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domingo, junho 22, 2014

'As más contas da “mercearia da senhora Thatcher”', um artigo muito interessante de Mariana Mortágua publicado no Expresso


No post abaixo já desvendei o mistério do intrigante iate que está há uma semana no Tejo, mesmo em frente da Baixa Lisboeta. Só me falta agora ir a nado até lá, escalar a amurada, infiltrar-me e, de lá, enviar uma reportagem fotográfica para que possam testemunhar o que é qualidade de vida.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Se lá em baixo entramos no mundo dos muito ricos, aqui, agora, encontramos parte da explicação para que haja tantas desigualdades.


Mariana entre cravos

Um Leitor a quem muito agradeço enviou-me o artigo da Mariana Mortágua, uma jovem economista que interrompeu o doutoramento em Londres para se vir meter em trabalhos. É deputada pelo BE e, do que lhe tenho ouvido, é inteligente, frontal, ainda não poluída e uma excelente oradora. Se não se cansar da politiquice malsã portuguesa, entregue a carapaus de corrida e a perus embalsamados, transformar-se-á, a curto prazo, em alguém de quem se vai ouvir falar e que valerá apenas ouvir com atenção.


O artigo está muito bem feito: claro, estruturado, objectivo.

Transcrevo-o na íntegra pois há temas sobre os quais deveremos estar informados para que, no futuro, não voltemos a deixar-nos enganar com excessiva facilidade. 

De facto, com que facilidade grande parte da população portuguesa aceitou o embuste de que estava a gastar mais do que devia, que havia demasiados investimentos públicos, que tudo isso deveria ser travado... 
Qual o resultado de tudo isso? Eu respondo: recessão, desemprego, empobrecimento, retrocesso social e civilizacional.  
Parte do dinheiro foi deslocada dos bolsos de quem trabalha e dos fundos da segurança social para alimentar e mal os desempregados e, a maioria, para pagar juros agiotas a especuladores financeiros.

Nada do esforço e sacrifício serviu para o bem do País e dos Portugueses. Nada. Sem investimento público, sem liquidez circulante, a vida económica do País entrou em letargia.

Não sei se ainda haverá algum burro que acredite na bondade das teorias que criaturas como a Albuquerque, o Moedas, o Passos, o defunto Borges e outros que tais impuseram a Portugal. Duvido.

Mas, sem mais palavras, eis o artigo:


Se Margaret Thatcher tinha um fetiche, era o sadomonetarismo. O termo foi mesmo cunhado no início dos anos 80, para descrever a obsessão orçamental e monetária da Dama de Ferro, que tornou o Reino Unido um centro financeiro em troca de mais 2 milhões de desempregados. 

Para justificar o fetiche, Thatcher fez o melhor uso do seu conservadorismo popular. Com ele criou uma imagem à imagem do seu pai, respeitado merceeiro, e com ela muitas outras. Criou imagens sobre a economia do país a partir de exemplos da economia doméstica. Acontece que um país não funciona nem um bocadinho como a mercearia do Sr. Alfred Roberts. Um exemplo?

Para o Sr. Alfred seria muito útil se o seu fornecedor entrasse num processo de deflação, uma quebra generalizada nos preços que pratica. Poderia assim baixar os seus próprios preços, vendendo mais barato (e até com mais lucro) aos clientes da mercearia Thatcher. 

Mas se isto funciona para o sr. Alfred, por que não haveria de funcionar para o resto da economia? Do ponto de vista doméstico, supermercados, restaurantes, todos têm incentivos para baixar os preços. Do ponto de vista doméstico, também faz sentido esperar. Empresas adiam investimentos, famílias adiam consumos maiores, bancos adiam empréstimos, tudo espera por melhores negócios. Todos adiam aquilo que faz crescer a economia e, com isso, adiam os impostos que pagam, criando problemas nas contas públicas. 

Para quem está endividado a situação complica-se ainda mais. Com a queda dos preços na economia, a casa que servia como garantia ao empréstimo perde valor, e a dívida aumenta em proporção. O mesmo acontece com todas as dívidas do setor empresarial que tinham ativos como garantia. Quanto mais endividada a economia, pior.

Só há três formas de compensar o aumento do peso da dívida: vender ativos, o que reforça ainda mais a queda dos preços; pedir novos empréstimos, o que aumenta a dívida; aumentar a poupança, o que reduz ainda mais o investimento e o consumo. 

Todas estas alternativas criam aquilo a que Keynes chamou uma preferência pela liquidez. Bancos e grandes empresas preferem guardar dinheiro a gastá-lo. A correspondente falta de liquidez na economia leva os restantes negócios e famílias à falência, provocando uma tendência recessiva. 

Este processo, iniciado - em teoria - a partir da economia de mercearia de Thatcher, foi descrito e cunhado por Irving Fisher num artigo chamado The Debt Deflation Theory of Great Depressions (1933, Econométrica).

É por tudo isto que a deflação é tão ou mais perigosa que a inflação e, olhando para os dados mais recentes, tanto da zona euro como de Portugal, temos razões de preocupação. 

Por toda a Europa a austeridade, o desemprego e a obsessão exportadora criaram pressões deflacionistas, que se sentem mais nos países periféricos, onde tudo o resto também é mais forte. Nos últimos anos, o único dinheiro que entrou na economia foi enterrado nos bancos em apuros, que o guardaram ou usaram para reciclar maus balanços. 

Há quem diga que a deflação é importada, porque o euro está forte. Nada mais errado. Foram as políticas europeias que fizeram o euro forte, as mesmas que causam a deflação.

Há quem diga que a deflação na periferia faz parte do processo para reganhar competitividade no euro. Nada mais falso. A não ser que queiramos atrair capitais para novas bolhas financeiras, o fator preço não deveria ser determinante para as exportações. De qualquer das formas, a única forma saudável do o fazer seria ter a Alemanha com um forte processo de inflação, e não a periferia em deflação. 

O BCE pode e deve contrariar esta tendência. Draghi optou por continuar a inundar os bancos com liquidez e esperar que estes a passem às empresas (este assunto dava um outro artigo). O risco é que o dinheiro nunca lá chegue e sirva antes para novas bolhas especulativas. Ou que, chegando lá, sirva para trocar dívida velha por nova, uma vez que a falta de procura não permite às empresas vender mais. 

A alternativa? Que esse dinheiro seja utilizado para um plano de investimentos a partir do Banco Europeu de Investimento; que esse dinheiro sirva para comprar dívida directamente aos Estados, financiando políticas públicas expansionistas e de criação de emprego e salários. Mas isso era se a Europa não estivesse a ser governada como se fosse a mercearia do pai da senhora Thatcher.


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Nem mais. 

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E agora, por favor, não deixem de mergulhar no Air. É já a seguir.

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2 comentários:

bob marley disse...

para pôr a contas em dia, só assim mesmo - https://www.youtube.com/watch?v=ZTy3qG_qInU


em relação a economistas, precisamos de uma geração que venha da física, que trate a matemática por tu, de resto estamos conversados, é contas de merceeiro (mais, menos e vezes)

Anónimo disse...

Um grande artigo! Fico, sempre, satisfeito de ver que as soluções para melhorar este país também podem partir de gente jovem, com a cabeça bem articulada! Esta Mariana pensa e tem ideias, ao contrário desta gente que nos desgoverna. Oxalá o PS de Costa saiba aproveitar algumas da boas cabeças á sua esquerda. Acho que sim.
E bom, depois da chuva matutina que belo dia de sol!
Logo à noite vamos comer umas "mouiles" aqui em Cascais, que com estas noites de Verão estão a apaetecer!
P.Rufino