Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, julho 21, 2014

"Sobre uma carta de Rosa Luxemburgo", uma crónica escrita nessa 'coisa que são as nuvens' por José Tolentino Mendonça no Expresso - ou, neste mundo que não parece nada maravilhoso, que coisa é afinal a felicidade? e o que são os outros em nós?




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Não são de agora os conflitos territoriais que têm por base por base - ou pretexto - questões religiosas. 

Um dos conflitos recorrentes refere-se a um dos mais activos focos de beligerância da actualidade.

Israel, Gaza, mísseis, acordos, cessar-fogos, quebra de acordos, mortos, vinganças, massacres - tudo isso faz parte do nosso quotidiano, pelo menos do quotidiano que apreendemos através da comunicação social.


De vez em quando há uma acalmia mas, vem sempre a provar-se - uma e outra e outra vez - não há um chão de paz que permita que aquela gente se respeite, respeite a vida, preze o futuro.


A violência vai então numa escalada, a sofisticação militar de Israel é gélida e eficaz, a revolta palestiniana cresce com as crianças, a humilhação e a derrota clamam por mais sangue.


O que se tem vindo a passar agora é terrível. Muitos mortos, uma verdadeira carnificina, gente em fuga coberta de sangue, crianças sacrificadas. Quando isto vai neste crescendo, a perplexidade invade-me e interrogo-me, sempre, uma e outra e outra vez, sobre o sentido de tudo isto. Quando a vida perde o valor, luta-se por quê?

Mas não é só ali.

Na Síria o drama continua. Na Ucrânia é o que é, foi agora o que foi e vamos ver no que vai dar

E não falo do Iraque ou de todos os outros países em que a população vive o sobressalto da guerra, da tremenda insegurança, das dificuldades que não se julgariam possíveis em pleno século XXI. Todos os dias, uma e outra e outra vez.

E a fome, as torturas, os saques, as ditaduras. Ou as cheias, a terra a desaparecer sob as águas, e epidemias, e fome. Pudéssemos nós fugir deste mundo que parece que ensandeceu.

E às grandes tragédias somam-se os dramas pessoais, as doenças que colocam o final da vida bem à vista, a dor individual, as irrecuperáveis perdas. Quem atravessa o sofrimento físico, ou assiste à decrepitude do seu corpo ou do corpo de alguém que ama, ou quem perdeu um filho e luta por encontrar um sentido para essa amputação ou para encontrar forças para continuar de pé, centra em si todas as dores do mundo - e todos os outros deverão compreendê-lo e dar-lhe a mão, ajudar no seu amparo. Que ninguém ouse pensar que quem sofre é egoísta por ignorar a guerra, a fome ou a dor alheia. São planos diferentes e todos devem ser respeitados e tidos em atenção.

Face ao que enunciei, é difícil afirmar que este é um mundo maravilhoso.

Mas é.

O Padre Tolentino Mendonça, na sua crónica semanal no Expresso, enquadrada na sua rubrica 'que coisa são as nuvens' oferece aos seus leitores um texto luminoso. Chama-lhe: Sobre uma carta de Rosa Luxemburgo.


Transcrevo uma parte.


Um dos textos mais comovedores que conheço é uma carta de Rosa Luxemburgo escrita pelo Natal a uma amiga, a partir da prisão feminina de Breslavia, poucos meses antes da sua execução. Chegava ao fim esse paradoxal ano de 1917, e poucos arriscavam dizer com segurança para onde era arrastado o mundo de então.

Na verdade, o que faz da sua carta, para citar as palavras de Karl Kraus um 'documento de humanidade e poesia' que deveria ser ensinado às' gerações futuras', são as duas partes seguintes.

Tratava-se do terceiro Natal que a filósofa e sindicalista passava na prisão. Ela procura para si uma árvore de Natal, mas tudo o que que encontra é um arbusto mísero e despojado, que ainda assim transportou para a cela. E isso fê-la interrogar também a 'ébria alegria' que mantinha no meio daquele inferno, essa espécie irredutível de confiança que nela persistia apesar do desconforto e da desolação. E escreve nessa noite:

"Estou aqui estendida, sozinha e em silêncio, enrolada no múltiplo e negro lençol de obscuridade desta prisão em pleno inverno, e contudo o meu coração pulsa de uma alegria interior desconhecida e incompreensível, como se caminhasse sob um sol radioso num prado em flor...'. 


Em momentos assim penso em vós e em quanto me agradaria transmitir-vos a chave deste encantamento, para poderdes ver sempre, e em todas as situações, aquilo que na vida é belo e alegre'.


E quando mais profundamente se pergunta porquê, declara isto: 'Não tenho razão para esta injustificável alegria, nem sei de outro segredo senão a própria vida'.



Mas José Tolentino Mendonça continua ainda:

A última parte da carta não é menos inesquecível. Rosa Luxemburgo assiste à chegada de carroças de mantimentos arrastadas por búfalos capturados na Roménia como um troféu. E, pela primeira vez, repara na dor indizível dos animais. É um choque e uma revelação. Quando se atrave a pedir 'um pouco de compaixão' para as criaturas extenuadas, o cocheiro responde-lhe com violência: 'Nem para os homens há compaixão'. E, à frente dela, castiga mais duramente os búfalos.

O olhar de Rosa Luxemburgo fixa-se, então, no de um deles. O animal sangrava, mas permanecia imóvel, com os olhos mais mansos que ela alguma vez conhecera.

E nesses olhos ela identificou um desamparo semelhante ao de uma criança que tivesse chorado sem que fosse ouvida por longo tempo.

'Era de facto a expressão de uma criança punida duramente sem perceber nada do que lhe está a acontecer, e sem conseguir subtrair-se ao tormento de uma violência brutal. Eu estava diante dele e o animal olhava-me. Soltaram-se em mim lágrimas que eram, afinal, as suas. Pelo irmão mais amado não teria chorado mais dolorosamente do que ali chorei, combalida, sem conseguir afastar-me daquele sofrimento indizível'.

Na empatia que ligava agora aquela mulher a um anónimo animal ferido nascia uma nova forma de resistência à brutalidade e à barbárie. Naquela 'grandiosa guerra que tinha diante dos seus olhos', Rosa Luxemburgo compreendia que uma comunhão entre os seres humanos e as outras criaturas é não apenas possível, mas urgente e necessária.




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A música é What a wonderful World interpretada pelo African Children's Chorus - Playing for Change.

As imagens do cenário de guerra referem-se aos conflitos mais recentes em que tantos inocentes estão a cair sob o fogo inclemente de Israel.



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5 comentários:

bob marley disse...

esses povos não têm capacidade de reflexão como nós


por exemplo, a seguir a eleições (quaisquer), vemos todos os videntes de serviço a dizer com tom sério, que temos que fazer uma reflexão sobre a abstenção e votos brancos

e de repente

" era um privilégio para o país ter esse homem (antónio guterres) como presidente - antónio costa

" se um dever maior me chamar" - pedro santana lopes

fizeram a reflexão e nem dei por isso

eu até podia dizer que são frases patetas, mas fico na dúvida de quem é o verdadeiro pateta.

ao contrário de si , admiro esses povos, independentemente das razões, mas são normais, uma acção leva sempre a uma reacção

Anónimo disse...

Este texto lembrou-me um episódio do Dostoievski em que uma das personagens estava com uma pena desgraçada de um cavalo que levava no lombo com o chicote do cocheiro e, de repente, um homem põe-se à frente da carroça e leva também com o chicote para se desviar do caminho. Talvez seja d'O idiota, não tenho a certeza. E agora que penso nisso, acho que o episódio em que o protagonista tem pena de um animal era um sonho e o da chicotada no homem que se pôs no caminho do cocheiro nada tem a ver com essa primeira cena. Às vezes, os episódios dos livros confundem-se na minha cabeça, por causa das associações e considerações que vou fazendo.
Há uma carta de Napoleão a Josefina em que ele descreve brevemente o cenário de guerra que tem à frente dos seus olhos. Os franceses tinham ganhado uma batalha junto a uma cidade e ela tinha ficado toda a arder. O que ele via era apenas destruição. Fala com um desalento e uma tristeza enormes. A mim aquele cenário impressionava-me, tinha uma certa grandeza, mas para o Napoleão, que já tinha estado em tantas batalhas, só lhe causava sofrimento.
Não creio que nada disto tenha a ver com felicidade. Com a sua busca e a incapacidade de a encontrar e conservar. Com as coisas feias e más que nos impedem de ser felizes. Essa ideia da "pursuit of happiness" da Constituição americana tomou conta do nosso ideário, é fruto do individualismo, confundido com egoísmo, da nossa era, mas não comanda as nossas vidas. Não faço as coisas porque quero ser feliz, faço-as porque quero algo em concreto, num determinado momento, algo que não me fará necessariamente sentir feliz, mas outra coisa qualquer. Quando um samurai japonês era ofendido, ia ter com o seu ofensor e suicidava-se à frente dele, assim projetando nele a vergonha de ser o responsável pela sua morte. A honra estava acima de qualquer outro valor (felicidade, família, amor, etc.). Era uma atitude vingativa. Acho mais louvável dar a outra face, como ensina o Cristianismo. Mas era preciso uma coragem desgraçada para fazer uma coisa dessas, ao passo que muitas vezes se dá a outra face apenas por cobardia. Nenhuma das duas atitudes tem a ver com felicidade. Tem apenas a ver com aquilo que sentimos pelo outro. E a felicidade não é nenhum sentimento.
JV

Anónimo disse...

Com o 25 de Abril deu-se uma revolução no que respeitou á publicação de livros, designadamente de autores marxistas e tudo o que de algum modo estava ligado ás mais diversas correntes marxistas, entre as quais o pensamento de Rosa Luxemburg e de Karl Liebknecht (que também li). Comprei e li muito do que se publicava nessa época e imediatamente a seguir. A par disso, como assinava a “New Left Review”, ía acompanhando certos debates escritos sobre diversos pensamentos e abordagens políticas, que ali se publicava, numa perspectiva marxista, mas não Leninista. Nunca aderi ás correntes leninistas, muito mais conservadoras, menos inovadoras, mais rígidas e que continham dentro de si o germe do autoritarismo, que deu no que deu, como sabemos. Mesmo no EUA havia então uma corrente marxista activa e intelectualmente muito interessante, com destaque para Paul Sweezy, Paul Baran, Leo Huberman e aquilo que se escrevia ali na Monthly Review. Na Europa então havia um mar de intelectuais marxistas de excepção, embora de cariz diferente, mais, ou menos, radicais, cujas vertentes íam da análise política, á económica, ou ambas, á sociológica, cultural, etc. Originários de vários países europeus, como a França, Itália, Reino Unido, Alemanha, Grécia,Espanha, Hungria, e por cá, etc. Castoriades, Georg Lukacs, Henri Lefebre, Andre Granou, Nicos Poulantzas, Herbert Marcuse, Paul Mattick, Andres Nin, Gramsci, Andre Gunder Frank, Samir Amin, Roger Garaudy, Maurice Dobb, Charles Bettelheim, Ralph Miliband e muitos mais, embora estes nomes sejam os que me ficaram mais na memória. Li de todos eles, textos ou livros que ainda hoje conservo (não deito livros – que eu compro – fora) e que contribuiram para a minha formação ideológica, embora tenha sabido lê-los com relativa distância, absorver o que deles mais me interessou e desenvolver o meu próprio critério político. Livros que deixaram semente, sem dúvida, de que destaco o facto de olhar para qualquer projecto político e ir procurar nele, como primeiro e mais importante vetor, as prioridades de carácter social. Talvez por isso, á custa daquelas leituras, de gente intelectualmente brilhante, de esquerda é certo, nunca aderi a um projecto de direita por nele encontrar uma postura, ou opção, que acaba sempre por beneficiar os mais fortes e priviligiados, sacrificando os mais desfavorecidos. E no entanto, nasci no seio de uma família burguesa abastada. É curioso como hoje, pelo menos é a impressão que retenho (não sei se correcta ou não), já não existe uma riqueza tão variada de intectuais de esquerda, como há 30 e tal anos e antes. Também hoje já não se sonha como nesses tempos. Não estou, de forma nenhuma, a ser saudosista, mas a vida é diferente, o meio social de hoje é outro, somos influenciados, manipulados e agredidos de várias formas, as pessoas são mais materialistas, egoístas talvez, mais individualistas e as necessidades do próximo (se sofre, se é pobre, se está desempregado, etc) passou para segundo plano. Os interesses de cada um passaram a ser a prioridade. É o triunfo da sociedade de consumo, que Marcuse alertava e criticou, com tudo o que isso implica politica, economica e socialmente. Mais cínica, mais gananciosa. É a política do Séc. XXI, onde a violência se serve fria e sem remorsos. Como a que assistimos na Palestina, com a agressão israelita, que parece ter esquecido já ter sido vítima também.
P.Rufino

FIRME disse...

A JUSTIÇA,DOS FRACOS; IN ILO TEMPORE,(antigo testamento...) O povo hebraico em guerra com os FILISTEUS,não me lembro onde existiram,(talvez na faixa de gaza)?,em papiro,chegou um histórico documento dum hebreu,com 1 caveira dum jumento dizimou ,repito;dizimou,uns milhares dos ditos filisteus!Onde haverá hoje tanta caveira de jumento,para continuar ...tal aventura????

Anónimo disse...

Quando há uns milénios a esta parte, um grupo de fanáticos, de origem semita, sobre a direcção de Abraão, decidiu segui-lo, depois de ter sido expulso da Suméria, por ter optado por um modelo religioso monoteísta, contrariamente ao que se praticava então (na Suméria, politeísta e igualmente semita) e dali foram avançando até se instalarem junto de um outro povo, os “palestinianos” - que ali se encontrava a viver há muitos anos antes - e desde logo tentando impor um modelo social, cultural e religioso completamente diferente, o conflito político-social-religioso entre aquelas tribos e respectivos povos, deixou, para sempre, as sementes do que, séculos depois, conhecemos, embora, hoje, as razões históricas tenham acrescentado outra explicação e até dimensão, com o aparecimento do islão, a partir do Séc. VII. A título de curiosidade, quando os Judeus invadiram as férteis terras de Canaã, a população indígena Semita que ali vivia adorava Ashera, a Mãe Deusa, sua filha, Astarte e seu filho, Baal. Para aqueles povos que ali já residiam em Canaã, a união sexual representava a essência da criatividade humana e da própria vida. Imitando a natureza sexual da Deusa através de ligações de crentes e das suas servas – as prostitutas do Templo – preservava-se a fertilidade da natureza humana que tornava possível obter a liberdade do ciclo da vida e da morte, assim acreditavam aqueles povos. Mas, os profetas hebraicos negaram-lhes a dessacralização do sexo. Para eles, Profetas, a mulher não era um instrumento de purificação, mas tão só de procriação. A salvação obtinha-se renunciando à carne. Consequentemente, os Profetas da antiga Israel explicavam os infortúnios que caíam em cima dos Judeus na adoração de outras divindades que não Jeová, que estava acima de qualquer mulher deusa. Apesar disso, o culto da Deusa Mãe continuou a florir, não só entre a população local indígena, mas também entre os primeiros Reis judeus. Salomão, por exemplo, colocou uma esfinge de Ashera no seu templo. No ano de 622 BC, a estátua foi demolida e as prostitutas do Templo expulsas. Até à sua destruição pelos Romanos (por Tito, no ano 70 A.C), o templo passou a dedicar-se apenas a um só Deus, Jeová. O que se passa hoje em dia, desde a criação do moderno Estado de Israel é inaceitável. Os crimes praticados por Israel, os desrespeitos da sua parte de qualquer decisão das N.U (com a benção dos EUA e a abstenção da UE, ou apoio implícito), o ódio á Palestina, etc, é chocante. Israel, armado com o mais sofisticado tipo de equipamento militar, fornecido pelos EUA, dizima, regularmente, sem piedade, o povo que ali já vivia antes dele, os Palestinianos. É extraordinário que um país como Israel, que tem um conceito e prática de Estado de Direito na sua política interna, enquanto Democracia que é, consiga praticar as atrocidades que sabemos, sem sobressaltos sentimentais, como se os Paletinianos fossem cães tinhosos. Israel é um caso patológico. Psíquico. Politicamente bipolar. Uma Democracia que é capaz de julgar e prender um Presidente (nós seríamos incapaz) e, paralelamente, enviar tropas para praticar massacres sobre os Palestinianos. Naturalmente, nada disto seria possível se, a par da criação do Estado de Israel, não se tivesse criado um Estado Palestiniano – como mandaria o bom senso, que assim se tivesse procedido. Aquele “esquecimento” irresponsavel – e intencional – deu no que temos, desde então, vindo a assistir. E iremos continuar a assistir.
P.Rufino