Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, janeiro 08, 2019

Palavras poucas




Tenho estado a fazer o meu tapete. Finalmente vejo-o a avançar. Enquanto andei a encher a barra, como a lã era em amarelo quase da cor da base, mal se percebiam os avanços. E eu gosto de ver o fruto do meu trabalho. Quando me vou deitar, estendo o tapete e aprecio o avanço que lhe dei. O problema é só lhe pegar muito tarde, entre posts, entre textos, entre leituras nos onlines. No outro dia, no fim de semana, íamos sair e eu perguntei ao meu marido daí a quanto tempo estava pronto. Disse: dez minutos. E eu vim a correr fazer um bocadinho.


Uma vez mais, a minha vida fugiu da normalidade. Mais uma proposta que, de certa forma, me coloca numa posição difícil. Já fui avisando que acho que estão a ser irrealistas e que o desafio que me foi lançado faria muito sentido num outro contexto, não no actual. Mas isto é complexo pois há o sentido da responsabilidade perante quem lá trabalha e virar costas pode ser um balde água fria mal compreendido. Vou dizer: antes do que me estão a pedir, há que fazer isto, aquilo e aqueloutro. Mas é escusado, sei que é mais do que alcançam. É passada grande demais para a sua perna curta. Tenho que pensar como apresentar os meus argumentos sem que se sintam ofendidos.


A minha vida não é nada de especial, é uma vidinha. Mas é a minha vida. Cheia de imprevisibilidades, de desafios, de reviravoltas. Penso que um dia que adquira a minha liberdade, assim lá chegue de boa saúde, irei mudar de vida. Tenho muitas coisas para fazer que nada têm que fazer com a minha profissão.

Por agora, na minha vida actual, com tudo o que me absorve -- frequentemente para lá da conta -- não consigo nem sequer assomar à porta do que gostaria que fossem as minhas actividades no futuro. O tempo vai passando e não sei o que é isto que tenho, parece que atraio o trabalho. Por muito que, no meu íntimo, pense que já mereço uma vida menos pesada, a verdade é que me chovem coisas em cima, como se não houvesse amanhã. 


Comprei um livro no outro dia, um livro atípico e interessante. Ando com vontade de transcrever uns bocadinhos pois tem alguns aforismos que dão que pensar; mas, quando aqui chego, sinto que, se me puser a fazer transcrições, adormeço.

Também tenho vontade de fazer um post sobre o melhor post anual da blogosfera e, não sei o que é isto, em vez de fazer a justiça de lhe prestar a devida homenagem, o mais que consigo é deixar que os dedos por aqui andem na vadiagem, inconsequentes, desviados do que deviam. 

Mas o meu dia foi muito complicado, muito mesmo. E antecipo que o de amanhã não vai ser muito melhor, deve ser, sobretudo, maçador. E eu quero tranquilidade.

No outro dia, estava num sofisticado gabinete a falar de coisas do futuro e o meu interlocutor respondeu-me que, por tudo isso, é que gosta tanto de conhecer as aldeias mais rurais do país.  E eu fiquei estupefacta, quase sem saber o que dizer.

Talvez isso seja bom sinal, talvez o apelo da natureza comece a impor-se.


Não há muito, a conversa andaria exclusivamente em torno de ebitdas, cash flows, roi's, gestão de activos, gestão de porfolio, assessments -- cenas dessas. E agora aparece um, chama-me, pergunta-me se conheço a obra de um certo escritor, vem este e fala-me em aldeias de pedra e vales e montanhas. É a minha vida que dá reviravoltas. Até os actores mudam de guião.

Procuro a paz, a serenidade, a beleza. Gostava que a minha vida fosse sempre a fazer coisas boas, sem intranquilidades, podendo ver coisas bonitas, falar palavras boas.

Talvez seja pedir de mais. Mas tento. Não desisto.

E, entretanto, vou ouvindo música que me agrada, vendo fotografias e pinturas, bailados, lendo palavras boas. Nada de mais, afinal.


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Fotografias de Otto Stupakoff 

6 comentários:

bea disse...

Acerca dos seus primeiros parágrafos: um não a uma proposta de trabalho, é um não, UJM; e não é esquecido por nenhumas das partes envolvidas quando as condições não servem a nenhuma delas. As pernas curtas existem e não se ofendem de o ser;é certo, têm curto alcance, talvez os rodas baixas não corram temerárias maratonas e sirvam interesses mais comezinhos como as deslocações diárias. Na corrida da vida não nascemos todos galgos. E isto, cara UJM, não é ofensa nem melindre, é só vida e diferença. Precisará escolher tanto para não melindrar?! Que flores de estufa tem por perto.
Portanto, cara alegre e muito enchimento de tapete que decerto todos lhe reconhecem o valor e o sem papas na língua que não debota.
Que a reforma há-de vir e trazer-lhe bons tempos e mais projectos desta vez completamente a seu gosto.
Tenha uma boa noite de sono e um dia a fazer pendant. E não adormeça sobre o tapete que apesar das agulhas serem rombas, nunca se sabe onde acertam:)
Um abraço

Anónimo disse...

Estou indecisa na nota a dar a este post:
10?
20?
100?
1000?
Well, há que ser honesta:
Dou-lhe 1000!
E acho que estou a ser injusta...

Be happy!

hmbf disse...

Muito obrigado pelas suas palavras. Há 16 anos a publicar posts de pescada, não há melhor salário do que estes sinais de reconhecimento.:-) Saúde e bom ano,

Um Jeito Manso disse...

Olá Bea,

Este seu comentário deixou-me de sorriso no rosto. Por vários motivos, fiquei mesmo com vontade de esclarecer ponto por ponto para me explicar melhor. Mas deixo para lá. A vida da gente é cheia de mas-mas.

E quero dizer-lhe que as suas palavras descrevendo as provas de roupa nos provadores são o máximo. Fazem-me rir de gosto.

Uma quarta-feira muito bem disposta, Bea!

Um Jeito Manso disse...

Cara Anónima,

Que exagero... Guarde lá esses pontos para quando aparecer por aí um post que mereça mesmo os célebres twelve points.

Mas, de qualquer maneira thanks pela simpatia.

Dias felizes.

Um Jeito Manso disse...

Pois é, hmbf, há 16 anos ainda eu não tinha nascido (blogosfericamente falando) pelo que não sei se já nasceu iluminado e se todos os anos foram produção de boa cepa. Mas, se posts assim, trabalhados, inspirados, com bom gosto, são coisa recente então é caso para dizer o que V. andou para aqui chegar.

O que lhe posso dizer é que continue: a variedade dos seus posts, a forma documentada e honesta como os faz e a qualidade da sua escrita são coisa boa de seguir.

Mais do que dar os parabéns, acho que lhe devo agradecer.