Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, junho 30, 2014

Morreu o filho de Judite de Sousa, o único homem que nunca a tinha desiludido. "A palavra aqui é uma: André.", pediu a mãe nas palavras que dirigiu aos colegas de profissão.


No sábado à noite, quando cheguei a casa, escrevi sobre a notícia do acidente de André Sousa Bessa de que tive conhecimento depois de ver, nas estatísticas do Um Jeito Manso, várias entradas a partir de expressões que o referiam. Mas não contei tudo.

Não contei que logo a primeira expressão que me aparecia era 'faleceu filho de Judite de Sousa'. 


Fiquei gelada ao ler aquilo. Apareciam também as expressões de que no post a seguir a este vos dei conta e que referiam acidente numa piscina, internado em estado crítico, ligado à máquina, etc, mas foi a primeira expressão que me deixou francamente abalada. Não quis falar disso quando aqui escrevi porque, não sendo verdade, não quis que isso pudesse soar como um mau presságio. Além disso, tantas notícias há de doentes que depois de semanas em coma voltam a si, que mesmo os mais reservados prognósticos devem ser encarados com alguma esperança. Apesar de cheia de medo, fiquei a esperar que o domingo nos trouxesse boas notícias sobre André Bessa.


Contudo, isso não aconteceu. No domingo de tarde, tinha lido que estava em morte cerebral e que teriam que ser os pais a autorizar que se desligassem as máquinas. Apesar de não ser nada comigo, senti o terror indescritível pelo qual ela deveria estar a passar: não há mãe que mereça passar por tão medonho suplício. Uma mãe quer saber de boas notícias dos filhos, que arranjaram trabalho, que estão felizes com o que andam a fazer, que têm uma vida afectiva feliz, que têm filhos ou planos para os ter, que gostam da casa onde vivem, que têm bons amigos. Coisas assim, boas, e boas novas, bons augúrios. 

Ao fim da tarde, a minha filha, com quem tinha estado a conversar pouco tempo antes e que tinha lido o que eu tinha escrito na véspera à noite, mandou-me um sms: se eu já sabia, o filho de Judite tinha morrido e acrescentava que era um horror. Eu não sabia, mas temia que isso não tardasse a acontecer. E é: é mesmo um horror. Uma notícia triste que a jornalista Judite de Sousa nunca quereria dar sobre o filho de uma outra mãe, uma notícia que nenhuma mãe suporta ouvir.


Judite de Sousa e André Sousa Bessa,
o filho (para) sempre presente


(Ficam as memórias,
os sorrisos, a mão carinhosa, o apoio)



Sinto muita pena, muita. Penso nela. Coitada da Judite. A vida não lhe tem corrido muito bem. Foi o divórcio, as notícias da infidelidade do Seara, rivalidades na TVI - e sempre tudo ampliado pelas capas das revistas. A tristeza dela, a magreza dela. E ela, triste e magra, a prosseguir a sua vida à frente das câmaras. Contava ela que lhe valia o apoio do filho, o carinho do filho, as boas notícias que o filho lhe trazia.

As fotografias mostram-nos aos dois sorrindo, o sorriso igual, cúmplice. 

Uma vida que se interrompe antes dos 30 anos é uma vida que fica por se cumprir. André foi poupado a muitas das agruras com que a vida vai marcando as pessoas e, por isso, da vida leva o lado esperançoso já que não teve tempo para visitar o futuro. Mas a mãe, que fica cá, fica a sofrer uma ausência que é impossível de assimilar, impossível de ultrapassar. O tempo atenuará a revolta, mas há dores que são de certeza absoluta terríveis, infinitas. Todas as outras dificuldades pelas quais Judite de Sousa passou são nada quando comparadas com a dor maior que agora estará a sentir.


No noticiário da noite, na TVI, um José Alberto de Carvalho emocionado deu a notícia, a notícia que nenhum jornalista quereria de dar, a da morte do filho de uma colega. Depois mostrou-se a si próprio, à frente do Hospital Garcia da Horta, a ler o comunicado de Judite de Sousa (que aqui transcrevo). 


Neste momento de dor, peço a todos os colegas jornalistas que se lembrem do valor das palavras.
A palavra aqui é uma: André.
o filho que sempre quis e que sempre me quis; um homem maravilhoso, irradiante de alegria; de vontade de viver; de exemplo de empenho; estudo; trabalho e força de vontade. E sempre atento, sempre disponível, sempre carinhoso.
Já não irá iniciar em Setembro a desafiante etapa profissional que tinha conquistado por direito próprio numa empresa multinacional. Mas deixa-nos o seu testemunho. E esse testemunho só pode ser traduzido por palavras. Por isso, como sabemos nesta profissão, as palavras são a nossa vida e, neste momento, aquilo que nos resta.
O André merece ser lembrado pela forma como tocou as pessoas com quem se cruzou; e sempre e para sempre a minha.

André faleceu prematuramente aos 29 anos
André Bessa (para sempre) com a mãe, Judite de Sousa


A dor de uma mãe jornalista. Como conseguiu ela, arrasada como devia estar, escrever as palavras doridas que escreveu? O meu marido disse, é jornalista. Sim, uma jornalista habituada a dar notícias em cenário de guerra. 

José Alberto Carvalho que, por causa do que se passou, substituíu Judite de Sousa no noticiário da TVI, deu outras notícias e disse que há dias em que parece que as estrelas desapareceram do céu. Morreu mais uma criança do acidente da moto 4 em Penela e uma outra criança, num incêndio da Damaia.

Notícias tristes, tragédias individuais, dores que não se curam.

Mas, talvez porque há tantos anos tenho a Judite de Sousa aqui comigo, na minha sala, é a morte do seu filho que me custa mais. Coitada, que pena sinto.

Tomara que ela consiga, uma vez mais, arranjar força para seguir em frente e voltar a aparecer-me aqui, em minha casa, dando notícias, fazendo entrevistas.

E que venha colorida, de saia curta, bota alta, tanto faz. Que venha é o que importa - e que volte a conseguir sorrir. Apesar de tudo, a vida continua.




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As folhas que o vento rejeitou
ora guardadas onde, nem donde vindas,
ninguém, nem tu nem eu, o sabe,
nem virá a saber: essas, as folhas
são porém emissárias do que um anjo disse
quando pisou o adro de outra vida.
E nas folhas revives
e assim me revives,
nessas folhas embarco para nenhum lugar.





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A música é de Clara Schumann - Nocturne in F major, op. 6 no. 2 (Erard-Piano,1837) numa interpretação do pianista holandês Bart van Oort.

O poema é de Pedro Tamen in Rua de Nenhures.


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E, sem vontade de escrever sobre outros temas, por aqui me fico por hoje.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda feira. 

A vida é tão curta e por vezes tão traiçoeira que cada vez mais penso que a devemos saber aproveitar em cada pequeno momento em que ela se mostre benevolente.



5 comentários:

Anónimo disse...

Faço minhas as suas palavras. O desaparecimento de um filho, para os pais, é uma coisa com que ninguém espara ou quer lidar. Uma coisa terrível. Um tragédia!
P.Rufino

Anónimo disse...

Li na notícia do DN sobre a morte do filho da Judite de Sousa que caiu na piscina, numa festa, e esteve 15 minutos submerso em água. 15 minutos até o tirarem de lá! Era impossível o rapaz sobreviver...
15 minutos!

JV

Olinda Melo disse...


A morte de um filho: não há dor maior.

Bj

Olinda

Marisa Reis disse...

Impossível de apagar, impossível de esquecer... não deveria ser possível os pais sobreviverem aos filhos, é mau de mais ver partir um filho.

Anónimo disse...

texto comovente e merecido À Judite Sousa. Uma dor infinita.
Que tenha forças para voltar linda e radiante - para uma vida que foi feita a pulso e com muito trabalho e dedicação.
obrigado
Rita Guerra