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quarta-feira, abril 15, 2015

"Em memória de uns Pais" - a palavra ao Leitor Vítor Manuel


No post já abaixo tenho um vídeo que mostra o que terá sido a tragédia brutal de 1 de Novembro de 1755 em Lisboa. Interessante.

Mas isso é a seguir. Agora a conversa é outra.


Aqui há tempos divulguei (depois de devidamente autorizada, claro) o conteúdo de um mail que recebi de um Leitor que muito estimo no qual ele me contava memórias do tempo da guerra colonial.

Nessa altura, o Vítor Manuel falou-me também nos seus tempos de menino e moço até à ida para a guerra. Fiquei curiosa e, por isso, quando recebi agora o mail relatando esses tempos, pedi autorização para também aqui o divulgar. Cá está, então. A escolha das fotografias é de minha lavra pelo que espero que as tenha escolhido bem. E daqui envio o meu sentido agradecimento ao Vítor por partilhar comigo as suas memórias e me autorizar a divulgá-las.


Meu amigo está longe




Recordações, tristes, do tempo do Estado Novo

Ano de 1944:

Um jovem de 21 anos, oriundo de Lisboa, chega à antiga aldeia de Venda Nova, mais de 500 Kms a Norte - actualmente submersa e reconstruída em cota superior - deixando noiva na Capital.

Tinha concluído o Curso da antiga Escola Industrial de Afonso Domingues  a que se seguiu uma Especialidade em "Betões para Grandes Infra-Estruturas" e o cumprimento do Serviço Militar Obrigatório em Artilharia Pesada em Sacavém e Vendas Novas .

Consciente de que a carreira profissional, estável e de acordo com os conhecimentos adquiridos, exigiria sacrifícios e “mobilidade" (como agora soi dizer-se) concorreu a um lugar no Estado.

Logrou obter a colocação de "Encarregado de Laboratório" no então "Gabinete de Fiscalização dos Grandes Aproveitamentos Hidro-Eléctricos do Sistema Cávado-Rabagão".


Ano de 1945:

Casamento, em Lisboa, a 15 de Julho e, uma semana após, regresso - já com a jovem esposa - à Barragem de Venda Nova. Não foi fácil a adaptação da nubente!


Ano de 1946:

A 15 de Julho, em Lisboa e em casa (junto à Praça do Chile) e após muitas horas para parto, nasceu o filho varão. (A "régua de cálculo" que sempre acompanhou o Progenitor terá ajudado nas contas e desejo de um filho o mais rápido possível… ).

A jovem Mãe, 21 anos completados dez dias antes (com aperto mitral desde muito jovem) ficou bastante debilitada mas, naturalmente, imensamente feliz.

Passado um mês, os Pais colocaram a alcofa no banco traseiro de um Ford Anglia de muitos poucos cavalos e três velocidades e rumaram à Barragem de Venda Nova.

A viagem constituía uma verdadeira aventura e suplício: partida pelas 7 horas e chegada para cima das 22 com o itinerário pela antiga Estrada Nacional 1. Paragem para almoço em Coimbra e para jantar em Braga.

A partir de Braga, 16 Kms de estrada em paralelepípedo até ao cruzamento para Vieira do Minho após o que vinha o inferno final… em terra batida e dezenas e dezenas de curvas e contra-curvas. Não era nada fácil!

A recuperação da jovem Mãe prolongou-se por duas semanas (a fadiga e os efeitos da diferença de altitudes assim o exigiam). Depois, o muito pequeno "pimentinha " (permita-me usar o seu delicioso termo) foi crescendo e desenvolvendo-se.

Uma vez por Ano, na quadra natalícia, vinha-se até Lisboa para passar a Consoada e Fim de Ano com os Avós e Tios.

Por vezes, ficava vazio o lugar do Avô paterno, nas suas andanças pelos mares a que o obrigavam as suas funções de Oficial da Marinha Mercante.

O tempo ia correndo e a angústia dos jovens Pais ia aumentando também. É que subsistia um "pormaior" terrível: naqueles tempos, cinzentos e pobres, não havia Escola em redor!

Assim, chegados os quatro anos e meio do seu "pimentinha", os Pais viram chegada a hora da terrível e angustiante decisão: colégio interno, em Chaves, ou ficar em Lisboa entregue aos cuidados e educação da Avó e Tio paternos?

Com enorme tristeza e dor (apesar de ficar com quem ficava) foi tomada a opção por Lisboa.

A primeira dor, maior, de minha falecida Mãe foi o não me ter criado.

A segunda, foi a minha mobilização para a guerra colonial (nunca esquecerei vê-la ser transportada, em braços, por meus Falecidos Pai e Tio, para o automóvel enquanto o "Vera Cruz" se afastava, lentamente do Cais (foi uma "guerreira" e só colapsou quando as amarras foram retiradas).

Vinte e sete meses depois, reencontrei-a completamente branca!

Pois, fiquei em Lisboa; minha falecida Avó (ex-professora), mesmo antes de entrar para a Escola, foi-me ensinando a ler e escrever as primeiras letras secundada por meu falecido Tio que passou a ser o meu Encarregado de Educação até ao fim dos meus estudos, e meu "explicador" de sempre (fez o Curso de Económicas e Financeiras, no Quelhas, terminado em 1948 e de onde saíram alguns nomes conhecidos na sua área; ele, próprio, concorrendo ao Grupo Cuf e subindo a pulso, sem "cunhas", contribuíu para a remodelação da Contabilidade Industrial do Grupo passando de Chefe de Secção a Director Financeiro e, finalmente, a Administrador da então UFA - União Fabril do Azoto com sede na Avª da Liberdade - com a responsabilidade dos "Locais", Barreiro (hoje, "Quimigal") e Alferrarede. Terminou a sua carreira muito junto a Jorge de Mello, como Administrador da EGF.

Ambos inculcaram-me o gosto pela Leitura e pela História, aproveitando a minha predisposição natural.

Verdadeiros "segundos" Pai e Mãe, a eles muito, mas muito, devo o que sou e tenho sido na Vida e perante as suas Memórias me curvo, sempre! 

Seis anos e a entrada para a 1ª Classe, no " Externato Lys " (mesmo em frente ao Café Império, próximo de casa. Depois… exame da 4ª classe e exame ao Liceu… conseguida a entrada no Liceu Camões…. e concluído o 7º Ano (sempre com grandes dificuldades a Matemática - não saí ao Avô, Pai e Tio; tinha mais "disposição" para Línguas, Histórico-Filosóficas, Geografia)

Entretanto, e a partir dos treze anos (idade em que comecei a raspar as "penugens" da face) passei a deslocar-me, sozinho, para férias de Páscoa e Férias Grandes na companhia dos Pais.

Saída de Santa Apolónia... transbordo em Campanhã... novo transbordo em Nine... e chegada a Braga por volta das 17H00 com o Pai aguardando (vá que ia devidamente precavido com umas belas sandes de bife carinhosamente preparadas pela Avó).

Uma aventura mesmo, e ainda se tinha de cumprir a étape Braga-Barragem dos Pisões.

Cumprir-se-ia o "religioso" horário das 20H00, para jantar e o primeiro abraço e beijo a minha Mãe.

Fiquei a conhecer, no terreno, (e em profundidade), todas as fases de construção de uma Barragem, acompanhando meu Pai nas suas funções de Supervisão da qualidade dos Betões feitos e aplicados pelo Empreiteiro, na rigorosa aplicação das Normas de Segurança do Pessoal e ajudando na elaboração de Mapas de Qualidade, no Laboratório do Estado.

Lá ia eu, felicíssimo, no velho Anglia (de que meu Pai não se separou até 1965 e no qual aprendi a conduzi).


Agosto de 1965 (Dia 2)

Por circunstâncias da vida e de saúde, agravada, de minha Mãe (tinha eu 10 anos foi operada ao aperto mitral" pela equipa do Sr. Prof. Pádua) meu Pai decidiu, com enorme pena, abandonar a sua vida de "barragista ". Foi muito duro para ele.

E, por coincidências da vida, também, Pai e Filho, juntos, tomaram o metro; Pai, para o seu novo emprego e filho para o seu Primeiro.

Conhecendo-me o Tio, muito bem, sabia de há muito (com muita pena dele e não só) que eu queria iniciar a minha vida de homem, ganhar o meu dinheiro e não sobrecarregar, mais, os meus Pais.

Assim, fui "inaugurar" a "Secção de Controlo Orçamental e de Gestão na UFA.

(O tio, lá dentro, era o Sr. Dr. e a partir da saída passava, de novo, ao meu “segundo" Pai e Grande Companheiro, ele que também não teve filhos. Fui o filho que não teve!)

Depois... veio o Serviço Militar e Comissão em Angola, de que já falámos.


Autor: Vítor Manuel
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Lá em cima Gisela João interpreta Meu amigo esta longe

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Permitam que relembre o vídeo do post abaixo. 

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira, cheia de sorrisos e esperança. 

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1 comentário:

Anónimo disse...

a opinião deste animal à reportagem TVI - http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/leal-da-cunha/servicos-de-urgencia-em-portugal-funcionam-muito-bem?utm_campaign=ed-tvi24&utm_source=facebook&utm_medium=social

Bob marley