Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, maio 29, 2015

Um fio encarnado invisível


No post abaixo já falei da sereia Melissa, da barbie Valeria e, em contraponto, trouxe um auto-retrato onde se fala de bichos do chão, pássaros, árvores e gente humilde.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, falo de uma coisa muito diferente.




Há um livro que nunca li (tenho ideia que tem uma capa em fundo azul-celeste com a fotografia de uma senhora sorridente que parece querer transmitir uma mensagem de felicidade instantânea -- e isso para mim funciona como repelente): Comer, Rezar e Amar de Elizabeth Gilbert, do qual se fez um filme que também não vi. 
Não digo que o livro não seja interessante mas estas coisas não chamam por mim -- e sou muito sensível às capas, aos títulos, à paginação: se me cheira a coisa delicodoce ou feita para agradar, até fujo. E com os filmes a mesma coisa.
De qualquer forma, vendo agora o vídeo (com a Julia Roberts na personagem principal), penso que era o tipo de coisa que eu não me importava nada de fazer. 


Comer Rezar Amar




No outro dia, em conversa com a minha filha, dizia-lhe que gostava de ir para um país daqueles em que todo o apoio é necessário. Falei no Nepal, qualquer lugar em África. Ela ouviu e no fim disse: 'Ah, percebi... estás com vontade de ir viajar'. Ri-me e disse-lhe que sim, mas não exactamente, porque não seria viajar por viajar como se viaja quando se vai de férias. Era mesmo ir para o fim de um qualquer mundo, estar num lugar de nada, ajudar desconhecidos. E depois desligar-me. E vir-me embora.

Mas adiante, que não foi por isso que comecei a falar -- foi porque, na Obvious, li uma citação que provém desse livro e que me pareceu acertada:

As pessoas acham que a alma gémea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gémea é um espelho: a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo, para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gémea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gémea para sempre? Não! Dói demais. As almas gémeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesma, e depois vão embora. 

No artigo em que encontrei essa citação, li também:

Dizem que as pessoas, do nascimento até a morte, se encontram com aproximadamente 30 mil pessoas. Dentre elas, 3 mil são de conhecidos da escola e do trabalho pessoas que você conversa com maior intimidade, 300. Dentre esses encontros casuais há um especial que foi decidido por Deus mesmo antes de você nascer, mas esse laço único do destino não é visível para ninguém. A pessoa destinada que não vemos ainda deve estar ligada por um fio vermelho amarrado no dedo mindinho. Por isso, por isso.... para encontrar devo me apaixonar (Akai Ito Dorama)

Conhecer, apaixonar e separar -- e isto, claro, para quem tem a sorte de, uma vez na vida, encontrar a sua alma gémea.


Nem mais. Concordo. Não me parece possível que alguém possa ter uma relação longa e feliz com uma alma gémea. Relações felizes e duradouras só com gente diferente de nós.

No que a mim diz respeito, por exemplo gostando muito eu de poesia, vivo com uma pessoa que é imune a tudo o que lhe cheire a poesia. Não é que não goste de ouvir, até gosta, mas não tenho ideia de o ver pegar num livro de poesia. (No entanto, no outro dia, ao remexer numa bolsinha da minha mesa de cabeceira, descobri uns poemas que ele me escreveu e que até têm que se lhe diga - se os meus filhos lerem isto devem fartar-se de rir, nem devem acreditar; aliás, nem ele próprio deve acreditar pois imagino que já nem se lembre dessa sua fase). E, não ligando eu patavina a futebol, convivo lindamente com o interesse que ele tem pelo dito. E por aí fora. Temos afinidades políticas e uma visão humanista comum mas, de resto, eu farto-me de rir e ele é contido; eu derreto-me em beijos e abraços aos miúdos e ele, quanto muito, dá-lhes um give me five, ele planeia as coisas e tenta ser organizado e eu funciono bem é no registo do improviso - etc, etc. Mas é assim que a gente se entende. Nem pensar em viver com alguém que fosse eu em versão masculina, haveria de ser uma tourada permanente. (Assim, é só de vez em quando).

Porém, o que me chamou ainda mais a atenção nesse artigo foi a história seguinte que achei comovente, vendo depois as imagens:

Um dos maiores exemplos, temos, a artista sérvia Marina Abramovic teve uma intensa relação de amor com seu parceiro, o alemão Ulay nos anos 70. Passaram vários anos juntos, fazendo todos os tipos de performances ao redor do mundo. Em 1988, quando o relacionamento deles chegou ao limite, realizaram o seu último ato, chamado The Lovers cada um caminhou em lados opostos da Grande Muralha da China para se encontrarem no meio, abraçar e nunca mais se encontrar novamente.
Porém 23 anos depois, quando Marina Abramović já era um artista aclamada, o Museu de Arte Moderna ( MoMA) dedicou uma retrospectiva de sua obra chamada The Artist is Present. Nele, Marina compartilha um minuto em silêncio com cada um que se sentou em frente a ela. Ulay veio sem ela saber, e o que aconteceu, segue no vídeo abaixo.

Marina Abramović e Ulay - MoMA 2010




Apetece dizer: lovers for ever

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Relembro: Sobre pessoas que são ficcões e sobre palavras que falam de uma pessoa muito de verdade, poderão descer até ao post que se segue.

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E desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira. Aproveitem-na bem. 
E aproveitem bem todos os momentos, os bons, os menos bons e os bons que se seguem aos menos bons.

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