Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, julho 17, 2015

A situação na Grécia e a inviabilidade da actual Europa. E o que dizem Pedro e Viriato. E o que dizem os números. E o que dizem alguns jornalistas alemães.






Nas empresas que pertencem a Grupos é normal criarem-se órgãos de gestão conjunta por forma a capturar sinergias, adquirir eficiências e tudo isso de que os consultores gostam de falar e as administrações de ouvir.

Criam-se Serviços Partilhados ou Direcções Centrais, estudam-se os modelos de governo desses novos serviços que trabalham para todas as empresas, aferem-se indicadores que reflictam o bom funcionamento dos mesmos, etc, etc, etc. Conheço bem estes processos.

Quando isto acontece, criam-se mecanismos que permitam validar se está tudo a funcionar bem e, se necessário for, corrige-se a trajectória ou procede-se, com alguma regularidade, a um conjunto de ajustamentos.

Claro que uma empresas ou um grupo de empresas não é a mesma coisa que um conjunto de países. Claro que não, é mais simples, muito mais simples. Terá o seu qb de política, de diplomacia, de militarismo, de democracia, de estratégia, de humanismo, etc, mas tem sobretudo a ver com gestão.

Mas se nas empresas se avança de uma forma organizada, estudada, monitorizada, como é que nos países se avança à maluca como aconteceu com a adopção da moeda única?

A Europa não tem um modelo de governo a sério, não tem órgãos que monitorizem e validem e corrijam as trajectórias, não tem sequer gente capaz à frente dos lugares mais importantes. Quando nos países de origem se querem ver livres de alguém, de emplastros, de pesos-mortos, de alforrecas ou chernes, chutam-nos para a Europa. Depois, o que acontece é que cada totó que tem assento nos lugares onde mais se decidem os destinos da Europa responde é perante o seu eleitorado doméstico onde as motivações são culturais e regionais, mal informadas sobre o que se passa nos outros Estados.

Aquilo a que se tem vindo a assistir nesta Europa desgraçada, acéfala, à deriva, é uma perfeita aberração: para obedecer a ditames absurdos, para encaixar em tratados ridiculamente inalcançáveis e para agradar aos eleitorados nacionais, um bando de anormais tomou decisões que, à semelhança de tudo o que decidem, representaram um atentado brutal contra um dos seus Estados. Uma União como esta, em que já nada faz sentido e que não tem governabilidade ou que não é monitorizada pelos cidadãos dos seus Estados membros, é um aborto, uma porcaria. 

Não faz sentido um país pertencer a uma União que destrói a vida do seu povo, que destrói a sua dignidade, a sua economia, a sua esperança.




Não me interessa saber se a culpa foi do partido A, B ou C ou do lunático X, do inexperiente Y ou do atrasado mental Z. O que me interessa é como é que, no conjunto, deixámos que aqui se chegasse e ainda continuamos a fechar os olhos a este projecto falhado.
Tragédia, miséria, humilhação - e tudo é encarado na maior ligeireza, como se isto pudesse ser reduzido a pequenos episódios. Para evitar mais tragédia, miséria, humilhação todos nós nos deveríamos levantar para exigir que ou nunca mais tal aconteceria ou bardamerda para esta porcaria (e peço imensa desculpa pelo meu linguajar mas é o que me ocorre dizer a este propósito).




O que aconteceu com a Grécia e que está ainda a acontecer e as reacções que ouço mostram bem a estupidez que é esta União Europeia. Da forma como está e como funciona, acho que, ou há a capacidade de a repensar e refundar (o que me parece ser altamente improvável) ou mais vale limpar as mãos à parede -- antes que haja alguma coisa ainda mais séria (e que já me pareceu mais longínqua).

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Pedro Santos Guerreiro, com aquele seu ar de menino bem comportado (daqueles que deixam crescer a barba para ver se parecem mais crescidos), continua a mostrar que é inteligente, lúcido, e um excelente comunicador. Escreveu mais um artigo brilhante e eu não poderia deixar passar isso em claro.


O Syriza já está destruído, podemos agora salvar a Grécia?


Chegará o momento em que tiraremos as mãos das carteiras e as poremos na consciência. Chegará o momento em que já não veremos os ricos que roubaram mas os pobres que ficaram. Em que não quereremos ressarcimento mas reparação. Em que perceberemos que não se pede sequer solidariedade, mas piedade. Em que nem os sádicos se divertirão com o espetáculo degradante dos políticos gregos. A União Europeia foi longe de mais na violência estéril e vingativa. Para destruir o Syriza está a ceifar-se um povo. Já não é indignação, é súplica: SOS Grécia. E se tudo o resto falhar, apele-se à inteligência, que não é de esquerda nem de direita, pois é preciso mudar aquele plano que, além de horrível, é burro, é mau, é pior para todos.

Nos palácios de Bruxelas, nos sofás de Berlim ou mesmo nos bancos de jardim de Lisboa permanece apetecível distribuir culpas e medir ideologicamente o debate. Mas nas ruas de Atenas já passámos essa fase. Sobra o desespero de saber que nada vai valer a pena porque pagar ou não pagar parece indiferente, o tudo ou nada resultará sempre no pouco, no de menos, no insuficiente, porque o plano não funciona. Repito: a Grécia vai ter uma recessão pior do que a que os Estados Unidos viveram na Grande Depressão de 1929. Repito: o plano económico vai falhar porque foi concebido para falhar. Repito: desistimos dos gregos e resistimos a ver o desastre encomendado.

(...)

É preciso mudar o plano. Somar à austeridade um programa de investimento que estimule a economia e que apoie casos sociais de pobreza. Isso é ser inteligente, até porque é a única forma de tentar recuperar parte da dívida. Talvez a linha dura dos alemães queira apenas humilhar o Syriza e tenha feito um plano para que, depois da capitulação de Tsipras, mude o plano para melhor. Até seria bom que isso fosse verdade. Seria maquiavélico mas, ao menos, saberíamos que a loucura iria mudar. E que, portanto, a Grécia haveria de ter uma saída da crise em vez de uma saída do euro. Para já, o que vemos é o que temos, um país inteiro a afundar-se na desgraça.





Os gregos estão desesperados porque a situação é desesperante. Coloquemo-nos no lugar deles por um minuto: um governo de extrema-esquerda ajoelhado depois de cinco anos de tareia, de desemprego e de austeridade, depois de décadas de corrupção e roubo institucionalizado com os governos de centro. E o que lhes dizem que se segue? Pobreza. Talvez a esta hora também estivéssemos na rua.


[Artigo completo no Expresso; recomendo a sua leitura. E daqui envio os meus parabéns e o meu agradecimento ao Pedro Santos Guerreiro, um grande jornalista]

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Outra análise que recomendo é a de Viriato Soromenho Marques, no DN.  


O pior de dois mundos



No tempo em que Deus não tinha ainda morrido, o espetáculo da tragédia de série B em que a Europa se transformou provocaria tremor e ranger de dentes face à expectativa de um castigo divino. Obrigar um primeiro-ministro a impor um programa em que não acredita, que foi derrotado esmagadoramente num referendo, parece desprovido não só de bondade mas de eficácia. Agravar a austeridade quando ninguém, mesmo entre os credores (FMI, por exemplo), parece acreditar que a dívida grega já existente possa alguma vez ser paga, é um absurdo cruel. A Grécia transformou--se no labirinto em que a lógica e a ética pública dos governantes europeus se perdeu. Por um lado, acusa-se a Grécia de - e isso é verdade - não ter sido capaz de construir um Estado moderno pós-clientelar, baseado em sistemas universais abstratos (nomeadamente de recolha de impostos), por outro, lança-se sobre ela uma barragem de planos de "resgate" que aniquilam o embrião de competência e organização administrativas, além de fazerem recuar os indicadores macroeconómicos para os níveis de uma economia de pós--guerra num país derrotado, deixando milhões de cidadãos aturdidos, empobrecidos e entregues à mais devastadora e desamparada das solidões. Ninguém sabe se Tsipras cumprirá o titânico e envenenado caderno de encargos que poderá garantir a Atenas arrastar-se num terceiro resgate. Mas, rompendo o véu obscuro da novilíngua do Eurogrupo, se a "confiança" (leia-se, submissão) não for demonstrada, o "acordo" (leia-se: ultimato) falhará. Nessa altura, talvez a Grécia seja arrastada para fora da zona euro numa explosão de desordem e violência social. Com isso, a zona euro entrará na lista infame dos crimes contra a humanidade.

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As imagens foram obtidas na net e mostram o dia a dia grego com execpeção da última que mostra um homem derrotado, humilhado até à exaustão (independentemente de se ele agiu de forma madura ou inteligente ou não).

A pintura é de Theodore Ralli (pintor grego, 1819-1878), Eavesdropping

A música é do compositor grego Dimitri Mitropoulos --- Greek Sonata 1920 [1. Allegro non troppo (ma con passion)  --  piano Charis Dimaras]

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Aconselho também que vejam o vídeo que Leitor, a quem muito agradeço, me deixou em comentário num post abaixo.

Os alemães ficam lesados com o apoio à Grécia?

Ou muito pelo contrário...?


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E, visto no blog do Embaixador Seixas da Costa, Duas ou Três Coisas, que pergunta: Em 2015, como será? e no Ladrões de Bicicletas onde Nuno Serra pergunta Fundo de Activos ou Pacote de Indemnizações?, um quadro com números que nos deveriam fazer pensar. E chorar. E lutar.




Uma vergonha insuportável.

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Vinha com ideia de escrever sobre amor, de incluir uma música da Melody Gardot, coisinhas saborosas e estivais desse género. Afinal, deu-me para isto. A ver se mais logo não me desvio dos meus românticos propósitos.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.

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