Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, maio 20, 2015

Há um pássaro azul no meu peito e eu escuto na palavra a festa do silêncio


Num dia de canseira e ventania, estou mais para ser embalada do que para dissertações ou regabofes. Cansada, com sono, a precisar de dormir. Que dias estes, de manhã à noite, senhores, e o trânsito um horror. E o vento.
Durmo de janela aberta, gosto de sentir a aragem fria sobre o corpo. Por vezes acordo de madrugada com as gaivotas: gritam, gritam. Não sei se são lamentos, se é um choro sofrido, se é gozo, festa, dança, namoro. Não sei. Acordo e ouço-as, tento manter-me acordada, perceber quantas serão, o que fazem na relva àquelas horas escuras. Mas logo adormeço. Levo-as e às suas longas asas brancas dançando no escuro da noite para dentro dos meus sonhos. 
Mas a noite passada não foram elas que me acordaram. Foi o vento arrastando coisas pela rua, tudo batia, tudo fugia na rua escura. Custou-me adormecer. E depois o dia, todo, todo.

Chego a esta hora e o corpo pede-me descanso.

Pois que descanso tenha.

Que me desculpem os meus Leitores mas hoje estou em modo piloto automático, a cabeça a funcionar nas margens do sono, incapaz de pensamentos conscientes. Funciona apenas uma parte de mim, uma parte pequena, a só me pede silêncio, imagens de outros mundos, palavras que me tragam notícias de lado nenhum, e que chegue até mim qualquer diferença, preciso de diferenças, estou farta da normalidade, da mediania, quero ver o que nunca vi, quero palavras que não façam sentido à luz dos preceitos vulgares, estou farta, farta, de racionais, de conversas alinhadas, encenadas, na verdade quase vazias. Ou que venham até mim corpos que se movam como eu, em sonhos, gostaria de me mover, fora de mim, para longe de mim.

Afasto de mim as sombras, não as quero. Ou então não, que venham - mas venham macias, sibilinas, sussurrantes, dizendo-me segredos perigosos, olhando-se sem medo, aliciando-me. Ou que a luz me ofusque, me desarme, me desequilibre.

Fecho os olhos e puxo a estranheza que me é irmã, deixo que me abracem os sons que me trazem labirintos, galerias perdidas no fim do mundo, barcos abandonados nas praias ao sabor do vento e das areias. E que me tomem em suas asas os pássaros de escamas de fogo, que me levem, que me levem para as nuvens, para os castelos em ruínas habitados por espíritos azuis, por poetas, por músicos loucos, por cavaleiros perdidos, por sonhadores sem rumo, por deusas, por rastos de luz.

E, quando nada mais fizer sentido, eu fecharei os olhos e dormirei descansada, dentro de um mundo inventado onde os abraços que me envolvem são quentes e íntimos, onde as palavras me acariciam como se fossem deuses saídos do fundo do mar, transparentes como poesias infinitas, e com olhares longos e húmidos como a boca do meu amor.


Duck feather dress, The Horn of Plenty, AW 2009-10, Model Magdalena Frackowiak, image : firstVIEW




turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos

menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia


Nu au chapeau de plumes ©Isabel Munoz
[Isabel Munoz part quant à elle en Colombie avec "Eros y Ritos, Eros et rites". Avec ses portraits de danseuses sous des masques rituels, elle révèle l'essence de l'être humain, à la recherche de ses craintes et de ses passions.]



Sim. Eu tenho o coração tomado de amor. Sou dessa gente que vai com tudo, caminha na brasa, mergulha na lava, se joga no fogo louco do encontro. Da vida, quero nada senão viver assim. Em chamas. É daí que vem todo o resto.

Comigo, essa história de pé atrás não funciona, não. O amor chega e entra com os dois pés e o que mais há em volta.(...) Contenção no amor é desperdício, sonolência, anticlímax, chateação. Quem sente amor tem a pele fustigada por um raio, voa baixo, treme de susto.

E que o diga o casal feliz de outro tempo em suas histórias de encanto e seus quarenta anos de namoro e sonho, suas viagens pelo mundo, seu olhar de cuidado aos mais jovens: o amor é ou não é um susto, um abalo, um assombro, um sobressalto? Decerto que é. O amor é o inesperado, o carro que quebra na padaria, a água que falta, o gás que acaba. (...)

“Ah! Mas isso não é amor, é só paixão”, dirá o ser impecável, perfeito, em sua fúria por rotular a vida e quem nela esteja. E eu respondo: que seja! A paixão é minha e eu dou a ela o nome que eu achar que devo. Inclusive amor, esse palavrão que incomoda tanto a tanta gente. (...) Mas que ainda assim, quando se tornar robusto, maduro, corajoso, conserve em si o frio na barriga, a saudade, o riso fácil, o jeito simples e as declarações de apreço com os olhos brilhando de ternura.

Assumo e declaro: meu amor não tem pudor. Amo em total descaramento. Vergonha eu só tenho na cara, não no coração. (...) Fazer o quê? Uma hora eu aprendo. Com tempo e trabalho e coragem, eu aprendo a ter menos vergonha e ainda mais amor.


Tahitian pearl neckpiece, Shaun Leane for Alexander McQueen, Voss, Spring Summer 2001 ©Anthea Simms 


há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?



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Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

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  • Pela segunda vez aqui, a música é Epilepsy Is Dancing numa interpretação de Antony and the Johnsons  -- e o vídeo deverá ser visto pois é qualquer coisa de irreal.
  • O primeiro poema é um excerto de Poema Sujo, de Ferreira Gullar
  • A prosa é um excerto de Deixemos de coisa. O que mata mesmo é abrir mão de viver de André J. Gomes na Bula
  • O penúltimo poema, transcrito (numa tradução de Pedro Gonzaga) e lido (por Tom O'Bedlam), é O pássaro azul de Charles Bukowsky
  • O último poema é A Festa do Silêncio de António Ramos Rosa
  • A primeira e a última fotografia fazem parte da exposição Savage Beauty relativa à arte feérica de Alexander McQueen que vai estar até 2 de Agosto no Victoria & Albert Museum 
  • A segunda fotografia, de Isabel Muñoz, integrou a exposição 6 artistes pour 6 "Regards de femmes" que decorreu na Galerie Hegoa (França)
  • O ballet é  'Chroma' chor. Wayne McGregor, numa interpretação de Artem Ovcharenco e Anna Tikhomirova (Bolshoi Ballet)
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    Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira mesmo muito feliz. 
    Divirtam-se, aproveitem bem a vida, está bem?

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