Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, novembro 20, 2014

De que acasos ou escolhas é feita a nossa vida?


No post abaixo falei de um caso que está a agitar os media: a acusação de que o actor e comediante Bill Cosby violou algumas mulheres alguns anos atrás. A última a revelar o que se passou é a ex-modelo Janice Dickinson e o seu testemunho é duplamente impressionante. Em contraponto, mostro a nossa bela Sara Sampaio que vai ser capa da Vogue dedicada a jóias e que é objecto dos mais desmedidos elogios.

Mais abaixo ainda mostro um cartoon que diz bem sobre o estado de espírito dos portugueses nos dias que correm.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, falo de outra coisa. Memórias, reflexões.


Mas vamos com Bach pelas mãos de Glenn Gould que vamos melhor



(Goldberg Variations var25)




Aqui há dias li o texto do José Catarino e fiquei a pensar. Sabemos lá o que nos vai levando a optar pelas bifurcações que se vão desenhando à nossa frente ou que acasos nos esperam a cada dia que passa. Vamos indo, apenas isso, e vamos arcando com as consequências das nossas escolhas.

Tantas que tenho feito ao longo da minha vida. Tantas, tantas. De vez em quando encontro pessoas que se mantiveram no trilho em que eu, em tempos, também estive e que, mais tarde, abandonei. Parece-me, então, que recuo no tempo. Falam-me pessoas de quem apenas me lembro já vagamente, descrevem-me situações que me parecem longínquas. E, no entanto, ainda são o seu presente e, não tivessem sido outras as minhas escolas, ainda poderiam ser as minhas na actualidade.

Permitam que recue no tempo das minhas memórias. Receio estar a repetir-me mas a minha vida é uma, não posso recriá-la apenas para ser criativa.

A minha mãe gostava que eu tivesse sido professora o que, segundo ela, era uma profissão prestigiada, que permitia conciliar bem uma vida profissional com uma vida pessoal, que os horários eram muito reduzidos, etc. Quando fiz o bacharelato (3 anos de faculdade), querendo ter a minha independência, concorri para professora e fui colocada. Tinha habilitações próprias e horário completo o que, na altura, correspondia a 22 horas por semana em horário diurno e menos que isso quando, no ano seguinte, tive horário nocturno. De facto, achei que aquilo era uma peninha, um trabalho leve. Continuei a estudar, estava casada, tinha amigos, ia ao cinema e ao teatro e tudo era conciliável. Quando acabei a licenciatura, podia ter ficado na universidade, tinha acabado com média de 16, a carreira académica abria-se à minha frente. Mas não quis, achei que, se ficasse, me ia enfronhar num meio fechado, o oposto do que queria para mim. A última coisa que me apetecia aturar eram alguns dos professores chatos que tinha tido ou alunos marrões como os que tinha tido por colegas. Desconsiderei, pois, a hipótese da carreira académica e, levada pela conversa da minha mãe e constatando que de facto aquilo era uma rica vida, candidatei-me a um estágio no ensino secundário e fui colocada. 

Um dia, o meu pai falou-me num anúncio no jornal para um projecto que me pareceu aliciante. Escrevi uma carta a candidatar-me. A minha mãe achou uma tontice e arreliou-se com o meu pai, tanto mais que eu até ia começar o estágio dentro de pouco tempo, e, de seguida, tornar-me-ia efectiva o que, para a minha mãe, seria o cúmulo da estabilidade. O meu jovem marido felizmente não opinou, que fizesse eu o que entendesse. 

Era verão. Pouco depois, recebi uma carta, uma convocatória, que me apresentasse em tal sítio. Apareci para a entrevista de jeans justinhos e coçados, tshirt justinha, malinha de verga, como se fosse para a faculdade ou passear na Baixa. Uma miúda totalmente à vontade. Tinha 22 anos acabados de fazer. Não me aconselhei com ninguém, não fazia a mínima ideia do que era aquilo, nunca tinha ido a uma entrevista. Quando cheguei e vi um edifício de muitos andares, uma portaria cheia de empregados fardados, não sei quantos elevadores, um movimento de sobe e desce, fiquei muito admirada. Depois tinha uma secretária à minha espera que parecia minha mãe, vestida à senhora. Fui para um gabinete decorado muito formalmente onde fui recebida por um senhor bem mais velho que eu, de fato e gravata, uma simpatia. A entrevista deve ter demorado uma hora. Gostei. Contudo, passado um dia ou dois já nem me devia lembrar, estava de férias, na boa, sempre tudo na descontra. Uns dias depois nova carta e, para minha surpresa, nova entrevista.

Acho que para esse dia tentei arranjar-me de forma mais formal. Se ainda vivesse com a minha mãe, ela ter-me-ia aconselhado, moído a paciência, feito mil recomendações, sei lá. Assim, casada já há dois anos, estava por minha conta. Nova grande entrevista, desta vez com um senhor de idade, o director central de recursos humanos. As coisas do além que ele me perguntou. Às tantas já estávamos os dois a rir. As perguntas pareciam-me malucas mas as respostas se calhar também o foram. Lembro-me de algumas e ainda me rio. Dizia-se que por esse ilustre doutor passaram das melhores cabeças deste país, muitas das quais pertencentes a pessoas que vieram a tornar-se personalidades importantes da vida pública nacional.

Tenho ideia de que ainda houve uma outra entrevista mas dessa apenas tenho uma vaga ideia. 

Entretanto, iniciou-se o estágio na escola secundária onde tinha sido colocada. Não tinha ainda tido resposta sobre as entrevistas e sempre pensei que aquilo não daria em nada ou, melhor, não me preocupei com o assunto. Nunca me ocorreu perguntar se havia muitos candidatos e quais as minhas probabilidades. 

Na escola, reuniões com orientador, tarefas, sei lá que mais. Nessa altura comecei a ser confrontada com uma inesperada carga burocrática, uma coisa meio parva, muitos planos e planinhos (como diria o pintas de lima), e com uma certa competição pacóvia entre os demais estagiários face a um orientador também meio parvo. Estava, pois, mesmo in the mood para zarpar dali para fora.

Até que veio nova carta. Sem perceber bem como, fui admitida. O ordenado era cerca do dobro do que ganhava como professora. Mas só o soube depois porque tenho ideia de que não me lembrei de averiguar esses aspectos práticos durante as entrevistas. Aliás esse ordenado era à entrada e vigoraria salvo erro um ano, tendo-me logo sido comunicado qual o plano de carreira, que, se eu fosse provando a minha competência, seria sempre a subir. E falavam-me de termos que eu nunca antes tinha ouvido, conceitos que, todos eles, me eram estranhos. Aliás, tinha ideia de, vagamente, ouvir aquela terminologia lá em casa dos meus pais, mas eram assuntos a que eu nunca tinha prestado atenção (tanto mais que tinha saído para viver sozinha com 17 anos acabados de fazer e só ia a casa aos fins de semana e, logo aos 20, me casei).

Entrei então num novo mundo. A minha mãe quando sabia dos meus horários, das viagens que tinha que fazer, lamentava muitas vezes a minha opção, que os professores querendo ganhar mais também se fartavam de ganhar a dar explicações e que nunca tinham aquelas responsabilidades e stresses a que me via a mim sujeita. Mas não tinha sido a questão financeira que tinha sido determinante e também nunca lhe dei ouvidos mesmo em alturas complicadas em que me via um bocado aflita para conciliar uma vida profissional cada vez mais intensa com uma casa com duas crianças a quem sempre quis dedicar a mesma atenção que uma mãe dona de casa a tempo inteiro. Nem mesmo me arrependi quando me vi metida em processos de mudança que envolviam mudar de empresa, mudar de local de trabalho, guerras abertas com colegas que tinham visões antagónicas em relação às minhas ou coisas do género. E ela sempre dizendo que eu podia ter uma vida tão mais sossegada. Pois, talvez.

Até ao dia em que as coisas começaram a mudar para os professores. Com ataques permanentes por parte de um governo que parece odiá-los, o prestígio social quase se foi, o nível de vida presumo que não seja extraordinário, o stress deve ser mais do que muito, a estabilidade já não é a que se imaginava perene.

Por isso, sabemos lá nós o que é o melhor para nós. Olhem, acho que o melhor é ir aceitando fazer escolhas, fazê-las da forma o mais intuitiva possível, irmo-nos adaptando às circunstâncias, não querermos tudo porque o querer tudo geralmente é sinónimo de ter nada.

A semana passada  almocei com esse meu primeiro chefe. Depois dele já tive vários outros, mudei várias vezes de funções, de empresa, de local de trabalho. No entanto, para mim, ele continua a ser uma referência. Ao longo dos anos sempre mantive o respeito, admiração e até carinho por ele. Já tem setenta e tal anos, está reformado há uns largos anos e é ainda a pessoa querida, generosa, de espírito aberto que sempre foi. Nunca o vi movido por objectivos fátuos, ambições pessoais, nunca o vi desleal, mesquinho, fútil. Sempre me apoiou e me deu asas para voar. E eu voei mantendo a gratidão que sempre senti em relação a ele.

Um dia destes vou almoçar com dois outros colegas de outros tempos. Mantemo-nos amigos e quando nos encontramos é como se tivéssemos estado juntos na véspera. Eles às vezes referem o facto de a minha vida ter ido por outros caminhos, de os ter abandonado,  e eu também penso nos bons tempos que lá vivi. Mas tem acontecido tanta coisa entretanto e a empresa onde eles ainda estão também já mudou de mãos, já deu mil reviravoltas, e estabilidade e motivação é coisa que agora também não há por lá em grandes quantidades.

Por isso, não vale muito a pena olharmos para trás ou preocuparmo-nos demais com o que vem pela frente. Tudo muda. Sabemos lá o que teria sido melhor, sabemos lá o que nos espera.




A vida é uma sucessão de pequenos momentos e eu penso que é em cada um deles que deveremos querer sentir-nos de bem connosco e com os outros. Sobre o resto não sei nem quero saber.


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Benedict Cumberbatch lê Shakespeare: 'The Seven Ages of Man'





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As imagens referem-se a pinturas de René Magritte

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Relembro: mais abaixo falo de mulheres muito belas e de mulheres que lidam mal com o avançar do tempo, mulheres a quem a vida parece ter quase destruído. Isto a propósito de um caso que está a dar que falar e de um outro que está a despontar. 

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E salve J. Rentes de Carvalho!
O seu Tempo Contado ilumina o vasto espaço que nos une.
(... E olhe que à espera temos nós estado e à espera sempre estaremos.)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.


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4 comentários:

Anónimo disse...

A estrada não trilhada
Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia…

Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.

E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

#Tradução: Renato Suttana*

Robert Frost (1874 – 1963)



foi uma frase que vi no livro (manual) de economia do 1.º ano do curso de Economia (samuelson). E pensei, é este curso de merda que vais querer fazer


podemos sempre voltar à bifurcação e tomar o outro caminho

ou fazer um caminho e voltar atrás e fazer o outro

bob marley

Anónimo disse...

peço aos seus leitores para assinar esta petição - http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT75335


fico pasmado , com a quantidade de gente que existe neste mundo só para consumir oxigénio

por isso digo quando a natureza falha, devemos dar uma ajuda

bob marley

Anónimo disse...

enquanto vir isto acredito - https://www.youtube.com/watch?v=nFZ_2F4VFPk#t=11

bob marley

Anónimo disse...

Gostei de ler o seu percurso. Gosto de gente que arrisca. De gente que tem ambições (desde que não trucide os outros, naturalmente). Que aposta na diferença daquilo onde estava. Que vai para a frente. Que não se intimida com as coisas, o futuro, as propostas profissionais. O imobilismo de muitos faz-me confusão. Mas, é assim a vida, entre os que arriscam mudar, variar e os que preferem o conforto do que já conhecem. Conheço vários exemplos deste tipo e dos outros. Mantenha-se assim!
Boa noite! Vou passear os cães, já que a chuva "repousa". Antes que volte. E daqui a dias volto a mergulhar numas pequenas férias. Gozo-as ás pingas. Sabem melhor.
P.Rufino