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domingo, junho 21, 2015

Beatriz vivia dentro de um conto








Beatriz gostava de dizer coisas que não tinham muito a ver com o mundo que a cercava. Não sabia se era de dentro de si que vinham as coisas que dizia ou se vinham de um outro qualquer mundo. Mas falava com à vontade como se dissesse coisas normais apesar de, tantas vezes, ver alguma surpresa em quem a ouvia.

Mas, por isso, porque não gostava de ver surpresa em quem não a compreendia, evitava dizer essas coisas. Por isso, a maior parte das pessoas nem sonhava que havia essa outra que falava coisas vindas não se sabia de onde. Apenas quando sentia que, do outro lado, estava alguém que podia, de alguma forma, compreendê-la, dava largas às vozes que, de dentro dela, gostavam de falar com naturalidade de coisas estranhas.

Esta história passou-se há muitos anos. Beatriz escrevia num jornal.

Um dia, chegou ao jornal mais uma carta dirigida a Beatriz. Era frequente isso. Era alguém que dizia admirar a sua escrita. Beatriz não ligou muito, respondeu com delicadeza mas sem prestar muita atenção. Uns dias depois, nova carta. O certo é que, aos poucos, a aproximação aconteceu. Falavam de coisas estranhas e reconheceram-se como parecidos, tão idênticos os seus pontos de vista, os seus gostos culturais, as suas reacções, que dir-se-ia que eram iguais. Várias vezes ele disse que ela era borgiana. Ela contava sonhos, ideias à toa. E ele, depois de ela falar de cavalos que atravessavam a noite sem que nunca ninguém os conseguisse ver, falava-lhe dos tigres, e, se ela falava de outra coisa, ele enviava-lhe outros contos de Borges com rosas azuis, espelhos, labirintos. E conversavam, conversavam. E poesia. Muita. Beatriz lia-o com o prazer que advém das surpreendentes descobertas, das infindas surpreendentes descobertas. As ideias dele chegavam a Beatriz, muitas vezes, sob a forma de poemas.

Muitas vezes ele dizia que gostaria de a conhecer pessoalmente, mas ela nunca quis. Pressentia que a magia se quebraria. No entanto, um dia, sem querer, ela descobriu quem era o seu amigo, ficou a saber quem era a pessoa com quem se correspondia. Chamava-se Rui e era uma pessoa conhecida. A partir daí, as palavras que recebia por carta, passaram a ter um rosto.

Até que a vida começou a separá-los. Sentiram-se, então, cegos, perdidos um do outro.




Mas, quando isso aconteceu, Beatriz, que colaborava também numa galeria de arte, um dia conheceu lá um pintor. De imediato, sentiu qualquer coisa de indefinido, uma proximidade estranha, quase inquietante.

Um dia, estava ela a ver um cartaz, ele aproximou-se e pôs-se também a ver o cartaz. Depois, vendo uma frase que lá estava escrita, disse que aquilo lhe lembrava um poema de Florbela Espanca. E disse uma parte desse poema. Beatriz ficou muito admirada, era a última coisa que imaginaria, que aquele homem soubesse de cor um poema de Florbela Espanca. Riu.

Nesse dia, quando ia a sair da galeria, viu-o junto à saída e perguntou-lhe 'Só sabe poemas de Florbela Espanca ou sabe também de outros poetas?'. Ele, sem se admirar, quase como se estivesse à espera da pergunta, disse: 'Sei.'. Ela perguntou: 'Sim? De quem, por exemplo?'. Ele respondeu: 'Por exemplo de Jorge Luis Borges'. Ela nem queria acreditar 'A sério? Então diga lá um', esperando que ele dissesse que, assim de repente, não era capaz. Mas, estranhamente, sem hesitação, ele começou a dizer um poema. Beatriz ouviu sem querer acreditar. O poema falava de espelhos e ele dizia-o como uma toada. Depois, sorriu ao de leve, muito ao de leve. Beatriz quase não conseguia falar.




Depois disso, sempre que se encontravam, conversavam muito e Beatriz dava por si a pensar que o pintor parecia mesmo Rui, o seu ex-correspondente. Muitas vezes quase se assustava. Não soubesse ela quem era o Rui, e apostaria que ele e o pintor eram uma e a única pessoas.

Beatriz passou, então, a falar como antes escrevia a Rui. E o pintor, que se chamava André, respondia-lhe como antes Rui respondia, invocando Borges, invocando autores, trazendo referências históricas. Riam, conversavam, e, quando se distraía, Beatriz já falava com o mesmo à vontade com que, antes, escrevia a Rui. E André respondia muitas vezes usando as mesmas palavras, por vezes as mesmas exactas palavras, que Rui usava.

Beatriz pensava: Isto é um sonho. Isto é um jogo de espelhos. Um dia vou chegar e vou ter rosas azuis sobre a minha mesa de trabalho, uma dia vou subir galerias infinitas de uma biblioteca imensa onde ressoem as vozes deles dizendo poesia de Espanca, de Borges, vou entrar por um labirinto imenso e não vou saber quem sou eu, quem é um, quem é outro. Talvez veja a sombra negra de um tigre de olhos azuis a esgueirar-se entre espelhos, talvez me dilua em palavras, talvez voe levada por mil espíritos.

Beatriz passou a querer ouvir as palavras de André como antes queria ler as palavras de Rui. Aos poucos foram-se tornando inseparáveis.

Até que um dia aconteceu uma coisa ainda mais misteriosa que mudou completamente a compreensão que Beatriz tinha da vida. 



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E, por falar em Borges:

Borges por él mismo - Borges y yo




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As fotografias de Kate Moss usadas para ilustrar a história são da autoria da dupla Mert Alas e Marcus Piggott

A Rêverie du soir Op.19 no.1 da autoria de Tchaikovsky é interpretada por Sviatoslav Richter

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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