Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, março 13, 2015

Há um lugar no fim do mundo


No post abaixo falo de maquilhagem, falo de como gosto de me maquilhar, recordo a transformação radical que operei em mim quando fiz 40 anos, e falo das tendências Chanel para a Primavera que se avizinha.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Muito outra.








Há algures na Terra um lugar especial que espera por mim. Quero pensar que ainda o hei-de descobrir e que lá encontrarei grande parte da minha razão de ser.

Sei que é um lugar de florestas verdes e profundas, onde o coração da terra pulsará forte. Sei que as árvores estarão cobertas de veludos profundos e que no chão haverá fetos, heras que treparão pelos troncos, neblinas, mistérios. Subirei longas escadarias que me farão perceber que por ali já passaram outros antes de mim mas, na altura em que eu lá estiver, haverá apenas silêncio, canto de pássaros, o suave rumorejar de águas tombando, uma aragem breve.

Subirei, pois, as escadas sem saber onde vão dar, desejando que vão dar a lugar nenhum. Subirei, o ar muito fresco, os pulmões leves, e, de vez em quando, sentar-me-ei não de cansaço mas de êxtase porque quando a beleza é tanta não se pode seguir em frente e fazer de conta que não se vê.

De vez em quando ouvir-se-á um grito e eu saberei que é de uma ave que atravessará o espaço, feliz na sua suprema liberdade e eu olharei os céus desejando vê-la, desejando aprender a ser como ela.




Caminharei sem saber para onde, a floresta um labirinto verde e feliz, e baixar-me-ei para acariciar as raízes que se espalharão pela terra e as árvores são antigas e o seu tronco acolher-me-a e eu aninhar-me-ei lá dentro.

Mas ainda não disse talvez o mais importante. 

Há uma pessoa, uma única, que sabe onde é esse lugar e que me levará até lá. Será com essa pessoa, que caminhará ao meu lado, igualmente inocente e feliz, que eu irei, perdida de tudo, encontrada em mim mesma. Será abraçada a essa pessoa que eu me aninharei dentro das árvores. E o perfume da terra envolver-nos-á, um cheiro tão bom, tão quente, tão íntimo.

Depois seguiremos o trilho das raízes e as raízes misturar-se-ão com degraus cobertos de musgo e, sem sabermos se sonhamos, se apenas estarmos a chegar a nossa casa, encontraremos templos abandonados, paredes gastas, as árvores entrando pelas paredes, as janelas já cegas de tanto verde.




E nós entraremos sem sabermos de mais nada. O silêncio da floresta e as memórias impressas nas paredes dir-nos-ão que ali habitaram tigres, sonhos, espelhos, mulheres nuas, homens deslumbrados, silêncios. Sem medo, entraremos e andaremos de divisão em divisão mas não haverá divisões e subiremos escadas suspensas no ar e chegaremos a uma sala imensa cheia de luz onde pássaros azuis entrarão e sairão como que vigiando a solidão.

Descobriremos então, em recantos escavados nas paredes, livros antigos, desenhos irreais, e não saberemos que alfabeto é aquele e diremos que são as palavras dos deuses. E, de lágrimas escorrendo, nem saberemos com que leveza tocaremos em livros tão preciosos. Sentar-nos-emos então num chão já coberto de musgo e entre as nossas pernas colocaremos os livros antigos e olharemos incrédulos: é o desenho dos nossos rostos que ali estará. E ver-nos-emos ali retratados, abraçados, apaixonados, nós, vindos do início e do fim dos tempos. Com mil cuidados, pousaremos os livros e abraçados, assustados, iremos espreitar a janela onde nos vigiaraõ os grandes pássaros azuis, quase negros.

Reparamos então que estamos muito alto, nem tínhamos reparado que tínhamos subido tanto e descobrimos que, lá em baixo, corre um rio muito escuro, coberto de névoas. Quando nos voltamos para sair, os livros já lá não estão. No seu lugar está a rosa azul que uma noite, num outro lugar, me tinhas oferecido. Abraças-me e perguntas se ainda me lembro da rosa e eu beijo-te porque não sei como te dizer que jamais me irei esquecer dessa rosa que, um dia, me deixaste ao amanhecer.

Queres então baixar-te para a apanhar mas eu digo que a deixes pois sei que dela nascerão muitas outras e pássaros e livros infinitos. E tu dizes que tenho razão pois só dentro dos livros nascidos das rosas azuis poderemos viver abraçados para sempre.




Depois saímos e há uma chuva leve no ar e tu levas-me pela mão mas quando te pergunto para onde me levas tu nada dirás, apenas sorrirás e eu sentir-me-ei segura pois sei que és tu que tens a chave e o fio e, por isso, deixo que me conduzas pelo infinito labirinto. E nas paredes de pedra há histórias, há o tempo gravado, há musgos e por elas escorre uma água muito fresca e limpa e tu dizes para eu me encostar e sentir a macieza da pedra e a frescura da água. E, então, quando me encosto, tu encostas o teu ao meu corpo e ficamos os dois imóveis, querendo fixar em nós o tempo, querendo ser eternos, ali os dois, perdidos do mundo, encontrados um no outro.

Então, quando apenas escutamos o bater dos nossos corações, ouvimos um roçar ao de leve, passos, uma respiração e depois um olhar que nos olha e tu dizes que eu não me mexa e proteges o meu corpo com o teu. E eu olho e é um tigre enorme, um enorme tigre azul. E então eu digo-te que me soltes e caminho em direcção ao tigre e o tigre olha-me de frente e eu olho o tigre e tu puxas-me mas eu puxo por ti e, de mão dada, caminhamos em direcção ao grande tigre que caminha na nossa direcção. Depois, quando estamos perto, o tigre abre a grande boca, solta um som assustador e entra, num salto, pela parede. Arrepiados, quase petrificados, abraçamo-nos e eu sorrio e tu sorris porque ambos sabemos que a nós os tigres azuis não fazem mal, somos seus irmãos. O nosso coração é azul e macio como o grande coração dos tigres que habitam este lugar.

E à noite recolher-nos-emos no interior da árvore mais quente e macia e de lá olharemos o céu, ouviremos os sons da floresta, da terra, o bater dos nossos corações, e tu contar-me-ás os teus sonhos e dir-me-ás das palavras que voam dentro de ti e eu contar-te-ei das luas que me visitam para me falarem de mistérios e da luz que me cega quando penso em ti. E, então, nos braços um do outro, adormeceremos descansados porque saberemos que o tigre azul velará por nós e dormiremos felizes porque sabemos que acordaremos rodeados de rosas azuis e sentir-nos-emos agradecidos porque milagre igual a este nunca ninguém mais no mundo o terá vivido. 



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Desejo-vos a todos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira.

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4 comentários:

Vitor disse...

Lindíssimo texto e belíssimas fotografias, estimada UJM !
Os meus Cumprimentos
Vitor

Rosa Pinto disse...

Quero esse lugar no fim do mundo. Bom dia!

Mar Arável disse...

Não há morte nem princípio



FIRME disse...

há princípio,meio e FIM !Mas há o dia dia,que nos afasta do princípio,mas nos aproxima do fim! Pelo meio vemos os nossos,pequenos,rebentos,que queiramos ou não...recordarão as nossa vivências boas e más!As meninas imitarão as AVÓS,a pintar as unhas e os lábios,ás escondidas das MÃES...Os meninos,praguejarão,ás escondidas dos PAIS,como os AVÕS...E tudo continua...Espero,que os loucos ,não invertam este sistema quase "PERFEITO"...A pequenada agradece ! BOA NOITE...