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terça-feira, julho 21, 2015

Dar à luz num carro. Imagens reais (que não impressionam ninguém). E os meus filhos que tiveram que ser arrancados de mim a ferros.


Tomara que os meus filhos tivessem nascido assim, de um tirinho, como o que abaixo se mostra.

Com uma barrigona imensa, com um peito também bem maior do que era antes, eu era uma grávida feliz. Sem um enjoo, sem um incómodo, toda eu era felicidade. Mexiam-se e remexiam-se dentro de mim, enormes, e quase me reviravam as entranhas do avesso, e eu radiante. Estavam bem dentro de mim. Já o contei: passava o prazo e eles nada. Eu na maior, apesar de ser verão, nem tornozelos inchados, nem tensões arteriais alteradas, nem sonos alterados. Nada. Na maior. Se me davam o lugar no eléctrico, eu nem percebia bem porquê já que não era uma débil velhinha nem estava doente, nem tão pouco me sentia cansada ou pesada. A gravidez no limite e as enormes barrigonas não me tiravam a agilidade nem a boa disposição. Era uma miúda feliz que adorava estar grávida. Só que eles não saíam.

E eu pedi ao médico: nem cesarianas nem anestesias. Só em último caso. Caso contrário, eu aguentaria. Queria sentir tudo, senti-los a sair, sentir o que sentem os animais, e não queria arriscar que a anestesia ou o que fosse viesse mais tarde a provar-se prejudicial para os miúdos. Eu aguentava. Achava que isso da dor era coisa psicológica, coisa de quem tinha medo,  e eu, descontraída e sem medo, não sofreria nem um bocadinho. Achei isso quando tinha vinte e dois anos e nenhuma experiência em partos e achei o mesmo menos de três anos depois, apesar de já ter tido uma experiência que poderia ter sido traumática mas que, com a minha maneira de ser inconsciente e inocente, achei que não voltaria a acontecer. Mas aconteceu.

E aguentei. Mas só eu sei.

Das duas vezes, parto induzido e, nas primeiras horas, mesmo assim, nada, depois, aos poucos, umas dores brutais, alagada em transpiração, a dilatação a fazer-se, as dores a apertarem, contracções fortíssimas e eles sem descerem. Dores, dores, dores, parecia que estava a romper-me por dentro, e eles sem descerem. Foram ambos tirados a ferros, a sangue frio. Puxados, puxados, e eu com medo que eles saíssem magoados, feridos, sei lá, e a pensar que não aguentava tanta dor. Mas aguentei. A minha filha pesava 3,630 kg e media 49 cm mas o meu filho pesava 4,230 kg e media 53 cm, enorme, um bebezão grandão, o primeiro par de fórceps era pequeno para a cabeça dele, e eu a sentir todas aquelas manobras de entra e sai de pinças de ferro, mas isso até era pormenor porque toda eu emitia aqueles sons da expulsão, meio gritos, meio rugidos, meio grunhidos, dor, dor, mas em voz baixa, não me dava para gritar, não era medo, era apenas que não conseguia conter, sentia que eles queriam sair mas os ossos não abriam, e eles não podiam descer e toda a gente me gritava que não fizesse força senão rompia o útero. Mas não era eu que fazia força, eram as crianças que a faziam e eu não aguentava mais sustê-los, nem aguentava as dores do corpo todo a expulsá-los.

Mas, logo que saíam, que alívio, que alegria, que felicidade imensa. Aquelas crianças ensanguentadas e eu a acariciá-los, as minhas crias, e nem me fazia impressão nenhuma que estivessem cobertas de restos de placenta, de sangue. E eles olhavam para mim e ouviam-me e eu estava tão, tão feliz. parecia-me um milagre, uma coisa inexplicável e mágica, umas pessoinhas lindas tinham saído de dentro do meu corpo.

Durante muitos anos o meu corpo sentiu a nostalgia dessa experiência limite e feliz, saudades de sentir uma criança a crescer dentro de mim, saudades de sentir uma criança a sair de dentro de mim, saudades de sentir uma criança a alimentar-se do leite que jorrava dos meus seios. Tivesse eu algum apoio familiar efectivo para me ajudar a criar os que já estavam cá fora enquanto ia dando à luz outros e teria, certamente, tido mais uns quantos. O instinto da maternidade é em mim fortíssimo.

Mas, se o momento em que pari os meus filhos foi de intensa realização e felicidade, tenho que confessar que felicidade ainda maior tive-a de cada vez que os meus filhos tiveram os seus próprios filhos: uma felicidade tão absoluta que me dá para chorar, que o coração se me aperta, uma alegria tão brutal que não sei explicar. É a felicidade de nascerem crianças que são também um bocado minhas mas, ao mesmo tempo, é o sentir os meus filhos tão felizes, tão realizados -- e uma pessoa saber os filhos felizes é o mais importante da vida. 

Penso que já o contei antes e talvez mais do que uma vez. Quando nasceu o meu primeiro neto, eu estava lá e telefonei ao meu marido para lhe dizer que já era avô. Mas tal a intensidade da emoção que a garganta ficou estrangulada e eu, embora querendo estar contida, chorava completamente feita parva. Se calhar, se chorasse a bandeiras despregadas, aliviava a tensão emocional. Mas, como quis portar-me decentemente, a coisa traduziu-se em lágrimas imparáveis e em não conseguir falar. E, então, começava a querer pronunciar a primeira palavra e não conseguia e ele só me ouvia chorar. E já estava a ficar assustado: 'Mas aconteceu alguma coisa?' e eu queria sossegá-lo mas qual quê? E ele 'Fala! Aconteceu alguma coisa? Diz qualquer coisa'. Finalmente, depois de grande esforço, lá achei que era parvoíce a mais e lá consegui segurar-me por dentro e lá consegui dizer qualquer coisa -- mas não me esqueço da imensa alegria que não cabia no meu peito. Nas outras vezes, quer com a minha filha quer com o meu filho, a alegria foi a mesma mas, como o meu marido estava comigo, tive amparo e, sobretudo, não tive que falar, a barraquinha não foi tão desatinada.

Voltei a lembrar-me disto ao ver o vídeo que aqui vos mostro. Que aflição a da jovem mãe e, acto contínuo, mal a criança saíu, que alegria a dela.

Extraordinário o sangue frio do pai que se manteve aparentemente calmo enquanto conduzia. A verdade é que conseguiu captar um momento único, o nascimento do seu filho no carro. E sorte a mãe que, depois das contracções, foi só puxar as calças para baixo e lá vai disto, que a criança já estava com a cabeça de fora.

Adorei ver. E daqui envio os meus votos de felicidades ao bebé, Josiah, e aos pais, Lesia e John Pettijohn.


Woman gives birth to 10lb baby in car


Baby born going down Beltway 8 in Houston on the way to birth center.



Lesia and John Pettijohn thought they had time to spare before their baby was born. However, forty-five minutes into their drive to the Bay Area Birth Center in Texas, Lesia went into labor and gave birth to their first son, Josiah. The footage was filmed using a GoPro camera.

“The only reason I would pull over is if there is something wrong that needed to be dealt with immediately,” Jonathan told KHOU. Wife Lesia added, “I was probably freaking out way more than I should have. But I really didn’t want to have him in the car. I was scared. I didn’t know if he’d be breathing OK or if he would need anything else.”

Josiah weighed about 10lb at birth, and is the couple’s third child. Jonathan is a machinist, and he claims that he didn’t pull over because his wife told him to keep driving, and they didn’t have a working cellphone with them.





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Tive conhecimento deste momento feliz no Bored Panda

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira. 
Felicidades a todos!

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2 comentários:

Rosa Pinto disse...

Por que Deus se lembra
- mistério profundo –
De tirá-la um dia?

Carlos D. Andrade

Anónimo disse...

Nem de propósito Um Jeito Manso, em Junho passou uma reportagem a falar sobre o drama das cesarianas e as consequências que tem para o feto, em termos de imunização

Está aqui - http://player.sicnoticias.pt/2015-06-02-Grande-Reportagem-Interativa--No-Tempo-das-Cesarianas

e esta Mulher tem um filho tipo, dá cá aquela palha-)))


Bob marley