Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, janeiro 11, 2015

O medo. Os ratos. E Raef Badawi que foi chicoteado em público e por quem Doudi, a filha, tantas saudades sente. E Salman Rushdie e tantos mais que afirmam corajosamente a demência de tudo isto. E os Anonymous por todo o lado que juram não dar tréguas a quem atentar contra a liberdade de expressão. Talvez haja, pois, uma esperança de liberdade. Para que se possa dançar nos céus de Paris. E que essa esperança se espalhe aos céus, às estradas, às escolas, aos campos de todo o mundo.


A Leitora Rosa Pinto lembrou muito bem O Poema Pouco Original do Medo de Alexandre O'Neill - é que, não nos esqueçamos, se nos deixarmos levar pelo medo cedo alcançaremos a condição de ratos.

Arvo Pärt: The Deer's Cry


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O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis  
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos  
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
       (assim assim)
escriturários
       (muitos)
intelectuais
       (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles  
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados  
Ah o medo vai ter tudo
tudo 
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer) 
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos 
Sim
a ratos 

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Viciado'; pinturas de Francis bacon

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Centenas de espectadores numa praça pública em Jidá viram, sexta-feira, Raef Badawi a ser chicoteado 50 vezes. Durante 15 minutos, em silêncio e sem chorar, Raef Badawi foi sujeito ao castigo decidido pelas autoridades da Arábia Saudita que incluem, além de dez anos de prisão, mil chicotadas repartidas por 20 semanas por ter insultado o Islão.


Uma testemunha anónima contou à Associated Press que o co-fundador do site Rede Liberal Saudita, e laureado em 2014 com o prémio Repórteres sem Fronteiras, estava algemado mas com a cara descoberta. Foi transportado da prisão para o local, pouco depois de terem terminado as orações do meio-dia numa mesquita próxima. Cumpriu, assim, as primeiras 50 chicotadas por ter criticado o poder dos líderes religiosos na Arábia Saudita, no blogue que fundou com a activista dos direitos das mulheres Suad al-Shammari e onde defendeu o fim da influência da religião na vida pública daquele país.

Outra testemunha disse à Amnistia Internacional que a multidão se juntou em círculo. "Quem passava juntou-se e a multidão cresceu. Mas ninguém sabia porque é que Raif estava a ser castigado. Era um assassino? Um criminoso? Não reza?", perguntavam. Depois, "um polícia aproximou-se por trás e começou a bater-lhe. Raif levantou a cabeça em direcção ao céu, fechou os olhos. Estava em silêncio mas era visível pela expressão do rosto e movimento do corpo que estava a sofrer". O polícia bateu nas pernas e nas costas, contando até 50.


no Público de 10.Jan.2015


No vídeo abaixo, em Novembro do ano passado, Doudi, a sua filha de 10 anos, escrevia uma carta a Raif Badawi que está preso na Arábia Saudita, condenado a 10 anos de prisão e a 1.000 chibatadas por ter um blogue no qual defendia um debate social e político no seu país. 






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Salman Rushdie fala com Bill Maher a propósito do que aconteceu no Charlie Hebdo, fala do Islão e de toda esta cegada. Maçãs podres. O pomar estragado. Diz Bill Maher.





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Os Anonymous, um pouco por todo o lado, juram vingar os que, por defenderem a liberdade de expressão, caíram mortos às mãos dos terroristas. Os Anonymous afirmam a sua defesa da liberdade de expressão como um pilar da democracia e juram não dar tréguas aos terroristas.


Aqui em espanhol.



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O Irão condenou o atentado de Paris. A moderação a fazer o seu caminho. Talvez. Mas até há pouco tempo atrás a realidade era outra.


Rosewater - Uma esperança de liberdade



Irão, 2009. Decorre a campanha para as eleições presidenciais. Maziar Bahari (Gael García Bernal), jornalista iraniano-canadiano, regressa à sua Teerão natal para entrevistar Mir-Hossein Mousavi, líder da oposição a Mahmoud Ahmadinejad, o polémico e autoritário presidente em exercício. Quando a vitória deste é anunciada, as ruas enchem-se de protestos dos partidários de Mousavi. Bahari divulga imagens dos tumultos, mesmo sabendo o risco pessoal que esse acto acarreta. É detido pelas autoridades iranianas, que o retiram da sua casa. É acusado de espionagem. Uma das "provas" é um "sketch" com uma entrevista satírica emitida pelo programa "Daily Show", de Jon Stewart. Ao longo de 118 dias, vendado e sem saber quando (se?) voltará a ver a mulher, grávida, Bahari será submetido a violentos interrogatórios levados a cabo por um homem (Kim Bodnia) cujo nome e rosto desconhece, mas cujo perfume lhe fica marcado na memória: o senhor "Rosewater" ("água de rosas").

"Rosewater - Uma Esperança de Liberdade" marca a estreia na realização de Jon Stewart, o popular anfitrião do programa televisivo "Daily Show", e foi rodado numa prisão jordana. Baseia-se nos factos relatados no "best-seller" "Then They Came for Me", do próprio Maziar Bahari, que foi detido quando fazia a cobertura das eleições presidenciais iranianas para a revista "Newsweek". Apesar da relação entre o vídeo do "Daily Show" e a sua detenção, Bahari não guardou qualquer rancor a Stewart ("Podia estar na 'Rua Sésamo' e eles acusariam o Elmo de insubordinação", esclareceu o jornalista quando regressou ao programa). Mais: colaborou com Stewart na escrita do argumento e como consultor nas filmagens.




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E a beleza de Paris e a liberdade. E o voo junto ao céu de Paris.

Viver sem medo.

HAUT VOL




Bailarinos: Léonore Baulac e Allister Madin do Ballet da Opera de Paris 

Realizado por Louis de Caunes

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo em liberdade, sem medo.

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2 comentários:

Rosa Pinto disse...

E na boa da verdade, ao longo dos tempos, os relatos históricos sobre a opressão/falta de liberdade são uma constante.
Relembro a obra de Luís de Stau Monteiro, Felizmente Há Luar!, censurada antes do 25 de Abril de 1974, e que tem como cenário o país onde vivemos - Portugal.
Dentro dos princípios do teatro épico, Felizmente Há Luar! é u m drama narrativo, de caracter social, que critica a sociedade, apresentando a realidade com o objetivo de levar o espectador a tomar uma posição.
Luís de Sttau Monteiro evoca na obra situações e personagens do passado usando-as como pretexto para falar do presente (ditadura de Salazar).
A sua intemporalidade remete-nos para a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição e a injustiça.

E, infelizmente, por esse mundo fora, seja qual for a justificação para a opressão, ela acontece e continua…até quando?

Beijinho

Anónimo disse...

O Profeta Maomé (ou Mahound) declarou num célebre édito, no “Livro sobre o Governo”: “as portas do Paraíso estão sob as sombras das espadas”.
Até por volta do ano 1000 (Séc. XI), os Muçulmanos eram tolerados e considerados apenas “um incómodo bárbaro, até ser derrubado com a ajuda de Deus”. A passagem dos Sarracenos (“Saracens”, ou seja, os filhos de Sara, mulher de Abraão) de “uma simples aflição para um caso de vida ou de morte” deveu-se à destruição da Igreja do Santo Sepúlcro em Jerusalém, pelos muçulmanos, em 1009, de algum modo associado ao ano Mil, o fim do Mundo, apocalíptico, na imaginação cristã, passando a ser considerados como “anti-cristos”.
Hoje, o Islão e os seus excessos criminosos são o que se sabe. Há uma coisa todavia que ressalta daquela Religião, a sua incapacidade em conviver com a Democracia e, nesse sentido, com os Direitos Humanos, onde se incluiu o respeito pela mulher, a igualdade de direitos da mulher e do homem, a proibição/abolição da violência sobre os arguidos, a prevalência e separação do Estado sobre a Religião, etc.
O Islão convive mal com a tolerância. E enquanto não conseguir resolver essa questão e, deste modo, fazê-la ser entendida e aceite por todos os seus seguidores e praticantes, o Islão continuará a ser um espartilho ao desenvolvimento económico-social, cultural e político das Sociedades onde se insere. Bem como um instrumento ideológico do terrorismo, sempre que alguns dos seus praticantes e crentes, mais radicais ou menos instruídos, decidirem utilizá-lo como justificação para os seus actos criminosos.
P.Rufino