Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, abril 03, 2015

Os que partem. Os que ficam. Os que chegam. A vida, a morte, as memórias, os sonhos.


Está uma noite de verão. Da rua sobe até mim o calor, o cheiro a flores. E vejo o rio espelhado e escuro lá em baixo, as luzinhas brilhando em volta. Haverá pessoas passeando pelas margens mas da minha janela não as vejo. Lá em baixo, na entrada do prédio, está um casal de namorados que se abraça e beija. A vida corre morna, macia.






Chego a esta altura da minha vida, depois de tanto museu, livro ou música e, cada vez mais, o que mais me surpreende ou comove é a convivência entre o efeito do tempo nas coisas e a marca que, quem passa, vai deixando nas coisas e em nós.

Recuo no tempo em busca do silêncio, da harmonia graciosa, dos sons que parecem descer dos céus, das paredes gastas, de restos de objectos que, em tempos, alguém amorosamente escolheu, e detenho-me perante a beleza do acaso, do encontro inesperado, da magia da simbiose perfeita, do pequeno desenho deixado como uma oferenda, da elegância de um pequeno ser azul sobre uma superfície de ferro que o tempo esculpiu, de gestos que se cristalizaram, de palavras que ficaram.




A vida é diversa, entram e saem pessoas na nossa vida, e ficam memórias, afectos intemporais, e entram outras, com leveza, e logo se cravam na nossa mente ou invadem o nosso coração, e aquilo de que gostávamos abre espaço para quem chega. 

Nos últimos dias partiram um grande poeta, um grande realizador, um grande economista. Os jornais e televisões não conseguem ter sossego: retrospectivas, evocações, tributos. As redes sociais enchem-se com os rostos de quem parte. Ainda nos estávamos a refazer da partida de Herberto Helder e já Manoel de Oliveira partia também e agora eis que Silva Lopes também se foi.


Mas eu, que não gosto de me deter nas partidas e que detesto despedir-me, permito-me pensar não só na marca que deixam mas também naqueles que, entretanto, chegam. E chegam novos músicos, novos poetas, novos bailarinos, novos pensadores, e logo nos encantam e, de entre os novos, alguns se haverão de destacar, de deixar as suas marcas e encher também os nossos corações. E depois descobrimos também outros que pensávamos presos ao passado, longínquos como se os tivéssemos conhecido noutras encarnações e é como se tivessem nascido de novo. E com memórias, com descobertas e com os que vivem à nossa beira, vamos avançando na vida. Assim somos nós, como uma parede que se vai erodindo, ganhando novas texturas, e na qual se inscrevem os ecos do passado e onde, quem passa, os poetas, os pintores, os músicos, vão deixando os seus sonhos azuis e onde também se inscrevem os afectos todos, os abraços, os olhares, as palavras.

Até que um dia partiremos também. Efémera é a vida.




Não tenho medo de doenças e, para falar verdade, não penso na minha morte. Um dia deixarei de existir mas, enquanto cá estou, penso é em viver.
Quando um dia, como já aqui o contei, o carro que conduzia perdeu os travões e, sendo um carro todo dado às electrónicas, não tinha um travão de mão de que eu pudesse socorrer-me, avancei com o carro desgovernado por uma estrada que descia ingrememente em direcção a uma rotunda em volta da qual circulavam camiões. Naquela fracção de segundos, pensei que o melhor a fazer, para não me ir desfazer contra os camiões, seria galgar o passeio e entrar pela rotunda acima. E assim fiz. Mas, quando olhei, vi o carro desgovernado em direcção a uma enorme peça metálica, de chapa, no centro da rotunda. Naquele instante, pensei que a chapa iria entrar pelo vidro e decapitar-me. Pensei: se calhar estou a viver os últimos momentos da minha vida. E, por estranho que possa parecer, não tive medo. 
Entretanto, com o impacto, houve um estrondo, o carro ficou cheio de fumo, quase virado no ar, e eu fiquei sem ver nada. Percebi que o carro se tinha imobilizado. Sem perceber bem o que tinha acontecido, sem saber se estava ferida, experimentei abrir a porta do carro, abriu, com alguma dificuldade saí do carro, e pensei: olha, não morri.
Entretanto, começaram a aparecer pessoas que saíram dos outros carros a dizerem-me para fugir porque o carro podia explodir porque estava cheio de fumo. Não me afastei, acho que percebi que eram os airbags que tinham rebentado e tinham deitado toda aquela fumarada. Tive muita sorte, podia mesmo ter ido desta para melhor. Mas teria ido sem medo.



Efémera e bela é a vida. Breves e misteriosos os instantes. Eterno o tempo que nos traz vidas de antes e as mistura com as de hoje e de amanhã. Festivos os afectos. Doces as memórias. Ternos os sonhos.

....

Esta mão que escreve a ardente melancolia da
idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra a
sua queimadura desde os recessos negros
onde
se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se. O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, a lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça : essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços, a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a carne. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce : eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

.....



....

  • A música lá em cima é Ave generosa - Hildegard von Bingen - de Heavenly Revelations (Naxos); Maestro: Jeremy Summerly; Coro: Oxford Camerata
  • O poema é a carta da paixão de Herberto Helder in Photomaton & Vox
  • O bailado está a cargo de Hubbard Street Dance Chicago: One Thousand Pieces; coreografia de Alejandro Cerrudo; música de Philip Glass
  • As fotografias foram feitas no Ginjal
....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira com muito amor à vida.

...

3 comentários:

JM disse...

Magnifico post. Escorreito de saudade, de vidas finitas e de vidas novas. Assim é o teatro dos sonhos.

Bom fim de semana
Obrigado

Rosa Pinto disse...

DE NOVO...

Ei-los Que Partem
Manuel Freire

Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutras paragens
noutras aragens
entre outros povos
ei-los que partem
velhos e novos

Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados

Virão um dia
ricos ou não
contando histórias
de lá de longe
onde o suor
se fez em pão
virão um dia
ou não

FIRME disse...

ISTO arrepia?Arrepia sim senhoras...Não era suposto regressar ao "passado",tão cedo !Vejamos então, os pequenos crescer calmamente...Seremos passado para ELES...Eles serão futuro para nós ! E a lua brilhará,se as nuvens pardas,não fizerem de nós PARVOS ou PARVAS...SÓ morre quem desiste...O Mundo pula e avança,como bola colorida ...nas MÃOS DUMA CRIANÇA !