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segunda-feira, março 02, 2015

Ladrões honestos ou ladrões desiludidos? Um Picasso e um Calvin Klein. Não sei porque é que Robert devolveu 'La coiffeuse' mas o ladrão que tinha roubado o vestido de Lupita achou que, por pérolas falsas, não valia a pena a maçada.



La Coiffeuse





Isto da arte é uma coisa relativa. Por mais que se tente perceber o que é a arte e o que distingue o que é do que não é arte ou que se tente perceber qual o justo valor de uma peça, está quieto. Cada um diz a sua. E se os há entendidos a opinar sobre tão esotérico assunto...! Ele há-os historiadores, filósofos, sociólogos. Por vezes gosto de passar os olhos pelas teorias que explanam. Conversa, claro, porque ciência não há.

Se há coisa que me assusta é ir pela primeira vez a casa de pessoas que acham que têm uma casa muito bonita, com boas peças decorativas ou com quadros autênticos, de pintores reconhecidos, e eu, ao chegar lá, olhar para aqui e ficar bloqueada, por mais que queira dizer uma palavra simpática, quase não me ocorre nada. Digo então que a casa é grande, boa, espaçosa, que é simpática, coisas assim. 

Quando andava à procura desta casa em que agora vivo, vimos muitas outras. Coisas de susto. Casas escuras, quadros que por pouco não são colocados perto do tecto, sofás de pele escura ao lado de móveis escuros sobre carpetes escuras. Mais parecia que as pessoas ali estavam quase enterradas vivas. Agora que escrevo, lembro-me de uma moradia fenomenal. Belo jardim, belas divisões. A senhora, elegante e com bom ar, estava desolada. Quase de lágrimas nos olhos, contou-me que o marido a tinha deixado e tinham que vender a casa pois não tinham chegado a acordo para poder ser de outra forma. A senhora falava-me da casa como se fosse uma beleza, um palácio, e toda ela enaltecia a decoração, os quadros, tudo coisas valiosas, dizia ela e, infeliz, contava que não chegavam a acordo sobre a forma de as dividir entre eles. Lamentava-se, 'Uma vida...'. E eu olhava para aquilo e só me apetecia fugir.

Tudo tão relativo.

Uma vez, quando a empresa readaptou as instalações, procurava-se o que se pôr nas paredes de uma nova sala de reuniões. No resto  do edifício as pinturas são sempre óleos antigos, pinturas mais do que clássicas ou gravuras antigas, Aqui ou ali umas serigrafias mas tudo do mais convencional que há. Sugeri que naquela sala se pusessem uns grandes quadros de José de Guimarães que eu tinha visto numa galeria. Quem tinha a última palavra torceu o nariz. Pedi, então, ao galerista que os levasse lá para que se visse in loco. Eu achei uma maravilha. A sala tinha várias janelas, a luz enchia o espaço, havia umas plantas enormes num dos cantos, a mobília era clássica - e o contraste parecia-me altamente estimulante.

Pois bem, ele não gostou. Chamou colegas, juntou-se ali a equipa tudo e toda a gente torceu o nariz. Apenas um único achou bem. E, no entanto, eu achava as pinturas vibrantes e achava que ficavam ali mesmo a matar.

Tudo relativo.

Vem isto a propósito de quê? 

Bem. Um quadro de Picasso, La Coiffeuse, de 1911, tinha sido roubado em 2001 do armazém do Centro Pompidou. Tinha sido exposto pela última vez em 1998, em Munique. A obra está avaliada em $2.5 milhões. Pois bem. Eis que inesperadamente, chegou a Newark com um cartão cheio de ironia, “Joyeux Noel”. Tinha sido expedido por um tal Robert a partir da Bélgica como um brinquedo de artesanato no valor de $37.


Pablo Picasso quarenta e tal anos depois de ter pintado La Coiffeuse,
no seu estúdio com Brigitte Bardot, então com 21 anos

Imagine-se a surpresa.

Especialistas já atestaram a sua autenticidade.

O que teria levado o ladrão a desistir de ficar com La Coiffeuse? Adoraria saber. Quando alguém tem consigo um quadro roubado o que lhe faz? Pendura-o numa parede? Esconde-o? Há filmes sobre isto e a ideia que tenho é que ninguém nunca usufrui em felicidade de uma obra de arte roubada.

Mas houve um outro ladrão que, por estes dias, também devolveu o fruto de um roubo que deu que falar.

O vestido que Lupita Nyongo levou aos Oscares já era esperado com elevada expectativa antes da cerimónia e a expectativa confirmou-se: era uma jóia. E se deu nas vistas quando ela, negra e belíssima, avançou pela passadeira vermelha exibindo o vestido Calvin Klein, todo ele em pérolas, 6.000 pérolas cosidas à mão... O vestido está avaliado em $150,000. 


Será, talvez, heresia colocar ao mesmo nível, neste texto, um quadro de Picasso e um Calvin Klein. Mas, como acima referi, é tudo tão relativo (e, além disso, quem disse que não sou herege?).

O vestido tinha sido roubado do quarto do hotel, as notícias correram mundo e, então, quando menos se esperava, dois dias depois, eis que o vestido está de volta. Apareceu num saco do lixo preto numa casa de banho de um outro hotel.

O ladrão fez saber que retirou duas, tentou vendê-las e ninguém as quis, eram pérolas falsas e, portanto, assim sendo, não estava interessado.

A Calvin Klein está agradecida. Um golpe assim nem nos seus melhores sonhos. Um autêntico golpe publicitário, com a mais ampla repercussão mundial - e ainda por cima gratuito - era algo de que não estava à espera.

...

Não faço ideia de quem é cada um dos ladrões e, tomadas as devidas distâncias e proporções, acho que não os deveremos comparar com Passos Coelho (que, à semelhança dos anteriores, voluntariamente, na véspera do Público noticiar o caso, resolveu também pagar a dívida que tinha acumulado por não ter pago a Segurança Social durante 5 anos).


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1 comentário:

Rosa Pinto disse...

Hoje fiquei aqui presa, já fora da minha hora, ai!
Beleza, aquela que é universal não deve depender de gostos pessoais e de modas. Desafio UJM para pensar e partilhar algumas dessas belezas.
Cá por mim, e hoje a modéstia ficou lá fora, seria mais bela se tivesse o dom da escrita. As palavras articulavam na perfeição, rápidas e livres como o pensamento. E, porra, não ter pontos e vígulas em contra-mão. E agora vou.