domingo, novembro 30, 2025

Sopradores de folhas, clubes de leitura, labubus, inimigos, livros sobrevalorizados e outras coisas do género.
Isto num dia em que não estou na minha melhor forma.

 

Lembro-me bem de ter quarenta e tal nos e de ter ido a casa da senhora que transpunha para papel quadriculado os desenhos de tapetes de Arraiolos dos séculos XVI ou XVII e de, às tantas, lhe ter dito que não ia decidir ali pois gostava de pedir a opinião à minha filha. A senhora olhou para mim, muito admirada, e perguntou que idade tinha a minha filha para me poder dar opiniões sobre umas hipóteses tão específicas. Teria certamente vinte e poucos. A senhora olhou-me ainda mais admirada e perguntou. 'Não me leve a mal... mas qual é a sua idade para já ter uma filha dessa idade...?'. Disse-lhe e ela mostrou-se muito espantada, disse que ninguém diria, que julgava que eu não teria mais que trinta e poucos. Não sei se era ela que não via bem mas a verdade é que toda a gente se admirava comigo, dizendo que eu parecia estar sempre igual, diziam que a idade não passava por mim. E lembro-me de, por essa altura, um conhecido que nos tinha ido visitar ter dito que se alguém nos quarentas dissesse que não tinha, de quando em vez, alguns problemas de saúde ou dores ora aqui ora ali, estava de certeza a mentir. Eu disse que eu não tinha queixas de nada e que não estava a mentir. 

Na realidade, até tarde convenci-me que tinha uma sorte do caraças por nunca ter queixas de nada. Nem cabelos brancos tinha. 

Claro que alguns anos depois a realidade do meu corpo humano veio bater-me à porta. Ou por genética ou por durante anos não praticar qualquer exercício físico, a verdade é que comecei a ter queixas nos joelhos. Descobri mais tarde, aliás já muito recentemente, qual a condição que me provoca, de vez em quando, algumas inflamações nas articulações. A mesma coisa que o meu pai teve e que a minha avó materna também. 

No intervalo dessas 'crises' fico bem, como se não tivesse nada e faço uma vida absolutamente normal.

Desde há dois dias que tenho estado meio empanada. Na sexta-feira fui na mesma ao supermercado, este sábado fomos almoçar fora. De tarde limpei a casa. Ou seja, não fico inválida nem pouco mais ou menos nem tenho paciência para me ver como uma velhinha meia coxa. Ou seja, fico apenas meio condicionada. Claro que, se tudo correr bem, um dia chegarei a velha. Mas tem tempo... não preciso de começar já a ensaiar para isso, não é'

E já tenho alguns cabelos brancos... Não muitos mas tenho, sobretudo nas frontes. Nisso também saí ao meu pai que manteve o cabelo da sua cor natural até tarde. Depois começou a ficar levemente grisalho, mas já bem tarde. Portanto, até nesse aspecto, aquela coisa de assumir os brancos também tem tempo. Deixa-os vir, um a um, devagarinho. Quando os tiver na cabeça toda e com fartura logo vejo se viro uma velhinha platinada. Talvez tivesse piada, se calhar aproveitava e fazia um corte à maneira, bem curtinho, à rapazinho. Mas ainda deve faltar um bom par de anos, não vale a pena estar a antecipar.

Isto para dizer que, ao contrário do que é costume, não andei a apanhar cogumelos, não andei a caminhar por entre as árvores a fotografar ou a fazer vídeos. Dei uma leve voltinha mas não tive disposição para me deixar encantar.  Só uma ou outra fotografiazita mas agora também é tarde, não me apetece passar do telemóvel para aqui. 

O que me vale é que sei que, quando isto me passar, e acho que já está a passar, até à próxima, estarei bem, na maior. Faço parte do grupo de malucos que vêm o copo sempre quase cheio.

Este algoritmo do instagram já me topou e agora aparece-me com vídeos com exercícios e sei lá que mais para prevenir inflamações deste tipo. Mas o que despertou mais a minha atenção foi a acupunctura. Só não sei é que parte do corpo haveria de espetar pois a cena dá-se onde calha, ora num joelho, ora num pé, ora num pulso - onde calha. Mas qualquer dia ainda vou ver o que um tipo desses me diz. E capaz de ser até bom, já estou a imaginar-me deitada numa marquesa, toda picadinha e a dormir o sono dos justos. Essas coisas dão-me um sono... Quando ia fazer fisioterapia, adorava. Quem lá andava queixava-se à brava, diziam que só queriam ver-se livres daquilo. Eu era ao contrário, adorava. A chatice era que me debatia para não adormecer. Uma tentação danada, quase irreprimível de me deixar embalar nos aconchegantes braços de Morfeu. Aliás, não sei se isso não aconteceu uma ou outra vez.

Enfim. 

Vi o debate entre o Jorge Pinto e o Marques Mendes. Não me aqueceu nem me arrefeceu mas voltei a achar piada ao Jorge Pinto, acho que o País precisa de malta assim. Já disse que ainda não o acho maduro para a função pelo que não votarei nele. Mas também não voto no Marques Mendes. Era o que faltava. Bolas.

Seja como for, não tenho pachorra para agora falar neles.

Vou é transcrever parte de uma entrevista a Fran Lebowitz, no Guardian. Fazer caminhadas é a coisa mais estúpida que eu poderia imaginar

Achei graça pois identifico-me um bocado com ela, não nisto das caminhadas, que gosto bastante de fazer, mas em muito do resto. Ou melhor, para ser mais precisa: gostava de ser tão desabrida e desbocada como ela. E há uma diferença de fundo entre nós: já não fumo, coisa de que me orgulho imenso pois estupidamente fumei durante tempo demais, Mas, por exemplo, estou com ela no horror aos sopradores de folhas, à barulheira que fazem. Gosto é de as varrer. Sobretudo, gosto de ver o chão coberto por elas. É como os clubes de leitura: nunca consegui inscrever-me nisso. Tinha duas colegas que os organizavam e dinamizavam. Tentaram mil vezes levar-me. Nunca fui. Não me imaginava a dissertar sobre o que tinha lido e muito menos me imaginava com paciência para opiniões parvas, até porque, à partida, tenho para mim que tudo o que se diga sobre um livro num clube desses tem alta probabilidade de ser parvo. 

Mas vá, aqui fica um excerto. Para o lerem na íntegra, podem clicar aqui.

Gostaria de saber a sua opinião sobre cinco coisas. Primeiro, os sopradores de folhas.

Uma invenção horrível, horrível. Eu nem sabia da existência deles até há cerca de 20 anos, quando aluguei uma casa no campo. Fiquei chocada! Vivo na cidade de Nova Iorque, não temos problemas com folhas. Temos todo o tipo de problemas. Quando eu era criança, tínhamos de varrer as folhas. O que é silencioso. Os sopradores de folhas são a coisa mais estúpida que já vi. Primeiro, são incrivelmente barulhentos. E segundo, 10 minutos depois de o usar, aquele soprador gigante no céu atira todas as folhas de volta. É uma invenção muito estúpida.

Jantares.

Gosto de jantares em casa de outras pessoas. Não sou eu que o dou. Acho que o mundo se divide entre convidado e anfitrião. Sou convidada. E sou velha, por isso normalmente não me prendo a jantares de que já não gosto, porque sou uma ótima juíza de jantares antes de ir a um.

Clubes de leitura.

Acho giro que as pessoas o façam, mas, sinceramente, não consigo pensar numa atividade mais solitária do que ler — e essa é uma das razões pelas quais adoro ler. Não tenho nada contra a ideia, mas certamente não me atrai.

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Labubus.

Eu sei o que são, infelizmente. Já houve muitas modas de bonecas, mas estas bonecas em particular parecem-me muito desagradáveis. O que é diferente agora é que os adultos o fazem. Antes, isso era coisa de crianças. Mas os adultos têm estas coisas presas às suas bolsas e cintos. Francamente, parecem ridículas.

Qual a coisa mais estranha que já fez por amor?

Aos 75 anos, o romance não é a sua principal preocupação, pode ter a certeza. Quem diz que é, está a mentir. Portanto, não sei. Sei que as pessoas me acham invulgar, mas não sou estranha. Também não sou de fazer grandes gestos.

Poderia ser algo estranho para os seus padrões — como praticar um desporto radical.

Ah, não, não, eu nunca faria isso. Nunca fui tão jovem ao ponto de dizer: "Uau, escalar montanhas parece divertido". Não, não me parece divertido. Se quer escalar montanhas, divirta-se. Não percebo porque alguém faz estas coisas. Fazer trilhos é a coisa mais estúpida que consigo imaginar. Já vi pessoas a jogar ténis, porque isso aconteceu mesmo no início do meu amor. Duas semanas depois? Já não estou lá.

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Tem algum inimigo?

Ah, tenho a certeza que tenho mais do que um. Tenho a certeza que são dezenas. Felizmente, não costumo prestar muita atenção às outras pessoas. Sei que não sou a menina dos olhos da América. Mas mesmo que soubesse exatamente o nome da pessoa, não te diria.

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Qual acha que é o livro mais sobrevalorizado?

Não creio que me consiga limitar a um só. Existem muitos escritores sobrevalorizados. Quero muito que os romances contemporâneos sejam bons, mas percebo que não gosto da maioria deles. Muitas vezes as pessoas dizem: "É uma questão de geração, Fran, este escritor tem 20 anos". E a minha resposta é: "Bem, não é bom, porque isso não deveria ter importância". Sei quantos anos tinha Tchekhov quando escreveu as suas histórias? Não sei. Não importa. É simplesmente uma grande história.

Durante a maior parte da minha vida adulta, fiquei muito irritada com a lenda de F. Scott Fitzgerald. Por isso, de cinco em cinco anos, releio O Grande Gatsby, esperando que não seja assim tão bom – mas infelizmente é.

Qual é o objeto mais antigo que possui e porque ainda o possui?

Tenho muitas coisas antigas no meu apartamento. A maioria dos meus móveis é do século XIX. Tenho muitos livros antigos. Ainda tenho o trenó da minha infância, de quando era muito pequeno. Eu devia ter uns seis anos, no máximo. Tem uma corda amarrada para o puxar colina acima – lembro-me de ver o meu pai a amarrar a corda. Também tenho o meu carrinho de mão original da infância. E, como tudo neste apartamento, tem livros em cima.

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Desejo-vos um feliz dia de domingo 

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