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domingo, julho 19, 2015

Uma névoa transparente pousada sobre o mar


De manhã fui à praia. Geralmente ao fim de semana, nestes dias de verão, vou à praia. A praia, quando vamos só os dois, é sinónimo de caminhada pela beira de água. 






Gosto de andar, gosto mesmo muito. Caminhar, caminhar. E poder caminhar a olhar o mar, sentindo a água fresca, aspirando a maresia, caminhar e o caminho não acabar. Sempre mais e mais mar, é tudo o que posso esperar quando me ponho a caminhar.
Posso transportar mil cansaços, mil preocupações, posso ver-me no meio de mil caminhos e de mil solicitações, pode o corpo pedir tréguas, férias, descanso, pode a cabeça pedir-me tranquilidade e nada mais do que boas leituras, pode o coração pedir-me que me deixe sossegar embalada em sorrisos e abraços, mas a verdade é que, se me ponho a caminho pela beira da água, os pés entre conchas e espumas limpas, é a esse caminhar que me entrego, sem pesos, sem laços, sem limites.

Gosto de um mar bravo, gosto de um mar atrevido, gosto de um mar azul, gosto de um mar verde, gosto de um mar negro como o de sexta-feira à noite -- mas gosto também de um mar suave, verde claro, quase acinzentado, quase branco, como o deste sábado. Havia uma névoa densa que envolvia as águas, que iludia as distâncias, que ocultava as pessoas.

Nos sítios onde caminhamos quase não há vivalma: um ou outro nudista, um ou outro casal apaixonado, um ou outro prazer clandestino que se procura nas dunas. Mas, este sábado, o silêncio era total. O mar estava brando, o horizonte estava escondido, a maresia era suave e boa, e a transparência branca da neblina parecia esconder sonhos, segredos, promessas, palavras murmuradas com amor, nostalgias.




Sobre as águas, alguns seres caminhavam também e também em silêncio.

E eu, caminhando, leve, pela beira da água, ia pensando em tudo o que de bom se debruça sobre mim. Os sorrisos tão bons, as mãos tão amigas, os dizeres de um profeta que me é trazido pela manhã, a proximidade calorosa dos que me amam, as palavras que envolvem atraentes estranhezas, memórias doces, um presente afável, espelhos nos espelhos, oferendas e poemas, tudo tão estranho, tão bom.

E vou pensando na emoção perante a natureza. E perante a arte. Tantas vezes me emociono, e tanto que gosto de falar da emoção perante a arte, a que não precisa de explicações, e na emoção que as palavras me trazem, e os olhos húmidos, os meus, ao ler, pela manhã. inesperadas palavras que me falam do desapego pela vida que protege a vida. Espelho no espelho no espelho.

A vida é bela e, no silêncio de uma praia envolta num manto transparente, dentro do mar, eu sinto-me agradecida, tão agradecida. E esqueço-me de todos os meus problemas, de todos os meus laços, de todos os meus limites,



(...)
Devagar vou beijando esta água que esplandece nas veias arqueadas,
pontas de fogo nas mãos,
relevos de outros luxos vulcânicos,
hoje regatos de pedra, testamentos, no silencioso acordar
da casa adormecida.

Estou só entre estas mãos, a água e o meu passado.
Gostava que a idade fosse o espelho
(...)

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A música é outra vez, sempre, sempre, "Spiegel im Spiegel' de Arvo Part 

O excerto de poema pertence a 'A água' de Armando Silva Carvalho da Assírio & Alvim

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E agora, para ver o acto amoroso de fazer jóias belíssimas, desçam por favor até ao post seguinte.

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