Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, maio 07, 2014

Queen Mary 2, Queen Elizabeth 2 e Queen Victoria, três rainhas de visita a Lisboa. E, quando não são as Queens, é um corrupio de marquesas, duquesas e outras flausinas que só visto.


No post abaixo já vos desafiei para uma dança fantástica, a musette, apropriada para quem tem mais de 80 anos ou, não estando ainda nessa gloriosa idade, para quem já atingiu um gosto supremo pela vida, o gosto das alegrias simples. Ou para quem quiser sentir o charme do Paris pós-guerra. Ou, simplesmente, para quem não quiser pensar no primeiro mentiroso nem no vice-contorcionista.

Mas isso é a seguir. aqui, agora, a conversa é outra.


Bang Bang: música, maestro

Que entre a menina dos talentos para nos acompanhar nesta travessia: Angelina Jordan


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Por todas as televisões vi notícia dos cruzeiros fantásticos que esta terça feira estiveram acostados em Lisboa.

Certo. Enormes e brancas, cá estiveram as 3 rainhas. Três de seis cruzeiros acostados em Lisboa.

Mas, dito como ouvi, dir-se-ia que é fenómeno. Qual fenómeno. Estão cá sempre caídas. Não serão sempre as rainhas, mas talvez sejam marquesas, duquesas, condessas, ou, sei lá, simples plebeias. 

O que sei é que vou à janela e volta e meia lá está um dos grandes paquetes. A cargueiros, pesqueiros, veleiros, batelões, cacilheiros e por aí vai já eu estou habituada. Agora a estes monumentos...?

Ainda fico sempre impressionada com o tamanho descomunal destes imensos hotéis flutuantes. 

Perto da altura destas rainhas, o Terreiro do Paço, Sta Apolónia e tudo o que, sem o confronto com estes navios brutais, parece grande, monumental, quase parece coisa de cenário, de brincadeira. Casinhas, catedrais, palácios, castelos, tudo pequenino, janelinhas minúsculas, tudo mignon, cores de pinturinha infantil, guaches suaves, a luz a dourar os brinquedos.

Deslizam no Tejo, majestosas estas enormes rainhas, e imagino o deslumbramento dos passageiros ao verem Lisboa, a bela, a espraiar-se pela margem do rio, toda ela elevações, recantos, cores suaves, cidade linda, linda.

Ouço que os seus ocupantes, em cada um cerca de 5.000 pessoas entre passageiros e tripulantes, geralmente apenas ficam um dia em Lisboa e é pena. 

Claro que é bom, é gente que invade as ruas da cidade, gente ávida de consumo, de lojas e de restaurantes, de andar nas ruas, gente que vem de outros lugares e para outros lugares não tardará a partir. Antes um dia que dia nenhum mas fico com pena, gostaria de sabê-los por cá pelo menos durante dois ou três dias. 


Eu, que por cá ando há tantos anos, passo a vida a reparar em coisas que nunca antes tinha visto. Como ficar apenas um único dia numa cidade tão cheia de recantos e insondáveis meandros?

Mas talvez, num futuro próximo, as estadias se prolonguem, agora que Lisboa está a ser considerada um dos melhores lugares do mundo para se conhecer (claro que o Porto e todo o Portugal também, mas agora é de Lisboa, a luminosa, e do amplo Tejo que falo).

Volto aos paquetes. Em volta deles há sempre uma actividade enorme. Barcos que, noutras condições, parecem de tamanho normal, aqui, ao pé deles, parecem minúsculos carrinhos de mão e por ali andam, num vai e vem. São os barcos que procedem aos carregamentos de alimentação e outros bens como, por exemplo, flores. 

Ouvi que, no outro dia, uma florista recebeu uma encomenda brutal de flores. Ficou zangada, que a deixassem trabalhar em paz, que estava ela cheia de trabalho e a maçarem-na com brincadeiras. Não acreditou que fosse possível tamanha encomenda. Mas era verdade. Abastecer um navio destes deve mesmo ser uma coisa incrível.

A mim nunca me puxou para uma destas, para me pôr a bordo e deixar-me ir. Não me agrada sentir-me confinada. Claro que um paquete destes, por dentro, deve ser quase como estar num bairro, numa vila, nem sei. Mas prefiro ir onde os meus pés me podem levar. E tenho sempre ideia daqueles programas, entretenimentos, espectáculos, coisas que não fazem o meu género. A graça que vejo em fazer férias a bordo de um barco assim é a possibilidade de ir de cidade em cidade, conhecendo lugares banhados por mares. Mas, se é para estar apenas um dia, o que é isso?

Mas isso sou eu, que sou esquisitinha, enjoadinha. Feita importante, torço o nariz a umas semanas na companhia de uma destas rainhas. 

Contudo, a bem da economia nacional e a bem da miscigenação que tanto enriquece Lisboa, tomara que venham muitos, dúzias, resmas, paletes de cruzeiros a abarrotar de turistas curiosos, bem dispostos e endinheirados. 

Eu, pela parte que me toca, cá estarei de máquina fotográfica a postos para as retratar, às belas rainhas, às silenciosas deusas brancas que navegam sobre as águas deste meu Tejo, rio amado, a caminho de outros e mais profundos mares.


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Agora que já vos mostrei os grandes cruzeiros, nada como uma animada valsa no convés. Está na hora da valse-musette. Desçam, por favor, até ao post seguinte que o ambiente é do melhor que há.

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1 comentário:

Anónimo disse...

Há umas viagens mais agradáveis (sobretudo no Mediterrâneo), com um toque mais sofisticado, sem roçar o novo-riquismo, que são aquelas (algumas, há que ter atenção) em veleiros privados, que podem comportar um determinado número de passageiros, número esse sempre razoavelmente diminuto – sobretudo se comparado com o desses gigantes, verdadeira cidades ambulantes – que proporcionam uma viagem diferente, com muito menos confusão e com melhor ambiente.
Aqui há uns anos, não sei se já alguma vez referi, com minha mulher e filhos, fizemos uma pequena mas encantadora viagem de barco, em tudo diferente destas. Foi na Tailândia, entre Bangkok e Ayuthya (a antiga capital do Sião) numa daquela barcas de arroz (para transportar arroz através do rio Chao Phraya), entretanto toda transformada para passeios turisticos, com apenas 8 impecáveis quartos, uma bela sala interior e um exterior belíssimo, onde era servido o jantar, delicioso, numa combinação de gastronomia thai e francesa, á luz de uns candeeiros de velas, numas mesas para 4 pessoas e tudo isto sob a batuta de três profissionais, um inglês, um francês e um thai, do mais simpático e atencioso que podiam ser. Connosco viajavam outros 4 turistas (dois casais) e lá fomos entabulando conversa, durante a viagem de 2 dias e 1 noite. Uma viagem verdadeiramente de encantar, pela paisagem e pelo serviço –e pela dormida, no meio do rio, na noite escura.
Lá está, há gente com imaginação que consegue tirar partido de certas coisas e proporcionar momentos deliciosos, que não mais se esquecem. Como foi aquela nossa viagem. Pergunto-me se não se poderia por aqui investir numa coisa do género, naturalmente com um toque bem português.
P.Rufino
PS: um dia destes gostaria de fazer a subida (ou descida) do Douro, num daqueles barcos, Douro acima (até Barca d’Alva) , ou Douro abaixo, até ao Porto.