Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, março 02, 2015

Infoexcluída me confesso. Nem Facebook, nem Twitter, nem Instagram. Nem gatinhos. Só gatos. E, de preferência, tal como Mario Testino os regista, nuzinhos, só com uma toalhita. Alô, alô Rosa Pinto: concorda que estes são de uma beleza universal, intemporal, obras de arte perfeitas?


No post abaixo já falei de dois ladrões honestos. Ou arrependidos. Ou amedrontados. Ladrões que, voluntariamente, devolveram o fruto do seu furto. Não foi ao Passos Coelho que me referi, é claro, longe de mim. Referi-me, sim, a dois ladrões cujos actos darão certamente filmes. Ora, como é sabido, Passos Coelho para artista não tem jeito (lembremo-nos da nega que recebeu do La Feria).

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Se ontem confessei alguns dos meus segredos, hoje continuo numa de confissões e falo das minhas debilidades cognitivas. 

É que ele há coisas que eu não percebo. E são muitas.


Cauã Reymond por Mario Testino


Do filme The Great Gatsby, numa interpretação de Lana Del Rey: Young and Beautiful


Por exemplo, não percebo: 

  • Porque é que a maioria das pessoas quando está a ser fotografada se põe de lado, abre a boca e, não raramente, levanta uma perna, quase como se simulasse que está a cair?
  • E porque é que tanta gente acha graça a fotografar-se a si própria? Mais: porque é que tanta gente acha graça a divulgar fotografias de si própria? 
  • E, mais intrigante ainda, porque é que é tão importante para as pessoas e para as empresas terem likes no facebook? Se nas pessoas eu ainda posso atribuir a uma questão de carência afectiva, já no caso das empresas acho que é entrar num registo de futilidade quando seria expectável que se funcionasse num registo de seriedade.
Marcelo Boldrini por Mario Testino
  • E porque é que há tantas tricas em volta da utilização do facebook?
No outro dia, num dos espaços de open space que não fica muito perto do meu gabinete, ouvi vozes mais altas que o costume. Pensei que naquele dia haveria mais efusividade do que o costume já que, em regra, nada se ouve. Mas depois a coisa foi subindo de tom, já parecia uma altercação. Intrigada, assomei à porta e vi duas, alteradas, a discutirem e os outros em volta a tentarem acalmá-las.
Quando, algum tempo depois, fui à copa buscar um dos meus múltiplos chás diários, vinha uma outra ainda corada. Perguntei: Então o que é que se está a passar? Ela respondeu: Nada que interesse Doutora, parvoíces, coisas que não deviam acontecer no local de trabalho, mas deixe, elas agora já estão mais calmas. Eu não disse nada mas ela deve ter percebido que eu não estava a ver o alcance da coisa pois clarificou: É a M que se passa com coisas de que ela é a única culpada.
Nikolai Danielsen por Mario Testino



Devo ter sorrido com ar de quem, sendo assim, já estou mais descansada mas, se sorri, fiquei-me pelo sorriso. 
Mas toda a gente devia saber a causa de tal situação insólita pois, nessa tarde, uma pessoa veio dizer-me, com naturalidade, Ela comenta o que não deve junto de outras pessoas, de que é que ela estava à espera?
Não percebi. Explicou-me: Põe-se a fazer comentários sobre o que as outras escrevem ou sobre as fotografias, e isto tudo se sabe. Limparam-na do Face. De que é que ela estava à espera? E depois foi tomar satisfações? Claro, ouviu umas verdades.
Continuei a não perceber. Limparam-na do Face?
Ela deve ter percebido que a minha insuficiência intelectual era severa e, portanto, traduziu: Sim, do Facebook.
Romulo Neto por Mario Testino

Pensei: ó caraças, que mundo paralelo este que, como o próprio nome indica, me passa todo ao lado. 
E a que foi limpa deve ser mulher para uns 60 anos, imagine-se! E, portanto, pelos vistos, toda aquela gente tem conta no facebook, e devem lá colocar pensamentos, selfies de boca aberta, e todas se devem comentar umas às outras e, às tantas, pelos vistos, zangam-se, amuam-se, entram em despiques. 
Ou seja, isto do Face pelos vistos até pode transformar mulheres urbanas em vizinhas de bairro, daquelas que se pegam umas com as outras por causa do diz que diz que, feitas fofoquentas, mariazinhas.
Claro que não será toda a gente assim, se calhar a maioria mantém o nível e sente-se mais acompanhada ou realizada tendo muitos amigos no Face e muitos likes, e sente que está mais em cima do que interessa. 
Com esses e outros argumentos, muita gente me tem incentivado a arregimentar-me. Mas eu não, obrigada, prefiro sentir-me outsider, quase como se quisesse preservar o lado de boa selvagem que ainda subsiste em mim.

Cara Delevingne por Mario Testino

  • Mas depois ouço que toda a gente acompanha as fotografias de um e outro também no Instagram e até pelo DN fico a saber que o Mario Testino divulga fotografias no Instagram e eu, que gosto tanto de fotografias e tenho milhares delas, não tenho conta no Instagram, não sei bem qual a diferença entre pôr fotografias lá ou pôr aqui e receio que, se aderir a isso e a tudo o resto, às tantas não dê mãos a medir que tempo é o que já me falta; mas, se não aderir, parece que estou cada vez mais à margem do mundo que a maioria das pessoas já habita.

Tanta coisa da qual passo ao lado.

  • E a história dos gatos? Em tempos li que o tipo de imagem mais visto na internet é o que se refere a gatos. Fiquei perplexa. Gatos? Porquê?


A propósito das novas pinturas de rua de Bansky em Gaza, em que pintou um ternurento gatinho a brincar com destroços de guerra, ele explicou que o fez porque as pessoas adoram imagens de gatinhos, parece que se deixam prender sobretudo por imagens de gatinhos fofos.

Under the photograph of the large mural, Banksy wrote on his website: “A local man came up and said ‘Please – what does this mean?’ I explained I wanted to highlight the destruction in Gaza by posting photos on my website – but on the internet people only look at pictures of kittens.”

by Banksy

(e eu sei que não deveria misturar a destruição de Gaza com frioleiras mas, que querem?, Levezinha é o meu nome do meio)

É certo que já fotografei alguns gatos vadios no Ginjal mas, enfim, faço-o porque acho eu que são animais que, naquele contexto, têm um potencial estético interessante. Mas daí até perceber porque é que os gatos são o principal motivo de interesse global no visionamento de imagens na internet já vai um grande passo. Tanta gente fotografa os seus gatos e com eles enche páginas e páginas de sites, blogues, facebooks e instagrams, porquê? Porque tem procura? Meio mundo anda à cata de gatos na internet?
Todas essas imagens estão armazenadas em computadores algures por aí (nas nuvens) e, se um dia alguns seres extraterrestres tentarem perceber que mundo é este, vão ficar surpreendidos, provavelmente vão achar que os gatos são os seres dominantes na Terra. (E, de resto, quem sabe não são mesmo? Sábios têm eles ar de ser).


Enfim, coisas que vão para além da minha compreensão. Presumo que, por isto, quase me possa considerar infoexcluída e estou certa que, muitos de vós, a maioria talvez, tem conta nessas coisas e só vê vantagens nisso. E talvez saibam tudo antes de mim, porque as redes sociais propagam a informação de forma viral e tudo isso.

Mas, de cada vez que leio como estas empresas seleccionam as informações a divulgar nos murais de cada pessoa de forma a manipular a sua disposição emocional, ou adoptam políticas moralistas, puritanas, mais me convenço a deixar-me de fora do maravilhoso mundo novo em que todos sabem tudo, todos divulgam tudo, todos consomem tudo.

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As beldades desnudadas fazem parte da Towel Series de Mario Testino (assim até eu não me importava nada de ser fotógrafa profissional).

Ilustram este texto como forma de resposta à Leitora Rosa Pinto que, num comentário ao post abaixo, me desafiou: Beleza, aquela que é universal não deve depender de gostos pessoais e de modas. Desafio UJM para pensar e partilhar algumas dessas belezas.


...

Relembro: no post abaixo falo de dois ladrões honestos ou enfastiados que, nos últimos dias, deixaram meio mundo de queixo caído. 

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5 comentários:

Rosa Pinto disse...

Ah. Pois está bem, digo eu. Mas eu nao me referia a seres humanos, mas sim a outro tipo de arte. Quanto aos humanos não é a beleza, que me atrai, e monstros tb não. Lá está não me expliquei bem!!!

Um Jeito Manso disse...

Olá Rosa, bom dia,

Explicou, explicou. A mim é que me apeteceu brincar. Estava a ver as fotografias do Mario Testino desta série da toalha quando chegou o seu comentário. E pensei: 'Ora cá está!, obra de arte mais inequívoca do que um corpo humano assim tão perfeito não pode haver' e lá vai disto.

A ver se me inspiro para ir buscar outras obras de arte menos carnais.

Um bom dia para si, Rosa Pinto!

Anónimo disse...

Olá jeitinho,
já somos duas infoexcluídas.
Boa semana, gosto tanto de si.
Beijinhos Ana

Anónimo disse...

Realmente não consigo compreender essa necessidade doentia e quase diria psicopática de as pessoas se exporem desta forma, publicamente, enviando fotos, contando histórias e factos das suas vidas a estranhos, etc. É algo que de algum modo define esta moderna sociedade. Como também a obcessão pelo tlm, manuseando-o a toda a hora, trocando mensagens a todo o momento, etc. Esta tal Sociedade Global está, quer-me parecer, a ficar seriamente doente! Eu cá, fico-me pelo e-mail, um velho tlm, uma máquina fotográfica e o meu computador. Salvagardando com isto a minha privacidade e vida pessoal.
P.Rufino

Rosa Pinto disse...

Beleza.
Será que existe uma definição? A subjectividade vai até…qual o limite? Tema que não é fácil.
“É importante diferenciar entre "bonito" e "belo". Há pessoas belas, que não são bonitas, e há pessoas bonitas, que não consideramos belas.
Na arte, um quadro belo nem sempre retrata algo bonito e a representação de algo bonito nem sempre resulta num quadro belo.
Então evidentemente há uma diferença.
Eu acho que o bonito se refere somente a questões estéticas exteriores, como harmonia de proporções e do conjunto, ou ao que é agradável ao olhar. A beleza envolve algo mais profundo, além disso.” - Philip Hallawell
“Quando vemos alguém como belo, é porque expressa algo que admiramos, como força, bondade ou alegria.” - Philip Hallawell
Concordo com as duas citações. Para mim, é difícil escolher entre as belezas carnais que postou. São agradáveis ao olhar, claro que sim!!! Mas, não passam de imagens agradáveis.
Numa estação do metro de Lx, e não me lembro qual, existem algumas frases dedicadas ao tema que me fizeram reflectir. Uma delas, se é que a percebi, fala de uma beleza que é “universal”, indiferente de quem olha – há beleza. E esta beleza que a frase relata ultrapassa o humano. Daí o meu desafio!

Quanto ao infoexcluída...com um blogue?
info-excluído - adjetivo, nome masculino
que ou o que desconhece e/ou não tem acesso às tecnologias da informação, como a internet

O pastor alentejano até já tem facebook, té lá a moenga!