Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, março 25, 2014

José Rodrigues dos Santos no espaço de "opinião de José Sócrates", ou quando o moderador resolveu armar-se em protagonista (não em jornalista) no espaço destinado ao convidado: esclarecimento junto de alguns dos Leitores do Um Jeito Manso que comentaram o post abaixo e que, ao que me parece, não o compreenderam.


Tem graça isto. Sócrates divide as águas, disso não haja dúvidas. Ontem escrevi um texto sobre o que se passou na RTP (o ataque à má fila que José Rodrigues dos Santos lhe desferiu), e as visitas ao UJM não param e os comentários agitam-se.





Os ânimos exaltam-se de cada vez que o tema Sócrates vem à baila e há pessoas que perdem a tramontana. Odeiam o homem e, muito sinceramente, não percebo porquê. Não sei o que tem ele que esfrangalha tão facilmente a racionalidade de alguns (a menos que a dita racionalidade já seja, de si, escassa).

Tenho a dizer-vos, meus Caros, que não sou das áreas da metafísica, do jornalismo, ou de outras áreas dadas à efabulação. Não. A minha formação académica anda pelas áreas das ciências exactas e toda a minha (longa) vida profissional gira à volta de áreas exactas, números, resultados, gestão. 

Pelos frutos os conhecemos, disse o apóstolo e por isso me guio. Mas não analiso resultados independentemente do contexto. Invoco de novo a minha formação (académica e pós-académica) e toda a minha (longa) vida profissional para vos dizer que sei bem identificar as variáveis, as restrições, as relações de contexto, as tendências, as causas e as consequências, etc, etc.

Olho para as peças que mostram o desempenho de uma organização e interpreto-as e interpreto-as não em ambiente asséptico mas inseridas no contexto. E analiso-as com racionalidade, não com emoção, muito menos com paixão.

Tenho também experiência em negociação. Digo-vos: não é qualquer um que consegue dar-me a volta. Diz de mim quem me conhece bem: como adversária ela é temível.

Por isso, quando defendo Sócrates não o faço por paixão, por pancada, por pulsão irracional. Não. Louvo-o no que acho que é de louvar, critico-o quando é de criticar. Várias vezes o fiz durante a sua governação. Por exemplo, quando aumentou os ordenados dos funcionários públicos em 2009, muito o critiquei. Não havia, na altura, razões nem condições para o fazer. Também, quando aceitou cumprir cegamente alguns regulamentos europeus (made in Alemanha) nas obras do Parque Escolar, critiquei-o. Não o critiquei por melhorar as escolas, por gerar emprego local e não só, não o critiquei por apoiar a arquitectura nacional, a engenharia nacional, as empresas locais, etc. Critiquei-o, sim, por, obedecendo a regulamentos europeus, ter aceitado importar equipamento térmico inadequado para o País, fazendo o frete aos alemães - coisa de pormenor, no entanto, face à dimensão dos aspectos positivos. 

Mas elogiei-o quando o vi (e vi mesmo - read my lips) a apoiar a reindustrialização do País, quando o vi a puxar pelo ensino e pela investigação, quando o vi a tentar vender os produtos do país por esse mundo fora, quando o vi, in extremis, a lutar por uma economia que ameaçava parar. Cada um dos processos não terá sido isento de erros. Mas isenção de erros é coisa que não existe em lado nenhum. Há é que fazer o balanço e identificar a linha de rumo e, não tenho dúvidas, caminhava-se, então, no bom sentido.

Analiso os resultados da governação Sócrates e separo os exercícios, não observando da mesma maneira o período 2005-2008 e o seguinte, em que estava em minoria, dependente da aprovação de uma maioria hostil, e pior, com o País a sofrer as vicissitudes de um mundo ocidental em crise e de uma UE a mandar, primeiro, avançar uma política expansionista (como forma de evitar a retracção decorrente da crise financeira internacional) e, logo a seguir, a mandar retroceder a todo o vapor.

Sei distinguir as boas decisões e as menos boas, fruto de algum voluntarismo inflaccionado por se sentir acossado face a uma maioria hostil.

Sócrates é um lutador e quer o bem do País. Sócrates ama Portugal e os Portugueses e disso eu não tenho dúvidas. Sócrates quer que Portugal seja um País desenvolvido, com gente instruída, capaz de encarar o futuro com orgulho. Disso não tenho dúvida. E nisso estou do seu lado.

Sei também que Sócrates, sabendo que a economia flui em função da confiança, lutou até ao último pingo das suas forças para escamotear o estado periclitante em que a crise internacional e a maioria hostil estavam a deixar o País - pois sabia que, quando baqueasse, os mercados fariam ajoelhar o País e que uma intervenção externa seria inevitável. Contra isso lutou até ao limite do razoável. Não considero que escamotear a situação do País para tentar evitar o que já se adivinhava como irremediável seja uma mentira mas sim uma forma (extrema) de lutar.

Acho que Sócrates, se não estivesse em minoria (com um Parlamento cheio de hienas ansiosas por avançar para a carniça - e refiro-me a um Passos Coelho impreparado e perigoso, a um Portas, ambicioso e bailarino e que, curiosamente, contavam com o apoio de um Louçã a querer afirmar o BE e de um Jerónimo sempre do contra), teria lutado de outra forma e Portugal não estaria como está hoje. 

Uma vez que tinha o apoio da UE e da própria Merkel, teria conseguido aguentar a pressão dos abutres até que a Europa e o BCE erguessem o escudo protector.

Mas, quando ganhou as segundas eleições sem a maioria absoluta, cometeu um erro, Sócrates. Aceitou formar governo sozinho. Deveria saber que Cavaco não é flor que se cheire e deveria ter percebido que hienas como Passos Coelho e Portas não tardariam a atirar-se ao pescoço do País.

E isto é o que eu penso de Sócrates e do período em que foi Primeiro-Ministro.

**

Quanto ao que José Rodrigues dos Santos fez ontem na RTP, volto a dizer que acho que foi deselegante, mal educado, inconveniente. Repito: aquilo é um espaço destinado à opinião de Sócrates. A que propósito desatou a fazer-lhe uma entrevista relativa ao passado?





Aqui há algum tempo, fui convidada para ir dar uma aula livre mas sobre um determinado tema a uma universidade.

Quem me convidou acompanhou-me ao anfiteatro, apresentou-me e deu-me a palavra. No final, deixei espaço para perguntas e respostas e a pessoa que me tinha convidado, para desbloquear a normal inibição, colocou-me a primeira pergunta. Imagine-se se essa pessoa, ao invés, ao apanhar-me ali no palco, perante um anfiteatro pejado de alunos e de alguns professores, resolvia começar a fazer-me perguntas a ver se me apanhava em falso, ali à frente daquela gente que se tinha juntado para ouvir a minha opinião sobre um determinado tema. 

Era só o que me faltava. Eu aceder a ir ali e, sem mais nem ontem, quando dava por mim estava a ser interrogada por alguém que parecia querer ver-me ali estendida ao comprido. Das duas uma: ou perguntava a essa pessoa se estava com os copos ou se estava a gozar comigo. E, se a pessoa persistisse, levantava-me e ia-me embora. Claro.

Uma coisa bem diferente seria se me tivessem convidado para ser entrevistada sobre um determinado tema. Se aceitasse, sabia ao que ia, sabia que, quem vai à guerra, dá e leva, sabia ao que me estava a sujeitar.

Se José Rodrigues dos Santos queria fazer uma entrevista sobre a governação de José Sócrates deveria convidá-lo para isso - e estou certa que Sócrates ia de boa vontade. Não o apanhava à má fila, como fez neste domingo.


Rodrigues dos Santos não fez jornalismo, não deve ter sido isto que aprendeu na BBC, não foi acutilante, não foi a Oriana Fallacci dos pobrezinhos: foi simplesmente despropositado e malcriado. Quis o protagonismo para si como, de resto, sempre quer.





Mas volto a dizer: em boa hora o fez. Sócrates não se irritou, não se desnorteou. Manteve a calma, manteve a cabeça no lugar, respondeu a tudo e respondeu bem. José Rodrigues dos Santos, de facto, deu a oportunidade de que Sócrates gosta para o combate político, para afirmar as suas convicções.


Espero agora ter sido mais clara para que os Leitores não venham tresler o que eu escrevi, tirando conclusões de pernas para o ar.

Mas, meus Caros, caso queiram, contem comigo para isto. Não viro costas a uma boa divergência. 


*

NB: A quem aterrou agora aqui, lembro que, descendo um pouco mais, encontrará o texto da polémica, o que ontem escrevi e que já recebeu (até à hora em que escrevo) para cima de 2.700 visitas.


5 comentários:

Anónimo disse...

Clara como a mais transparente das águas!
P.Rufino

JOAQUIM CASTILHO disse...

OLÀ UJM!

Aimda sobre o tema entrevista ao Sócrates ex-comentador por uma vez na RTP chamo a atenção para o último parágrafo da análise de Fernanda Câncio que poderão ler aqui:
http://jugular.blogs.sapo.pt/romancing-the-interview-a-teoria-da-3723870

...."uma última nota: fui alertada para esta polémica por uma notícia que titula 'josé sócrates irrita-se', e, curiosa, fui ver o programa. para meu espanto, atendendo a que sócrates é notoriamente irritável, constatei com surpresa que pelo contrário, não só não se irritou como até usou várias vezes da ironia, recurso que não lhe era costumeiro e que evidencia uma evolução que aplaudo. e quando diz 'não vim preparado para isto' refere-se a não estar municiado com dados em relação a uma pergunta específica, e não à 'linha' adoptada pelo pivot, como várias notícias dão, capciosamente, a entender. aliás, não fez qualquer reparo a rodrigues dos santos quanto à perversão do formato, o que foi pena, porque seria interessante que este se tivesse explicado ali, em vez de fazer testamentos patéticos no fb.



já agora, concordo com a Penélope(de outro blog): Sócrates saiu-se muito bem nas respostas, evidenciando uma capacidade de encaixe e de réplica inegáveis -- costumeira a segunda, muito menos a primeira."

Um abraço

Pôr do Sol disse...

Resumindo... divertiram-se os dois muito, pelo menos é o que agora nos querem fazer crer.
A RTP limpa assim a imagem de JRSantos.
Surpreendida estou agora com as ideias brilhantes de Teodora Cardoso.
Contas Poupança? Com a sua idade, esta senhora não deveria ter uma ideia mais real do que se passa em Portugal? Ou refere-se somente ao seu meio?
Terá a senhora andado a beber algum chá esquesito?

Anónimo disse...

Estou completamente de acordo consigo.
Maria Luísa

Cavaco Cavaquices disse...

Escrita muito clean e assertiva, UJM. Bastante mais credível do que textos cheios de exaltações como os meus de ontem.

Não sou das ciências em que se formou, mas deixe-me dizer-lhe que estudo numa área científica e que não há texto jurídico digno de se considerar como tal que não exponha rigorosamente e sem floreados determinada posição.
O que eu não tenho lido de economistas com teorias malucas e ideias estranhas! Já nem falo do César das Neves, que esse não bate bem da bola. Não há mais teórico que um economista.
A UJM creio que está mais ligada à gestão, aos negócios, mais próxima da prática, independentemente de o curso que tirou tenha sido ou não Economia, que tanto forma práticos como teóricos, tal como o Direito.
Quando toca a política, suponho que tenha alguma razão em pensar que alguém formado nas suas ciências não se deixe levar tanto por surtos de paixão. Mas se há coisa que não suporto é tipos que vão à televisão ou escrevem nos jornais e usam os seus termozinhos técnicos todos para tornar o seu discurso muito profissional e inatacável e, na verdade, andaram, andaram e não disseram nada. Há muitos assim. Quando é que vê um "especialista" na tv dizer alguma coisa de jeito?
Com isto não quero que pense que, de alguma forma, me ofendi com o que escreveu ou qualquer coisa do género. Apenas não me parece que tenha assim tanto a ver com o grau de exaltação numa discussão política ser de uma área mais ligada às ciências ou não.
No meu caso, devo dizer-lhe que sou bastante jovem e falta-me experiência para dosear melhor a intensidade do meu discurso. Mas havia de ver-me a discutir Direito com Catedráticos: faço questão de ser muito rigorosa e não andar às voltas a maçá-los com floreados. Só sou capaz de os enfrentar depois de ter lido imenso sobre o tema que lhes levo. O perigo de ler muito é ficar tudo confundido no cérebro e o pensamento mal estruturado. Perco muito tempo a organizar as ideias. Normalmente, preparo-me mesmo muito bem. Não sabe o gozo que me dá!
Mas sou ainda muito jovem e sinto que, perante um futuro de retrocesso e não de progresso como desejava o Sócrates e em prol do qual trabalhou, não tenho um fio de esperança onde me agarrar. Esperança num futuro coletivo melhor. Coletivo, repare bem. Porque estou segura de que terei uma vida simpática. Enquanto à minha volta, muito próximas de mim, pessoas muito boas naquilo que fazem são obrigadas a parar, porque neste país ninguém valoriza o outro e todos nos achamos no direito de ser servidos a troco de nada. Ninguém quer retribuir, dar uma contrapartida. Ou pelo menos um elogio. Uma recomendação a outras pessoas.

Para terminar, quanto ao cumprimento cego de regulamentos comunitários, não há nada a fazer. Eles aplicam-se diretamente como lei no nosso país. Não há como lhes escapar. E quanto à formação pelo Sócrates de um governo minoritário, não vejo bem que alternativa haveria. Não formava governo? Sim, podia dizer que não tinha condições. Mas seria um pouco estranho: então nem sequer tentava? Íamos logo para outras eleições? Não pode haver governos minoritários? Quanto ao aumento dos salários da função pública em 2009 também me parece que não foi uma decisão acertada, nem mesmo tendo em conta a previsão de que haveria inflação superior ao que se veio a verificar.

JV