Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, agosto 05, 2014

"agradecimento pelo carinho recebido"







Estou a começar hoje aqui mais tarde do que o costume. Ainda estou em período de trabalho e cheia dele, as férias ainda distam, e depois, quando cheguei a casa, ainda houve a caminhada diária, e depois jantar e arrumar a cozinha e, ainda, roupa a lavar e a estender, e arrumar roupas e demais afazeres domésticos.

Para além disto, tenho recebido um número de mails que me deixa admirada e aos quais vou tentando responder o mais brevemente possível para que não me tomem por mal educada ou mal agradecida mas que, apesar de não conseguir pôr as respostas em dia, me ocupam um tempo que me escasseia.

Tinha vontade de vos mostrar o bolo dos bombeiros do bebé que, imagine-se, já fez 2 anos mas não sei se tenho tempo de lá chegar. Aliás, de há um mês e picos a esta parte, já lá vão 6 aniversários no núcleo mais chegado da família e mais 3 estão na calha para os próximos dias. Entre compra de presentes, festas de anos e tudo o resto, incluindo este turno da noite que também me ocupa bastante, é toda uma azáfama que me ocupa e que, tenho que confessar, me deixa um bocado cansada. Felizmente tenho a sorte de, mal me deito, adormecer e ter um sono repousante; mas, não obstante, estou mesmo a precisar de férias. O que me vale é que agora até não está muito calor, senão andaria mais morta que viva.

Hoje ainda quero ver se consigo deixar mais uns apontamentos a propósito do BES e de toda a nebulosa que cerca o assunto (cada vez mais nebuloso à medida que mais pormenores vão chegando ao nosso conhecimento - PT, Goldman Sachs, etc) mas, ao entrar aqui no blogue, fui ver as estatísticas na parte das palavras de entrada pois, a partir das palavras que as pessoas escrevem nos motores de busca e as trazem até aqui, parece que me sinto mais próxima de quem me lê - e essa proximidade é-me muito necessária.
Um texto que escrevi (sobre o Expresso e o BES) teve já mais de 21.000 visitas e, a propósito do que tenho escrito sobre o banco, tenho recebido inúmeros mails, inúmeros, pedindo conselhos, dando opiniões, carreando informações. Uma coisa surpreendente, isto.

Contudo, não são esses mails que mais me impressionam apesar do número. O que mais me comove é quando abro o correio e tenho um mail de alguém que nunca comentou no blogue e que me conta a sua vida e me diz que me acompanha há muito e que tenho sido uma companhia preciosa, que tenho sido uma ajuda em momentos de solidão ou de angústia e que, ao ler o que aqui escrevo, é quase como se estivesse a receber uma visita amiga com quem pode conversar. Nessas alturas penso que quem espera ler umas palavras de conforto ou as palavras de alguém que fala do seu dia a dia ou de assuntos correntes, deve ficar desiludido quando me ponho a falar de política ou de assuntos económicos. Muitas vezes, até a pensar nisso, tento equilibrar os assuntos, tentando compensar a aridez da escrita sobre assuntos mais maçadores com alguns apontamentos diversos sobre quaisquer outros temas.

Também já aqui o referi: os motores de busca - e o google que é o que uso mais - têm batalhões de cientistas, muitos deles especializados em neurociências, filosofia, psicologia, física, (para além das informáticas, claro) para aperfeiçoarem o algoritmo que, a partir do que as pessoas procuram, coloca por ordem aquilo que teoricamente melhor responde ao que é procurado, dispondo os muitos locais onde a resposta pode estar contida.
A ordenação do que aparece não é aleatória, obedece a critérios de que nem fazemos ideia. Por isso, por vezes admiro-me como é que, tendo alguém escrito o que escreveu, veio parar ao 'Um Jeito Manso'. Mas depois penso que o algoritmo, que segue a lógica da inteligência artificial, lá deve saber e foco-me noutro aspecto: tendo a pessoa chegado até aqui, interrogo-me sobre se o que encontrou terá correspondido às suas expectativas.

Vem isto a propósito de uma expressão que hoje aqui me aparece nas estatísticas: "agradecimento pelo carinho recebido".

Alguém escreveu isto e veio ter até mim e isso deixou-me um bocado impressionada. Provavelmente essa pessoa não encontrou o que procurava e foi-se embora. Mas eu gostava que voltasse para que soubesse que fui sensível a essas palavras e que gostava de saber escrever palavras de conforto.

Pergunto-me: quem escreve aquilo, espera encontrar o quê? Palavras de carinho? Palavras de compreensão? Palavras para si próprio ou para usar junto de outras pessoas?

Lembrei-me de uma revista que folheei enquanto estava na caixa do supermercado: Judite de Sousa vendeu a casa, Judite de Sousa luta para reagir à morte do filho, Judite de Sousa passa muito tempo no computador


Penso muitas vezes nela. Penso muitas vezes no vazio que deve existir agora na vida daquela mulher. Numa outra revista, Pedro Bessa, o pai do André, diz que sente, sobretudo, muitas saudades do filho. As revistas vão tentando encher as capas com o sorriso sereno do pai ou com o rosto devastado de Judite de Sousa ou com notícias que não são notícias (porque a dor de uma mãe que perde um filho não é notícia para os outros, deve ser uma dor demasiado íntima para poder ser partilhada). Mas que sabemos nós do que se passa no coração daquela mulher que nos entrava em casa quase todos os dias, e que sorria e que estava confiante no seu futuro e, sobretudo, no futuro do seu filho?


Que sentido encontrará ela no que se passou? Não pode encontrar sentido porque não há. Que sentido pode haver no desaparecimento de um filho? Nenhum. Por muitas razões que se procurem para o justificar, nunca passarão de uma ténue atenuante.

Mas o tempo trará a doçura das recordações, e nascerão outros interesses, e, aos poucos, o corpo habituar-se-á à dor da amputação. Estou em crer que nunca desaparecerá o vazio nem a saudade nem a dor pela injustiça. Mas o coração e a cabeça saberão viver com isso e a vida continuará.

Porque a vida continua, saberá Judite de Sousa que os seus espectadores sentem a sua falta e que a acompanham no luto que ela está  a fazer? Acho que sabe. 


Eu, que tantas vezes aqui me diverti com as suas botas ou com a sua pintura exuberante ou com as interjeições no trato com o Dr. Medina, penso tanto nela. Nenhuma mãe merece tamanha dor. E ela, que tantas vezes aparecia em público amparada no seu filho, a quem tanto queria e de quem tanto precisava, ainda deve sentir mais a sua ausência. Tem uma vida exposta aos olhos alheios e isso deve torná-la ainda mais vulnerável. Em que braço se apoiará ela quando tiver que aparecer em público? As fotografias mostram o seu ar ausente, o seu rosto sem maquilhagem, e é uma mulher nua, emoções e tristeza à flor da pele. Como poderemos nós, a quem ela tanto deu ao longo de tantos anos, ajudá-la a superar a sua dor? E como poderemos agradecer-lhe o carinho que dela recebemos? E como poderemos fazer que sinta o carinho que sentimos por ela?

Escrevo a pensar nela mas há outras mães que perderam também os filhos. E há mulheres que perderam os companheiros ou os irmãos, ou os que perderam um pai ou uma mãe.

Pouco tempo depois de eu começar a trabalhar, tinha uns vinte e poucos anos, o meu chefe da altura perdeu a mãe. Muitos colegas foram ao enterro mas eu não fui. Ainda mal o conhecia e não tenho à vontade nestas situações. Dois ou três dias depois, sem que nada o fizesse esperar, morreu-lhe o pai. Toda a gente ficou muito impressionada. Eu também fiquei mas, uma vez mais, não fui capaz de lá ir.

Quando ele regressou ao trabalho, fiquei numa aflição. Deveria lá ir dizer qualquer coisa mas não sabia o quê. Diziam-me: 'Dizes: os meus sentimentos'. Mas eu achava que dizer tamanha banalidade poderia parecer um insulto perante a dor de perder, de seguida, mãe e pai. Agora...? Que insulto...?, sossegavam-me os colegas, É o que toda a gente diz.

Fiquei uma manhã inteira a evitá-lo, num nervosismo. Depois enchi-me de coragem. Fui, corredor fora, sem saber o que iria dizer; talvez fosse a pensar que acabaria mesmo por dizer 'os meus sentimentos'. Mas, quando entrei no gabinete dele, para minha minha surpresa, o que me saíu foi: Os seus pais deviam ter muito orgulho em si, porque já é director. Ele, homem de quarenta e tal anos, ficou admirado, não estava nada à espera duma coisa daquelas, ficou calado a olhar para mim, depois vi que ficou comovido e eu, comovida, em frente dele. Depois ele disse, Acho que sim, e sorriu ao de leve, talvez um bocado espantado ou talvez a perceber a minha atrapalhação. E eu vim-me embora. Durante todos estes anos  tenho pensado que foi uma coisa ridícula de dizer. Mas agora já acho que não há palavras certas, que aquelas não foram mais desadequadas do que quaisquer outras. Todas as palavras são inúteis, acho que o melhor é nem dizer nada. Mas não sei.

Uma pessoa que escreve 'agradecimento pelo carinho recebido' espera encontrar que palavras? Tão difícil adivinhar.

Claro que também pode ser o contrário: alguém que esteja feliz, que tenha estado bem e que tenha recebido cumprimentos, felicitações, e que queira agradecer, não sabendo como.

Se for isso, então é uma pessoa feliz, duplamente feliz, alguém que se vê rodeado de carinho e que quer descobrir palavras apropriadas.

Nesse caso, bastará apenas um sorriso, um obrigada.

A vida é um dom incerto, breve, pode ser traiçoeira.

Por isso, enquanto dura, que seja vivida com alegria e em plenitude.

E, quando a vida dos que amamos se esgota, que saibamos nós honrar a sua memória. Talvez isso baste, viver como aquele que se foi gostaria de nos ver.

Da minha parte, meus Caros Leitores, resta-me apenas esperar que, quem aqui chegue buscando palavras de carinho ou de agradecimento pelo carinho recebido, encontre sempre palavras com que, de alguma forma, se sinta confortado. Não sei dizer abraço de forma a que, quem lê, se sinta abraçado mas vou continuar a tentar. Prometo.





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As imagens, deliberadamente envolvendo crianças porque a recordação de crianças é algo que vive sempre feliz em nós (mesmo quando, depois, um pano de tristeza apaga a alegria de viver), são fotografias de Elena Shumilova, uma jovem mulher russa que fotografa os filhos de uma forma quase mágica.


A música é 'Moonlight' Sonata: I. Adagio sostenuto' de Beethoven numa interpretação de HJ Lim.

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Acho que não vou ser capaz de escrever mais. Mas ainda vou tentar.

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Tentei. Não dá.
Não consigo agora por-me a falar nesse ninho de vespas que é a realidade que envolve o BES.

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Desejo-vos, meus Queridos Leitores, uma boa terça-feira.


8 comentários:

Anónimo disse...

Deixo-lhe um site que me pareceu bastante interessante para percebermos esta engrenagem toda

Abraço
GG

http://www.osburgueses.net/consulta/index.html

bob marley disse...

AFINAL AS COISAS ANDAM E BEM QUANDO SE QUER - http://dre.pt/pdfgratis/2014/08/14801.pdf

FIRME disse...

Viver,é tudo isto que escreveu e li com muita (quase) devoção!Muito tocará afinal a todos nós!Como as plantas,nascemos crescemos e morremos!Pena que a de alguns,quase parece um castigo,dum PECADO que (não) cometemos!Afinal,todos iremos ter um fim...Restará o que cada um de nós conseguir incutir na memória dos outros!O que aqui escreve,ficará de certeza na memória,dos que a descobrem todos os dias!Tiveste sorte...diz o meu espelho,bom!Agora também há o espelho mau!

Vitor disse...

Lindo post, estimada UJM, LINDO !
Melhores Cumprimentos
Vitor

Concha disse...

Olá UJM!
Continuo atenta ao que escreve sobre o Bes e companhia e aprendo os meandros ocultos desta trapalhada de verdadeiros "anjos caídos do céu".
Já percebi que não escreve para se dizer e isso agrada-me.
Revi-me na preocupação de o que dizer a quem perde alguém muito próximo e desde que me aconteceu desejarem-me os sentimentos e aquelas palavras me soarem completamente fora de propósito,que agora o que faço é dar um abraço ou o cumprimento mais adequado à ligação que tenho com a pessoa e procurar ser o mais sincera que me for possível nessa manifestação de querer dizer "estou contigo no que precisares".Quanto à Judite de Sousa, não imagino o que seja perder um filho,mas se fosse próxima dela aconselharia a que voltasse às suas rotinas o mais breve possível.Gracias a si e à vida por tudo o que me tem dado.

Anónimo disse...

Cara UJM não venho aqui, todos os dias, à procura de nada em especial mas com a curiosidade de saber o que lhe apeteceu escrever nesse dia. É tão difícil encontrar alguém que queira e saiba expor aquilo que sente como a UJM, mostrar os seus quadros, as suas músicas, os seus filmes, aquilo que lhe vai na alma e o que pensa sobre o que nos vai acontecendo neste mundo em rebuliço. E que sorte ser alguém com quem estamos de acordo social e politicamente.
Encontrei-a, por acaso, num comentário que fez no blogue "duas ou três coisas" e desde então não deixei de aqui vir diariamente e espero ter a sorte de a acompanhar por muitos anos...
Obrigada!
Abraço amigo,
Maria Luísa

Humberto Barbosa disse...

Caríssima UJM
Há momentos em que não sei o que dizer. Somente um muito obrigado por tudo o que partilha e por tudo o que a sua escrita me faz ver com mais clareza. Mais uma vez muito muito obrigado.
Desejo-lhe tudo de bom para si e para os que ama e a amam.
HB

Um Jeito Manso disse...

A Todos,

Escasseando-me o tempo, não quero deixar de vos agradecer a gentileza das palavras. Não pensem que, por não responder a cada um de vós, as vossas palavras me tocam menos. A todos agradeço os vídeos que aqui deixam, as referências e o carinho.

A todos desejo um belo dia!


Obrigada.