Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, junho 18, 2014

Auto-retrato


No post abaixo já mergulhei as mãos em beleza em estado puro. Palavras, imagens, música. Não deixem de descer, peço-vos. E estou à vontade para vos pedir isto com tanta assertividade dado que nada é de minha autoria, ou melhor, de minha autoria apenas a conjugação de três autores brilhantes.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, mostro-me num auto-retrato. Nua.

[Não tentem, por favor, encontrar particular relação entre o texto e as imagens - escolhia-as apenas porque me agradam. São da autoria de Tim Walker, fotógrafo que é muito cá de casa]




If the stars were mine 

Melody Gardot




Depois de vos ter desafiado para um enigma cuja solução vos permite que se vejam ao espelho e tendo alguns de vós partilhado comigo as respostas quer por comentário quer, sobretudo, por mail, seria deselegante da minha parte não partilhar eu convosco aquilo que eu respondi quando o meu amigo me sujeitou ao mesmo desafio.

É isso que vos mostro.

Ele não se surpreendeu com o que ia ouvindo, excepto no que se referiu à questão relativa à casa da floresta. Contudo, depois, quando falámos no significado delas e eu lhe dei a minha interpretação, percebemos que até essa fazia sentido. Já vos direi porquê.



1. A minha casa ideal = eu

Imagino uma casa ampla, muito antiga, com muita história, uma casa que eu reconstruísse de forma a dar-lhe o conforto das casas modernas. Teria muitas janelas, terraços, jardins exteriores e interiores. Por ela entraria muita luz, as janelas abririam todas até abaixo. Mas teria também recantos, zonas de intimidade. E livros, livros, livros, uma biblioteca infinita num espaço aberto onde haveria sempre lugar para novos livros sobre os mais variados temas. E pinturas e esculturas e objectos inesperados e privados. Uma casa que eu me sentiria como parte de mim mas na qual os meus mais próximos se sentissem igualmente em casa. 





2. Uma taça = o amor para mim

Imagino uma taça de vidro translúcido, em verde esmeralda opalino, uma taça belíssima. Ou em vidro de Murano. Lá dentro água límpida, fresca, e, num recanto, *a superfície, flores exuberantes. Eu quereria lá estar dentro sempre que possível porque seria uma taça irresistivelmente atraente.




3. A casa na floresta = a religião para mim

Iria por um caminho na floresta e ao fundo veria uma casa. Seria a minha casa. Não sei dizer mais que isso. A minha casa. Sem mais explicações. A ela regressaria sempre, sem ter que explicar nada porque seria a minha casa.




4. Um jardim of my own = o mundo

Gosto muito de jardins. Sempre quis ter uma casa com jardim e, desde já há vários anos, tenho. Chamo-lhe heaven porque é, para mim, o meu pedaço de paraíso. Não me preocupo, aliás nunca me preocupei, que fosse bonito aos olhos dos outros. Não gosto de jardins certinhos, aparadinhos, domesticadinhos. Um jardim, para mim, tem que conter toda a força irreverente da natureza. Quero ser eu a imaginar caminhos, fazê-los, dar-lhes vida. Quero surpreender-me com a vida que o habita: pássaros, coelhos, borboletas, o que for, e árvores, arbustos, flores. E pedras esculpidas pelo tempo. Quero que proporcione paz, tranquilidade mas também exultação pela sua beleza, pujança, espontaneidade.


5. A parede alta e a porta = a morte

Não gosto de entrar sem saber onde vou entrar. Uma porta entreaberta numa parede que corta a visão do que está por trás é uma fonte de curiosidade. Mas entrar…? E se a porta se fecha e já não consigo sair de lá? E se tenho medo do que lá encontrar…? Ou seja, não será de ânimo leve que lá entrarei. Mas entraria? Espreitaria, sim, e entraria, sim, mas com receio.


6. O mar = o futuro tal como o vejo

Sou da beira da água. Preciso de estar por perto, tenho vontade de me meter dentro dela. Gosto do mar de todas as maneiras mas se tiver que imaginar um mar à medida do meu gosto será um mar muito limpo, de certa forma indomável mas não demasiado para eu poder entrar dentro dele e ter controlo sobre mim própria. Imagino-o com algumas rochas cobertas de limos e que seja abrigo de muitas espécies, um mar com intenso cheio a mar, a iodo, a limos, fresco, muito transparente, onde a gente tenha vontade de entrar e descobrir todos os prazeres que nos reserva. 

__



Quando eu dizia o que acabaram de ler, o meu amigo ia sorrindo e dizendo que sim com a cabeça porque me conhece bem e achava graça por bater tão certo. Mas quando lhe falei na casa da floresta, ele ficou admirado. A sua casa? A sua? Mas porquê? Mas descreva. E eu, que não sabia o que dizer, achava que não precisava de dizer mais nada, que não havia nada a dizer, que era a minha casa, uma coisa muito minha. E ele intrigado: mas porquê? Porque diz que é a sua casa? E eu: não sei mas não sou capaz de dizer mais nada sobre isso.

Quando ele descodificou a coisa e me disse que isso tinha a ver com a religião e que não percebia  a minha resposta até porque me sabia muito distante de religiões, eu achei que, estranhamente, batia até muito certo.


Para mim, a religião é uma coisa cá muito minha, não a identifico como os preceitos católicos. E não partilhável até porque, de facto, não sei mesmo falar disso. Sei que não sou de me deixar ir em fábulas, não sou de medos, de castrações, não tenho em mim aquilo do ai, não faço que é pecado, não sou de rituais, nada. Por isso não frequento a igreja (nem a católica nem qualquer outra), não vou à missa, não baptizei os meus filhos, não os levei à catequese. Revejo-me, contudo, nas palavras do Papa Francisco. Para mim, religião é aquilo, não são os preceitos que enformaram a Igreja Católica até à sua vinda (e que ainda lá estão que uma tal teia de interesses, receios e castrações não se desmonta de um dia para o outro). A igreja em sentido lato, para mim, é o abrigo para todos os que a procuram, um espaço e uma atitude que não excluem ninguém, que não punem, não desconfiam, não vigiam. A generosidade, a bondade intrínseca, o despojamento, a atenção pelos mais pobres, pelos mais indefesos, o respeito e amor pelos outros, etc, etc, são valores que cultivo e que tentei incutir nos meus filhos. E o gosto e agradecimento interior pelo que se é e tem em vez de carpir o que se não é e o que se não tem. E o apreço interior pela beleza das coisas, pela natureza, pela arte, pelos outros. Tudo isto é difícil de pôr em palavras porque é muito pessoal. É como eu tentar descrever o funcionamento do meu metabolismo. É uma coisa tão intrínseca que é difícil descrever. 

Logo que adquirimos o nosso bocado de paraíso, uma casa antiga, parte da qual com mais de cem anos, no meio de pedras e de mato, tive logo vontade de lá fazer uma pequena capela. Já aqui falei nisso. Toda a minha família ficou de boca aberta: uma capela? Tu? Toda a gente, sabendo-me avessa a manifestações religiosas, se interrogava: mas uma capela para quê? Lembro-me de o meu marido, pessoa de apurado sentido prático, me perguntar: mas se te apetece ir à missa, não saía mais barato ires de vez em quando à igreja lá da rua? Travei uma luta durante anos. Gozavam-me, é como se fosse a incompreensível excentricidade e incoerência de uma doida varrida. Até que os venci. A minha pequena capela lá está. Impossível de justificar. Mas lá está, simples, despojada, sempre muito fresca, onde apetece ir: a corporização material do meu espaço interior.

De resto, no que se refere aos outros pontos do enigma, acho que tudo bate certo sem serem necessárias explicações adicionais.

Aquela que ali viram descrita sou eu.



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Relembro: Sei que isto me saíu longo e que é capaz de ser ousadia a mais pedir-vos que desçam até ao post seguinte mas acho que tem coisas tão bonitas que seria pena que as não vissem e ouvissem.

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Despeço-me sem reler porque me pus a mudar o visual do blogue e a encher os textos de fotografias e isto está a dar outra vez para tardíssimo e já nem me aguento acordada. Já estou em piloto automático.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira!


7 comentários:

bob marley disse...

uma miúda, hoje mulher com uma filha recém nascida, a quem eu e o primo (já falecido, em estúpido atropelamento), levávamos a empresa da mãe para mamar (sim, em 82 não havia muitos direitos, ou se havia não se gozava), está em fase terminal.

ao dar de mamar sentia qualquer coisa, e facilitou, entretanto já tinha passado aos ossos


POR ISSO NUNCA FACILITEM

fui puto de ajudar á missa, tocar no sino para a missa, assear os altares, o padre na altura perguntou ao meu pai se queria que eu fosse para um colégio (também era aluno de só 5, isso ajudou para o convite). O meu pai infelizmente era um católico fervoroso, e disse que eu só devia ir se tivesse vocação.é claro que nestas condições disse que não, então um míudo que ía para o fontanário para ver as mamas ás mulheres quando se baixavam para lavar, a minha vocação era zero

se tivesse um espírito aberto, dizia, oh pá vai, aproveita a formação deles (de excelência), até podes ser padre durante uns anos, mulheres , a banda sonora dessa fase vai ser do martinho da vila (já tive mulheres)

depois da morte do meu Pai é que tive a certeza que sou um ateu convicto e não por capricho intelectualóide

bob marley disse...

agora uma coisa mais alegre. A propósito de o governo prescindir da última tranche num dia e já não prescindir noutro.

no ciclo antigamente havia religião e moral, (facultativo), mas na matrícula se escolhesse passava a contar como uma cadeira normal, podendo levar a chumbar por faltas.

houve um ano que colocaram a questão usando esta palavra


prescindo de RM

mão prescindi de RM

para ver o grau de parolagem do pessoal(eu incluído), escolhemos não prescindi, o "não" confundiu, conclusão , nesse ano record de inscrições-)))

bob marley disse...

mas há coisas que confundem-me (bastante mesmo), viemos viver para o apartamento onde o meu pai vivia, quando vou passear os cães(2) , que conheciam o meu pai, um deles, que o meu pai gostava muito, por vezes olha para o fundo do elevador e levanta a cabeça e olha para cima como se estivesse a ver alguém, e vai sempre com o rabo a abanar, e ficam numa posição como se alguém estivesse a ocupar aquele lugar

eles nunca viveram aqui, por isso aquele comportamento não está condicionado, por um comportamento anterior (por exemplo se tivessem descido algumas vezes com o meu pai).por isso, é assim, fico confuso

Vitor Gomes Freire disse...



BELO POST !

E que BELO está o blogue !!

Melhores Cumprimentos

Vitor

Um Jeito Manso disse...

Olá Bob,

Que situação mais horrível e triste... Imagino a aflição de todos.

Gostava de desejar as melhoras mas, do que diz, já pouco haverá a esperar, não é...? Coitadinha.

Um Jeito Manso disse...

Bob, de novo,

Isso dos cães é estranho. Ou curioso. Nem sei que dizer. São coisas que não percebemos mas que devem ter uma explicação...

Deve fazer-lhe impressão...

Um abraço.

Um Jeito Manso disse...

Olá Vítor,

Muito obrigada. Volta e meia apetece-me renovar os ares. O pior é que faço isto às tantas e acabo ainda mais cheia de sono do que de costume... mas fico contente que tenha gostado.

Muito obrigada!