Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, setembro 24, 2014

Passos Coelho enganou a Assembleia da República? Enganou o fisco? Foi consultor pago pela Tecnoforma e, apesar disso, recebeu um subsídio como se tivesse sido deputado em regime de exclusividade? Não sei e duvido que alguma coisa se prove. O que não é grave pois grave é outra coisa.


No post abaixo já falei do terceiro e último debate entre António Costa e António José Seguro, um debate que deixou a nu a natureza mesquinha e inesperadamente sinistra deste último. Para quem idealize um regime assente no respeito, na dignidade, em alguma elevação moral e estética, na liberdade e na democracia, terá ficado ainda mais claro quem deverá ser sumariamente afastado da liderança do Partido Socialista e, mesmo, do panorama político português.

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra e é igualmente séria. 

Refiro-me às suspeições que estão na ordem do dia relativas a Passos Coelho.






Ele há coisas que só não existem porque não se fala delas. No dia em que algum dos que sabe ache que tem mais a perder se não disser do que se falar, aí rebenta a bronca e as coisas passam a existir.

Pode também acontecer que as coisas venham a lume mas passem despercebidas, talvez as pessoas andem preocupadas com outras coisas. Mas é difícil esconder cadáveres no armário. Ao fim de algum tempo, o seu cheiro volta a ser notado.

Só que, ao falarmos nisto, estamos em piso escorregadio. Ninguém se arrisca a andar à vontade em piso assim.

Tantas coisas de que há tanta gente que as saiba e que, no entanto, é como se não existissem. Quem, quanto, quando. Mas umas já prescreveram, outras quem é que quer dar a cara e meter-se em trabalhos? Onde é que estão as provas? Na maior parte das vezes não há. Dinheiro que é pago por fora, que não deixa rasto, como se vai depois atrás dele? Não vai. Dificilmente vai.  Quem denuncia ainda acaba metido em sarilhos, acusado de difamação. Manda a prudência que, quem sabe, pense duas ou três ou cem vezes antes de falar.

Se uma empresa pagar luvas a alguém, nos registos da empresa isso aparecerá como despesas confidenciais ou outras rubricas, ofertas a clientes, despesas comerciais, despesas de marketing, deslocações, etc, e não há nada escrito que relacione o gasto com o seu destinatário. Ou outro caso, não luvas mas alguém receber por fora, fuga ao fisco: a coisa pode ser feita através da apresentação de despesas que são contabilizadas como despesas variadas da empresa e nada as relacionar fiscalmente com quem as apresenta e com quem recebe o respectivo pagamento. E estou a falar dos casos mais decentes. 
Mas quantas empresas não terão ainda o célebre 'saco azul', dinheiro em notas num cofre, dinheiro que entra e sai sem registo contabilístico e fiscal? 
Em qualquer dos casos, contudo, ninguém conseguirá provar o que quer que seja (a menos que alguém, logo na altura em que as coisas ocorrem, faça gravações, obtenha fotocópias de algum recibo manual - coisa que geralmente também não haverá -, obtenha prova de depósitos bancários em numerário sem explicação natural. Tudo coisas improváveis, especialmente, quinze anos depois.


No caso vertente - em que o próprio dono da Tecnoforma diz, preto no branco, que houve pagamentos a Passos Coelho mas não diz de que forma - como se pode chegar a uma conclusão inequívoca? Só através de testemunhos, e aí será palavra contra palavra. 


Não conheço o caso pelo que, o que eu disser, apenas o posso dizer a título geral, em abstracto, referindo-me a quaisquer pessoas em iguais circunstâncias.

Se uma pessoa não estava ‘registada’ na empresa como funcionária ou avençada e, por exemplo, recebesse 'por fora' (isto é, por exemplo, como pagamento de despesas, sem ser detectado fiscalmente), como prová-lo agora, tantos anos depois? Podem recolher-se testemunhos - mas provas factuais, tantos anos depois, já não deve haver, aliás deve ser quase impossível que haja.

O que nós, espectadores da situação, detectamos são contradições. E contradições que incomodam. Se Passos Coelho estava como deputado em exclusividade, não poderia ter recebido dinheiro da Tecnoforma.  Se recebeu, não deveria ter pedido a verba de reintegração (dinheiros do estado, claro) alegando que estava em exclusividade. E, se recebeu, deveria ter declarado para efeito de impostos. Ou seja, dá ideia de que, de uma forma ou de outra, prevaricou. Pode dizer-se que naqueles meios, então no PSD daqueles anos, coisas dessas eram mato. Pode a esta distância falar-se em escrúpulos? Não diz o senhor de Tecnoforma que ele, Passos Coelho, conseguia o que queria, que se mexia bem? Entre o Relvas, o Marques Mendes, o Ângelo Correia, o Isaltino, e outros do género, a coisa estava bem oleada e o Pedro estava lá mesmo para isso. Receber ou não receber dinheiro da Teconforma era pormenor no meio de todas aquelas movimentações, daqueles esquemas.


Transcrevo: O projecto precisava também da aprovação de Isaltino, era o presidente da Câmara de Oeiras. O Pedro desbloqueou isso, fez o papel que se esperava dele.

Uns assim, outros assado, todos se iam orientando – e bem. A chatice é que este menino, o Pedro, é o mesmo que, ordenado primeiro-ministro, enche o peito de ar e vem clamar moralidade, dizendo que os portugueses vivem acima das suas possibilidades, que têm que empobrecer, que têm que deixar de ser piegas. E que, à pala de toda essa moscambilhada moralidade, deu cabo do País.

Estes são os meninos que ainda por aí andam, uns no governo, outros nas televisões, a pregarem contra os pobres desgraçados reformados que nas bocas deles é como se vivessem como uns lordes, contra os desempregados que deveriam era sair da sua zona de conforto e irem morrer longe, em vez de quererem a esmola de uns trocos para sobreviver.

Estes são os meninos que acumulam o lugar de deputado com toda a espécie de movimentações, uns a trabalharem em bancos, outros em escritórios de advogados, outros em administrações ou conselhos fiscais de empresas, pagos com senhas de presença ou prebendas não declaradas, que usam a Assembleia da República como uma plataforma onde se estabelecem contactos e se ajeitam leis para deixarem brechas interpretativas para poderem dar para isto e para o resto.

Passos Coelho diz agora, peito feito como sempre, que vai pedir à PGR que investigue a sua situação na altura e que, consoante as conclusões, saberá retirar consequências e ilações. Pode dizê-lo tranquilo. Ele sabe tão bem quanto eu, que, tantos anos depois, será impossível provar factualmente, documentadamente, se fez ou não o que não devia.

Leio o que o dono da Tecnoforma diz e penso que percebo o que ele quer dizer:

Estou convencido de que ele recebia qualquer coisa, mas não posso falar em valores porque não posso provar nada. Agora se era para pagar deslocações, telefonemas ou coisas parecidas, não sei.

Ou seja, pode ter sido aquilo de que falei: facturas de deslocações (dele ou da família), de viagens, de restaurantes, de gasolina, de telefones, de compras diversas, até perfazerem os montantes acordados, Ou seja, se for isso, impossíveis de rastrear como sendo dele já que são registadas na contabilidade de forma despersonalizada. Além disso, leio que o contabilista da Tecnoforma dessa altura já morreu. Impossível de obter provas do que quer que seja. Pedro Passos Coelho sabe disso. Esteja ou não inocente, ele sabe que nada se provará. Por isso, está à vontade.

Contudo, para mim - e por isso já aqui disso falei antes pelo menos duas vezes e hoje volto a falar - o que mais me incomoda é o seu papel como facilitador privado, abrindo portas, agilizando processos, oleando circuitos de decisão, obtendo negócios. Estava como deputado (ao que ele invocou para receber uns milhares para 'reintegração', em regime de exclusividade) e, conforme noticia a Sábado e agora todos os jornais, e segundo diz o dono da Tecnoforma, ao mesmo tempo a arranjar negócios para uma empresa que vivia de verbas públicas arranjadas por um amigo, por amigos do partido.

Repito o que já transcrevi no outro dia:

Em entrevista à Revista Sábado, Fernando Madeira diz que o objectivo de Passos Coelho em rodear-se de personalidades influentes era "abrir ou facilitar a vinda de projectos para a ONG no âmbito da formação profissional e dos recursos humanos, e que depois esses projectos pudessem ter a participação da Tecnoforma".
O ex-sócio maioritário da Tecnoforma refere que o actual primeiro-ministro chamou para fazer parte dos órgãos sociais do Centro Português para a Cooperação - uma organização não-governamental (ONG) financiada pela Tecnoforma - "pessoas com influência", como o então líder parlamentar do PSD, Luís Marques Mendes, e os também social-democratas Ângelo Correia e Vasco Rato (nomeado recentemente pelo Governo para presidir à Fundação Luso-Americana). 
 O empresário garante que Passo Coelho sabia que a ONG era criada com esse intuito e conta pormenores de um encontro com o então comissário europeu João de Deus Pinheiro e de um negócio fechado com Isaltino Morais.
O ex-dono da Tecnoforma, antigo patrão de Passos Coelho, admite que criou uma ONG com o objectivo de candidatar projectos a financiamento comunitário, que depois teriam a participação da sua empresa. Passos abria "todas" as portas para estes negócios, garantiu à Sábado
Grave é termos um deputado como era Passos Coelho que, ao mesmo tempo que era deputado, a ser verdade o que o ex-patrão disse, era pago por essa empresa porque abria "todas" as portas para os negócios (até parece que estamos a ouvir falar de uma outra face oculta), grave é haver deputados que, em vez de estarem a representar quem os elegeu, estão ao serviço de empresas que lhe pagam para se movimentarem entre gente influente que desbloqueia processos, arranja financiamentos, gente instalada em lugares públicos (autarquias, comissão europeia, etc), uma promiscuidade fétida, gente que, mais tarde, vem bater com a mão no peito enquanto insulta a honestidade e hombridade dos outros. 

Isso é que é grave.

Grave é termos a comunicação social cheia de influentes comentadores que sabem demais e que se fazem passar por isentos e impolutos, manipulando a opinião pública. 

Grave é sermos um povo de gente trabalhadora e honrada que é governada por um grupo de gente desclassificada.

Grave é haver tanta gente desempregada e emigrada, tantos velhos na miséria, e termos um primeiro-ministro que despreza o povo que governa, que despreza o saber, que se refere ao sistema de ensino como uma salsicha educativa, um primeiro ministro que nos envergonha de todas as maneiras, que nos prejudica, que compromete o nosso futuro. Um primeiro ministro que, não fossem nefastas as consequências dos seus actos, seria uma anedota. Isso é que é grave.


Mas tomara que seja por muito pouco tempo e que, não tarde, Passos Coelho se veja forçado a sair da sua zona de conforto e que vá para longe, para onde a gente se possa rapidamente esquecer dele,


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Relembro: já aqui a seguir poderão ver fotografias e a minha opinião sobre o último debate entre os Antónios (que, apesar de irem vestidos de igual, são diferentes e imiscíveis como a água e o azeite), um debate com uma inusitada crispação. E com uma revelação: Seguro é ainda pior do que pensávamos.

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As imagens foram obtidas na internet e desconheço a sua proveniência original excepto da última, que provém do blogue 77 Colinas.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira.


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4 comentários:

Anónimo disse...

A cor ou fotografia que ilustra o blogue, e fica por baixo do texto, dificulta, e muito, a leitura. Uma pena. Fiquei com a ideia que o seu texto apresenta um bom raciocínio, está bem escrito e fundamentado. Mas tive que desistir a meio.

Anónimo disse...

Aplaudo e subscrevo tudo o que aqui, sublimemente, escreveu. Nem mais!
Ou seja, o tráfico de influências no seu pior! A total ausência do que consiste a função e responsabilidade de se ser Deputao. Por arrasto, a descredibilidade do nosso sistema político, sobretudo do sistema parlamentar existente. Só há uma solução para isto: regime de exclusividade total para todos os Deputados. E, a acompanhar esta medida, um período de “nojo”(até 8anos, p.ex) para qualquer ex-governante, para que, uma vez fora do executivo, não possa vir a exercer actividades em empresas privadas cujas acções eram tuteladas, ou supervisionadas, por si, enquanto membro do governo.
De resto, no que respeita ao nosso Láparo, como lhe chama, se houvesse decência, que ele não possui, teria já apresentado a sua demissão ao PR. Por muito menos do que isto, António Vitorino demitiu-se e bem. É uma questão de ética política. Um PM não pode estar sob suspeita, sobretudo desta gravidade (não importa se os efeitos penais, ou fiscais, eventuais já caducaram), pois tal diminui a sua autoridade, a confiança na economia e prestígio internacional do país, com tudo o que isso implica para o país (e contribuintes).
Magnífica análise crítica. “Com sua licença”, vou repassar para um sem número de amigos e conhecidos, por e-mail.
P.Rufino

FIRME disse...

DESVIAR FUNDOS E NÃO DEIXAR RASTO:Eu, o láparo,o bufo de belém mais o doc relvas,desciamos ambos os três...depois duma almoçarada a rua de S. BENTO,EU o láparo,deixei-os seguir até que deixaram de me ver...FOI 1 GOZO !Eu subi a escadaria entrei na nossa assembleia,tomei o meu lugar,arrotei 2 vezes...e disse ;já está !Amigos ,daí em diante,era almoços,jantares,sem gastar um chavo...Até hoje! Agora já não andamos,"ambos" os três !É MUITO ARRISCADO andam os seguranças sempre comigo...O preço em almoços? nunca soube,a luis Albuquerque,que trate do assunto!Com sorte ainda lhe sai 1 AUDI-8 no sorteio das fraturas,perdão:faturas!!!

Humberto Barbosa disse...

Nem mais !!!! Ai se fosse o Sócrates, (um "menino de coro" comparado com esta gente) não se falaria doutra na Comunicação Social.
Tudo de bom
HB