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terça-feira, setembro 08, 2015

Até uma criança poderia fazer isto?


Conheço pessoas cultas, de mente aberta, que se deliciam com os pintores que retrata(va)m com uma quase assustadora perfeição a natureza, as pessoas e os santos e anjos imaginados e que, pelo contrário, ficam indiferentes perante a abstracção. Uma pintura que se resuma a manchas cromáticas ou movimentos de luz deixa-os tão neutros como se olhassem para o vazio.

A mim é o contrário: passo pelas pinturas muito fiéis à realidade, muito bem desenhadinhas, e sigo, indiferente. Em contrapartida, vejo uma tela cheia de cor em formas não identificadas, parecendo resultar do puro acaso, e a emoção transporta-me para dentro do desconhecido -- e é lá que me sinto em casa.

No fundo, acho que, sem querer, penso sempre isto: tudo o que se pinta -- mesmo que resulte de pinceladas ao acaso, de despejar tinta para a tela, de salpicar pincéis ou de fechar os olhos e deixar que a mão siga o trilho inexplicável da alma -- é o espelho de qualquer acaso que exista algures. Pode ser uma parede mil vezes graffitada, pode ser o efeito do tempo no casco de um barco, pode ser qualquer coisa mas, algures, haverá uma coisa 'de verdade' que é parecida com a abstracção que um pintor um dia pintou. E mesmo que não haja. O que é belo é belo independentemente do seu sentido imediato. O óbvio é inimigo do que é intemporal.

O que aqui vos vou mostrar pode parecer uma coisa inventada, coisas sarapintadas sem sentido mas eu acho-as extraordinariamente belas. Com elas me tenho deleitado. Olho-as com emoção, fotografo-as para depois, vendo o que fotografei, ter a certeza que não sonhei.. 

Que pintor as pintou? Foi um deus invisível que, sem que as pessoas os vejam, se entretem a fazer magníficas obras de arte? É o espírito de Pollock  que por aqui anda, salpicando tintas pelas noites, pelas longas marés? Vieira da Silva pacientemente urdindo fios sobre as ondas? Kandinsky a experimentar símbolos, cores, luzes? Franz Kline continua a ver como há-de depurar as imagens?

Não sei. Mas acho que não interessa o que significa a beleza. O que interessa é se a beleza nos toca, se é tangínvel dentro de nós. E talvez que, se isso acontece, é porque estamos perante uma obra de arte. A mim isso chega-me.














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Ascent

Bernardo Sassetti


(Sobre pinturas de Christian Schloe)

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NB: Não tem nada a ver mas, caso queiram saber como corto, seco e penteio o meu cabelo, é só descerem até ao post já a seguir.

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1 comentário:

Anónimo disse...

Aqui há alguns meses, em finais de Abril, enviei-lhe um e-mail interessante que questionava “O que é a Arte?”, o que nos levava a questionar o que aqui aborda. Entretanto, Lana Newstrom, com a sua “Arte Invisível” (e respectiva “exposição”), veio, de algum modo, recolocar (!?) o conceito de Arte, na Pintura. Vamos lá a ver. Desenhar, pintar, ou esculpir, em termos abstractos é muito mais fácil, em termos de exigência, do que os períodos que antecederam a Pintura Abstracta. É uma opinião, seguramente muito contestável e até legitimamente criticável, mas não deixa de ser uma realidade. Possuo uma ou outra pintura abstracta lá em casa. Compradas por cá, NY, Viena, etc. Agora, quando olho para aquilo, e até gosto (caso contrário não tinha adquirido), não tenho o mesmo critério de exigência, nem podia (!) de outras obras, que requereram um outro tipo de entrega, de elaboração, de exigência. Até de tempo a conceber. Por exemplo, não se pode comparar uma obra de um grande mestre da Renascença, do Barroco, do Neoclassicismo, do Romantismo, Realismo, do Impressionismo, com determinadas pinturas abstracta. Enfim, é uma opinião. Mas, que mantenho. É certo que há inúmeros grandes artistas dentro do abstracto, por exemplo, como muito bem referiu, Vieira da Silva. Há sempre excepções. O problema é que a arte abstracta tem hoje um crivo crítico menos exigente do que no passado. Talvez esteja enganado, mas ao que leio sobre a matéria é essa a ideia que me fica. Não é por acaso que se chega ao delírio de uma exposição como aquela que refiro de Lana Newtrom. A tendência pode, um dia, ser essa. Quem sabe! Perante estes artistas que aqui invoca, como Kandinsky (já vi exposições dele lá por fora, não me deixou, longe disso, a mesma impressão de outros grandes artistas de períodos que o antecederam), Kline, Pollock, tenho, exactamente, a mesma reacção que a UJM tem perante outras de outro género, como refere. Vejo sem me deter. É que, tendo sempre a pensar numa certa facilidade, menor exigência, naquilo que se pintou. É muito mais simples pintar assim. Se calhar estarei a ser injusto para com muitos desses artistas, mas de algum modo, ofende-me essa facilidade, essa menor (aparente) exigência. E depois, uma abstração é aquilo que quisermos. O que cada um pensa, quer e deseja que seja. Muito bem. Mas nunca será o mesmo de anteriores períodos, cujas exigências foram outras. Sou capaz de me deleitar por algum tempo perante uma pintura, por exemplo, de Turner, de Monet, de Vermeer, de Goya, de Ingres, Jan Toorop, Verrocchio, Lorrain, Canaletto, de Alma-Tadema, etc, mas seguramente perderei menos tempo a olhar para um Kandinsky, Pollock, Kline, ou mesmo e, por muito que isto escandalize, Picasso, ou Koroschka, Miró, por exemplo, embora goste de Nolde, Munch, Magritte, Hopper, entre outros, como Vieira da Silva, Pomar, mas também de Malhoa, António Silva Porto, diferentes estilos, etc. Em resumo, um quadro abstracto dificilmente me extasia; um outro, de outro período anterior, pode deixar-me ali por longos momentos. Só para dar um exemplo, assim a correr, jamais trocaria um Claude Lorrain por um Kandinsky. Ou um Monet, ou Renoir, por um Picasso. Ou mesmo um Klimt por um Kline, ou Pollock.
P.Rufino