

De cada vez que passamos por agonias, mais valor damos aos bons momentos, de cada vez que passamos por sofrimentos e que constatamos quanto é efémera a vida, mais nos apegamos à brevidade imaculada dos instantes.

E eu, de cada vez que levo um abanão, mais sinto necessidade de me encontrar disponível para me maravilhar com as pequenas coisas pois sei que pode vir o dia em que as queira ver e não consiga, em que queira andar e não possa, em que queira abraçar a vida e a sinta fugir-me entre os dedos.

...

E, agora que já divaguei, transcrevo, então, uns excertos da crónica de José Tolentino Mendonça na revista E do Expresso deste sábado - e espero que tenham tanto prazer em lê-los quanto eu.




A vida sem mais


Vivemos numa sociedade dominada pelo mito do controlo. E o seu postulado dogmático é este: a receita para uma vida realizada é a capacidade que tivermos de controlá-la a 360º. Ora, não percebemos até que ponto uma mentalidade assim representa a negação do princípio de realidade.

De repente, uma ideia de vida substitui-se à própria vida. A nossa viagem passa para as mãos de um piloto, que só tem de aplicar, do modo mais maquinal que for capaz, as regras previamente estabelecidas. Os nossos sentidos adormecem. Deixa de haver lugar para a surpresa. As nossas expectativas desenham uma determinada arrumação, construímos previsões e esquemas. Mesmo insconscientemente vamos perseguindo essa espécie de guião. Uma coisa, porém tenho aprendido: é importante não condicionar o fluxo espantoso da vida e a capacidade que ela tem de nos surpreender. A nossa vida é um instante em aberto. Somos chamados a cultivá-la, sim, com a paciente humildade que um jardineiro reserva ao seu jardim. Ele trabalha de sol a sol, com todo o afinco, mas sabe que a rosa floresce sem saber como. Felizes aqueles que, em relação à vida, se alimentam do espanto interminável: esses, e só esses, sentirão a sinfonia inacabada do tempo como uma promessa. (...)


Teremos, em algum momento do caminho, de recuperar a sensibilidade à vida, à sua desconcertante simplicidade, ao seu canto frágil, às suas travessias. Por vezes, gostaríamos que a vida fosse mais redonda, mais linear, não tivesse aquele solavanco, aquela ferida, não tivesse passado por aquele estremecimento, não incluísse este contraste. Mas em nós coexiste o próprio contraste e a atitude não é mudar aquilo que não podemos mudar, mas sim compreender que isso também é um dom que somos chamados a acolher. Como ensina Jung, 'o importante não é ser perfeito, o importante é ser inteiro'.

Os pequenos triunfos dão-nos fortaleza para olhar as grandes humilhações, e as dificuldades vividas dão-nos humildade para viver os triunfos. As experiências de liberdade dão-nos a capacidade e a esperança para suportar os momentos de penumbra; e os momentos em que nos sentimos aprisionados dão-nos a resistência, a força e até o sentido de humor para vivermos os tempos de liberdade. (...)

Recorda Rainer Maria Rilke em 'Cartas a Um Jovem Poeta': 'O tempo não é uma medida, um ano não conta, dez anos não representam nada, ser pessoa não significa contar, não se trata de contar o tempo, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste serena aos grandes ventos da primavera sem temer que o verão possa não vir. O verão há-de vir, mas só vem para aqueles que sabem esperar tão sossegados como se tivessem diante de si a eternidade.'



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E, a propósito da simplicidade que permite amar a vida como as árvores ou os pássaros a amam, deixem que aqui coloque um vídeo muito bonito.

Manoel de Barros :: Auto-retrato falado




Vídeo do CINE POVERO

  • Manoel de Barros (1916-2014) - “Autorretrato falado” in «O Livro das Ignorãças», 1993
Voz de Manoel de Barros em «Manoel de Barros», Audio-Livro, Ed. Cidade da Luz (Coleção Poesia Falada), São Paulo, 2001
  • Música: Ryuichi Sakamoto, “António” in Rodrigo Leão, «Cinema»
  • Mistura de clips filmados pelo Cine Povero no Parque Nacional Plitvice Jezera (Croácia) com outros retirados da internet.
...

A música lá em cima é Elegie in C minor, Op. 24 é de Fauré, interpretada por Jacqueline du Pré no violoncelo e por Gerald Moore no, piano

As imagens que escolhi e que mostram o mar, foram pintadas por Ivan Konstantinovich Aivazovsky (1817 – 1900) que pintou mais de 6.000 quadros, metade dos quais relativos ao mar ou a navios.
.....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

E viva a vida.
(Sem mais)

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2 comentários:

Anónimo disse...

Bom Domingo UJM,

um abraço cheio de saúde!

V

Rosa Pinto disse...

Simples. Tudo dito. BFS.