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segunda-feira, junho 02, 2014

A matança das mulheres


No post abaixo já falei de um outro assunto deprimente (embora deprimente de uma outra maneira), o do estado de negação em que Seguro se encontra e que o leva a, querendo atingir António Costa, não acertar e, pelo contrário, a dar tiros nos próprios pés, uns atrás de outros. Marcelo Rebelo de Sousa e Sócrates, no seus comentários dominicais, não poderiam ter sido mais claros e categóricos: um pântano como o que Seguro está a querer manter não é bom para o PS nem para o País, é apenas bom para o PSD e CDS. Manobras dilatórias ou confusionistas, já para não falar em manobras difamatórias, é tudo o que os socialistas rejeitam e o País dispensa.

Mas, sobre isso, falo no post seguinte.

Aqui, agora, a conversa é outra. Logo hoje que eu queria falar de flores e livros e brisas com cheiro a caruma. Mas tenho que falar noutra coisa, nisto.



O silêncio dos inocentes





Parece que agora é rara a semana em que não é morta ou agredida quase até à morte uma mulher. Hoje leio que uma, em Santarém, foi asfixiada até à morte e outra, em Felgueiras, esfaqueada até quase morrer. No outro dia, em plena Baixa, outro homicídio. E antes em Elvas. Ou Sintra. O lugar tanto faz. A idade tanto faz.


Tem sido uma constante. Não tenho estado a contabilizar mas, assim, por alto, estou em crer que o número de mulheres assassinadas este ano não deve andar longe das 20. Uma contabilidade de horrores. E ainda o ano não vai a meio.

O que é isto, senhores...?

E o horror maior é pensar que não se chega aqui do nada. Para que um dia um homem decida matar a mulher, ou ex-mulher, já antes muitas ameaças, muito terror deve ter acontecido no silêncio de quatro paredes.

Isto é o quê, alguém me explica?

Distúrbio mental do homem que, parecendo que muito ama a mulher, é, na verdade, um psicopata? Ou pode um homem ser normal e, ainda assim, de vez em quando, perder o tino e virar um anormal, ou perigoso agressor?

Ou pode ser um amor desmedido? Um não ser capaz de viver sem a mulher a quem muito se ama? Mas, se for isso, não é também doença?

Ou será por drogas, álcool, transtorno dessa ordem? Que nem saiba o que está a fazer?

Ou estar desempregado, revoltado, alterado, incapaz de suportar o desejo de vingança? E vingar-se no alvo mais fácil, que está ali à mão de semear? 

Não sei mesmo. Pergunto por desconhecimento e porque isto me deixa perplexa, inquieta.

Percebo que uma mulher que se sente ameaçada, tema dar um passo em falso com medo de retaliações. Provavelmente é exercida chantagem envolvendo os filhos, não sei. Uma mulher que viva aterrorizada, com medo de ser agredida, perseguida, envergonhada perante outros, que receie o que possa acontecer aos filhos, provavelmente cala-se, esconde dos outros, tenta que nada possa fazer regressar a fúria do agressor.

Ou espera que as ameaças não mais se concretizem, ou pensa que é por amor, que ele se vai arrepender.

Ou não sabe se conseguirá sobreviver sem ele, por razões económicas talvez.

Ou que ele a persiga se ela o deixar.

Não sei.

O que se sabe é que, apesar de todas as campanhas, apesar de tudo, os maus tratos subsistem, a cobardia, a animalidade ou perfídia de muitos homens continua a acontecer e que, com uma frequência assustadora, as mulheres continuam a ser assassinadas às mãos dos algozes.

A minha perplexidade aumenta quando um assassino como o chamado Palito, com ar de pobre diabo, de animal acossado, mas que, de facto, à queima-roupa, a sangue frio, matou duas mulheres e tentou matar outras duas, é aplaudido pela população. O que significam as palmas que um homicida recebe quando é apanhado, como se fosse um herói? Significa compreensão?

Os homens compreendem que outro homem mate a ex-mulher e as mulheres que a rodeiam, e as mulheres igualmente desculpabilizam o agressor? A sociedade continua, de maneira geral, a ser permissiva para com o agressor? Não sei. Aquelas palmas assustam-me.

A natureza humana, por vezes, está eivada de barbaridade.

Tento, por momentos, colocar-me no lugar de uma mulher que sofra maus tratos. Para complicar a situação, penso pôr-me no lugar de mulher com filhos menores. Tento pôr-me no lugar de uma mulher que leve bofetadas, empurrões, talvez até à frente dos filhos, que seja ameaçada de morte, que viva num permanente estado de medo, que receie que, por um qualquer motivo, se desencadeie uma nova crise de violência. Tento imaginar-me uma mulher que, quando dê sinais de querer fugir, seja ameaçada - que me perseguirá, que nunca mais verei os meus filhos, que nunca mais terei descanso. 'Não tentes que te arrependes, um dia chegas a casa e encontras a casa vazia, espero-te à porta do emprego e não queiras saber o que te acontece', que conta aos meus pais e eles tão velhos não irão aguentar, que me mata, que mata os meus filhos, que se mata ele a seguir. Tenho que evitar o pior.

Só de estar a escrever isto já estou a sentir-me inquieta, o coração apertado. Não conseguirei continuar a escrever pondo-me na pele de uma mulher que viva o horror da violência doméstica, sinto-me assustada apenas por imaginar a situação.

A coragem que essa outra mulher - no lugar de quem tentei pôr-me - terá que ser maior que a minha. Terá que procurar apoio, terá que falar com a família, com amigos. Terá que pôr de parte a vergonha. Terá que deixar de alimentar a esperança que o cobarde animal se torne humano, terá que procurar a APAV, a Polícia, a GNR. Mesmo que o faça às escondidas para que a besta não desconfie. Terá que ter muita, muita coragem.


Mas terá que tentar libertar-se desse terrível jugo. Antes que acabe asfixiada, estrangulada, baleada. Antes que acabe como mais uma na tristíssima contabilidade das mulheres assassinadas.

Coragem às mulheres que se sentem com medo - é o que se pede. Coragem mesmo quando lhes falte a força. Coragem mesmo quando quase tenham perdido a capacidade de pensar ou de reagir. Coragem.

E cada um dos que têm a sorte de viver uma vida livre deste pesadelo, sempre que desconfie que alguma mulher está a ser objecto de violência doméstica, deverá vencer o normal pudor e aproximar-se, questionar, oferecer o seu apoio. Com cuidado que as dores devem ser muitas, com carinho que a vergonha deve ser imensa.

Não há razão no mundo que possa justificar que um ser humano possa agredir verbal, física, sexual ou psicologicamente um outro ser humano. Quem o faz é um cobarde que deve merecer a rejeição da sociedade. Quem o sofre merece todo o apoio e carinho.




APOIO À VÍTIMA


A APAV tem como missão apoiar as vítimas de crime, suas famílias e amigos, prestando-lhes serviços de qualidade, gratuitos e confidenciais.


É uma organização sem fins lucrativos e de voluntariado, que apoia, de forma qualificada e humanizada, vítimas de crimes através da sua Rede Nacional de Gabinetes de Apoio à Vítima e da sua Linha de Apoio à Vítima – 707 2000 77 (dias úteis: 10 – 13h / 14 – 17h).


Aquando de um crime, muitas pessoas, para além da vítima directa, serão afectadas directa ou indirectamente pelo crime, tais como familiares, amigos, colegas. A APAV existe para apoiar.

Os serviços da APAV são GRATUITOS e CONFIDENCIAIS.


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Depois de ter escrito isto não me apetece, como é óbvio, falar das minhas frescuras. Estive para aqui a escolher fotografias de flores, de livros, mas seria descabido. Talvez amanhã. 

Mas, como não gosto de acabar com mau astral, vou aqui deixar-vos com um vídeo com uma dança coreografada por Jiří Kylián, um dos meus coreógrafos de eleição. Não que seja uma dança muito animada, mas, enfim, sempre é um apontamento de leveza depois de um tema tão pesado.




SLEEPLESS, coreografia de Jiří Kylián


>> Música de Dirk Haubrich baseada na música de Wolfgang Amadeus Mozart, Adagio in c-minor KV 617 
>> Figurinos de Joke Visser, decoração de Jiří Kylián, iluminação de Kees Tjebbes
>> Lucent Danstheater, Den Haag

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Relembro: sobre o que a minha mãe diz do comportamento do Tozé, e sobre os tiros nos pés que anda a dar - e estou a referir-me, claro, àquela criatura que cada cavadela, cada minhoca, cada tiro, cada melro - é descerem, por favor, até ao post seguinte.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda feira.

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4 comentários:

bob marley disse...

isto é importante - http://www.liveleak.com/view?i=e86_1397996990

jrd disse...

Um jeito manso,
Este país não precisa de mapa, basta consultar a primeira página do Correio da Manhã.
Absolutamente abominável!
:(

Anónimo disse...

Esta situação e, sobretudo, a forma como, ultimamente, tem vindo a ser mais frequente, ou a acontecer mais frequentemente, começa a ser muito, mas muito, preocupante.
Algo terá de ser feito, pensado, com vista a evitar e acabar com este tipo de procedimentos, comportamentos, que são não só criminosos como absolutamente abjectos. Este país começa, preocupantemente, a recuar em certos comportamentos sociais. Porquê? Quais as causas? Como travar este tipo de atitudes? Chocante!
P.Rufino

Pôr do Sol disse...

Cara Jeitinho,

Este foi um dos temas de conversa, neste fim de semana, em casa de amigos.
Muito se disse, muito se opinou sobre as causas. Quando a conversa começou a ficar mais acesa, éramos tres casais e a mãe da dona da casa, uma maravilhosa senhora de 82 anos, esta deu-nos a sua opinião.

Todos os canais de tv dão essas notícias com todos os detalhes até à exaustão. Depois vêm os criminologistas debater o assunto, os jornais trazem fotografias na 1ª.página. Banalizam de tal modo estes crimes que, longe de alertarem autoridades, os tornam quase actos normais.

Vieram logo as acusações de práticas salazaristas, volta à censura e o esconder da realidade etc etc.

Censura há sempre, nem tudo deixam que se saiba, podiam de facto os media serem mais comedidos.

Lá diz o ditado é no meio que está a virtude.

É preocupante, aterrador mesmo o que se verifica na nossa sociedade, e a mudança tem de ser preparada na juventude.

Estranhamente muitas jovens que nunca sofreram uma bofetada dos pais, consentem que os namorados exerçam autoridade sobre elas chegando até à violencia fisica, achando-se assim mais amadas.

Está complicada a vida.