Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, fevereiro 28, 2015

One sleepy woman - que é como quem diz: se soubessem a pedrada com que estou depois do vendaval que houve aqui em casa...!


Two sleepy people by dawn's early light
And too much in love to say goodnight






Depois de um dia de trabalho, fui buscar dois dos pimentinhas e trouxe-os cá para casa. Juntou-se-nos a troupe completa do outro lado. Éramos oito num jantar preparado à pressão. 
Arroz branco a acompanhar cheese-burgers caseiros. Comprei na quinta à noite lombo que pedi para picar. Esta sexta à noite temperei com sal e separei em porções. Espalmo uma bola de carne, depois ponho um bom bocado de queijo ralado, quase uma bola, e faço uma tampa com outra porção de carne picada. Espalmo para ficar com formato de hamburger. Frito os hamburgers em azeite com dentes de alho e louro. O queijo por dentro fica derretido, bom. Entretanto, o meu marido tinha ido buscar duas pizzas grandes feitas em forno de lenha, uma com frango, queijo, nozes e rúcula e outra vegetariana com queijo de cabra e espinafres, deliciosas. Fiz salada com alface, agrião, rúcula, tomate, maçã e mozzarela fresca, temperada com azeite. 
Festa como sempre. Depois de jantar vão a correr para uma das salas e a brincadeira agora é que é dia de festa, têm que arranjar a sala, afastar móveis, reorganizar tudo para poder acomodar os convidados, cadeiras de um lado, zona da comida do outro. Claro que é ela que distribui os papéis e os os rapazes carregam puffs, cadeiras, mudam almofadas, afastam sofás. Uma coisa do além, em menos de um foguete fica a casa virada do avesso. Apesar de tudo, é preferível isso a irem buscar brinquedos e ficarem pecinhas por todo o lado, debaixo de tudo.




Depois saltam, brincam.

Mas hoje fizeram uma avaria terrível. Há que tempos que eu temia isto. Foram à cozinha perguntar-me se a festa a seguir era o Natal e eu respondi que era a Páscoa. Então, num ápice, a conversa virou para coelhinhos e caça ao tesouro e, em segundos, já andavam todos a esconder coisas para a caça ao tesouro. Avisei-os mil vezes que não queria que mexessem em caixinhas de louça ou peças de vidro. Mas, quando dei por ela, tinham escondido uma coisa dentro de uma caixinha da Vista Alegre e tudo muito à pressa porque era proibido, um levantou a tampa e a tampa escorregou e foi bater na pedra da lareira e a tampa fez-se em duas. Ficaram aflitos, e desculpa Tá, desculpa, claro, e eu desolada. Tenho que, este sábado, arranjar uma cola para cerâmica a ver se consigo que fique quase sem se dar por ela. Bolas. O meu marido acha que a culpa é minha, claro, tinha que ser. Que para que é que tenho porcarias por todo o lado? Mas vou pôr onde? Tudo encafuado? A pedra de cima da lareira está atafulhada, era um sítio onde não chegavam, fui pondo para lá tudo o que estava mais abaixo. Agora já lá chegam.

Enfim. Adiante. Todos os males fossem esses.

O mais crescido agora anda com umas cartas que parece que têm hologramas lá dentro, conhece aqueles animais ou monstros ou seres estranhos ou lá o que é aquilo pelo nome e lê os dizeres das cartas e depois vem colocar-me questões sobre o que lê. Não consigo esclarecê-lo porque nada daquilo me é familiar. Têm poderes, fazem coisas que não percebo. 

Ela ri-se à gargalhada, perdida de riso, com as brincadeiras malucas dos rapazes. Volta e meia lá consegue que eles lhe obedeçam naquelas suas organizações mas logo eles se tresmalham e já andam a dar saltos de cima das banquetas ou às lutas.

O mais pequeno trata o primo mais velho pelo segundo nome que é um apelido. Como têm os dois o mesmo nome próprio, ele adoptou, por sua alta recriação, essa estratégia. Imaginem que o segundo nome do primo era Medeiros (que não é, mas é do género). Mas então trata o primo por 'primo Medeiros', o que soa o máximo, um puto de dois anos a dirigir-se ao primo de seis como o Pimo Medeios. E a brincadeira preferida é bater no Pimo Medeios. Como se pode imaginar, o primo defende-se e, por isso, volta e meia dá-lhe com cada piparote que até dói. Por mais que a gente lhe diga para ter cuidado porque o outro é pequenino, numa de instinto de defesa, o outro quase voa. Claro que, habituado como está, ele nem se torce nem se amolga, levanta-se e está como novo, pronto para voltar a picar o Pimo Medeios.




O possante ex-bebé, autêntico carro de choque, continua na do outro dia. O avô perguntou-lhe: Então, pá, já comeste algum patinho? Pesaroso, disse que não. O avô diz-lhe que, para a próxima, vamos ter pato à Pequim para o jantar. Ele não deve fazer ideia do que é Pequim mas ouve pato e diz que está bem. Depois acrescenta: 'E piu-piu tamém, tamém gótu comê piu-piu'. Fico estarrecida. Confirmo 'Piu-piu...?' e ele diz que sim mas depois acrescenta 'Mas como vamo bujcá ó chéu? Os piu-piu andam no chéu...' Lá lhe digo que esses não se comem. Credo, para o que lhe havia de dar. No meio da semana saíu-se com outra. Disse à mãe que queria comê puquinos. A mãe admirada, puquinos? E ele, tipo hello..., disse 'Mãe... rhrh-rhrhr', fazendo o barulho dos porcos. E acrescentou 'Eu gótu comê tudo, as oêlhas, as patinas'. 

Deve ter sido porque no outro dia, quando comemos cozido à portuguesa, o tio mostrou-lhe que comia tudo isso, deu-lhe a provar e ele, muito admirado, e apesar do incómodo da mãe, comeu e gostou. E agora anda armado em carnívoro troglodita, a pensar em comer tudo o que mexe, credo. 

Enfim. 

E comem que nem uns lobos. Jantaram como se não comessem há dias. Pois bem, há bocado o dito ex-bebé quis comer pão. Os tios e primos já se tinham ido embora e eles os dois não queriam dormir, na perspectiva de ainda irem dormir à sua própria casa. O avô arranjou-lhe uma sandes enorme, um despropósito, com duas fatias grandes de pão saloio com manteiga. Quis também com queijo. E, quando a sandocha já ia a meio, perguntou-me 'E não há chaumão fuimado?' Salmão fumado à meia-noite? Que não, já não tinha, já tinham acabado com ele antes de jantar. Por isso, ficou-se por ali. O mais crescido estava era numa de um prato de cerelac. Provavelmente comeu-o quando chegou a casa. Não há explicação.

Resultado? Só consegui pegar no computador há bocadinho e, nem imaginam, estou completamente perdida de sono, mal consigo escrever, nem sei se o que acabaram de ler faz algum sentido. Vim aqui só mesmo para vos dizer que gosto que saibam que penso em vocês, meus Caros Leitores, que não quero deixar de vos dizer olá. Tenho vários mails para responder, um dos quais muito especial e ao qual quero responder com tempo e cuidado. A ver se este sábado ou no domingo consigo pôr as respostas em dia mas já não digo nada pois, quando penso que não tenho programa para cada hora do dia, logo, logo, alguém se encarrega de a preencher. Mas, como é sabido, não me queixo, tenho é uma sorte do caraças - mas, depois, aqui, enquanto escrevo, bocejo, fecho os olhos, deixo-me dormir.

Vou mas é para a cama a ver se durmo de olhos fechados, se sonho com música desenhada nos ares, com folhas voando como pássaros, com surpresas boas, com esperados e inesperados afectos, com letras que se desenhem no meu coração, com sorrisos verdadeiros, com abraços que me aconcheguem a alma.



......
  • A música é Two Sleepy People por Silje Nergaard
  • As fotografias são de Anil Saxena (de Mumbay, India) que usa o photoshop para fotografar sonhos.
...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

...

3 comentários:

Rosa Pinto disse...

Calçada de Carriche
Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão, in 'Teatro do Mundo'

Pôr do Sol disse...

Adormeceu, certamente, com um calmo sorriso e teve um sono descansado e feliz. E como sabe bem o sossego depois dessa festa toda.
Vê-los assim saudaveis e felizes é uma benção.
Um bom domingo e um beijinho

Anónimo disse...

Olá jeitinho,
Os seus pimentinhas parecem os meus filhos, o meu marido diz que são uns trolhas a comer.
O bom apetite é sinal de saúde.
Beijinhos Ana