Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, maio 06, 2018

In heaven, o corpo entregue ao sol e ao amante do Porto




Este sábado esteve azul e o ar perfumado e tépido. Dia tranquilo e bom. À chegada aqui, a casa gelada. As paredes largas de pedra conservam ainda o frio deste inverno prolongado. Mas, lá fora, quentinho e macio de dar gosto. Despi a roupa que trazia, vesti uns shortinhos, um topzinho de alcinhas, descalça, a pele redescobrindo o prazer da liberdade intrínseca da motherland.


Depois de almoço, abri a espreguiçadeira debaixo do telheiro. Contudo, o sol, na maior obliquidade, furava a folhagem da figueira toda rebentadiça e de todas as árvores que, beneficiando do mistério que habita in heaven, crescem desmesuradamente e se misturam na sua diversidade e fulgor, e a luz morna vinha pousar na minha pele.

Tão bonito, tudo tão bonito, e sensações tão boas, tudo tão primordial e simples.


As telhas por cima de mim, e eu gosto delas mesmo assim, esverdeadas da humidade do inverno, e os verdes das árvores ali à frente tudo tão cheio de paz e eu, encantada, deitada, a fotografar tudo.

Tinha trazido um livro e tinha começado a lê-lo no carro, o último da Rita Ferro, 'O amante do Porto'.
Falo dos outros mas eu própria guardo alguns preconceitos de estimação. Quando ela apareceu, não me lembro se a escrever a meias com a filha ou qualquer outra coisa, achei que era mais uma daquelas zinhas que escrevem delicodoçuras e palavrões a metro, tudo muito rebelo pinto, tudo muito beta e vazio, a fazer de conta que é livro. Não comprei, não li. Até que um dia qualquer, não sei porquê, folheei e pareceu-me ver ali coisa bem escrita. Levei para casa e gostei. Depois disso já li mais um ou outro, e acho sempre que é uma mulher desenvolta, de verbo solto e escrita fluida. Escreve bem e prende. 
E, portanto, ali estive, estendida sob o sol rendilhado de sombra, a ler. Não foi, no entanto, sol de muita dura. Logo adormeci. É uma sensação boa, boa, esta de sentir o sono a chegar devagarinho, eu a deixar-me ir, o ar quentinho sobre mim, toda eu leveza e rendição.

Dormi uma bela sesta.

Quando acordei, os pássaros cantavam a várias vozes e a plenos pulmões. Deixei-me ficar a acordar devagarinho.


Dpois retomei o livro. Ouvia, lá em baixo, o meu marido com a motosserra mas como sabia o que ele andava a cortar, não senti necessidade de ir verificar. Estava a cortar os ramos dos cedros até para aí um metro de altura da terra. Portanto, tranquilo. Não corria risco de fazer avaria como a que fez no outro dia com a roçadora, quando despedaçou uma fiada de lírios do campo, deixando-me inconsolável. Lírios é o que não falta por aí. Estes devem fazer cá uma falta..., disse ele, ainda armado em bom. E achas que, com a máquina a trabalhar, posso estar a ver erva a erva: esta corto, esta não corto? - perguntou, irritado por eu estar zangada. Expliquei-lhe pela milésima vez: 'Lírios não são ervas, são flores'. Mas é escusado. Mas agora estava concentrado na parte de baixo dos cedros, não havia grande margem para fazer estragos.


Portanto, pude ler descansada. Não direi que é grande literatura mas tem aquele misto de escrita pessoal, de vivência de mulher independente, livre e inteligente, de frases bem construídas e de enredo escorreito que leva a que sigamos para a página seguinte até chegarmos ao fim. Não me acontece aquilo de ficar presa ao encantamento como quando, por exemplo, leio 'O leopardo' em que, a cada frase, me detenho tentando contemplar, com vagar, a elegância e ironia do que acabei de ler. Mas mal estaríamos se no mundo só houvesse génios. Perderíamos a oportunidade de nos deslumbrarmos com a superação de alguns.


Li o livro todo, portanto. De penálti.

A seguir, fui pôr uma roupa a lavar, fui comer uns morangos e fui ter com o meu marido.

Havia montes e montes de grandes ramos de cedros que já estava a transportar para o 'campo de futebol' para fazer uma fogueira. Ajudei-o e fui desramar mais umas quantas pequenas azinheiras e aroeiras.


Regressei já ao anoitecer. O céu lindo, as árvores lindas e multicores recortadas contra aquele azul cobalto e profundo. Não resisti a fotografar.


Os pássaros já estavam aquietados, o silêncio já apenas interrompido por um ou outro canto tardio.

Tudo me parece tão belo e inexplicável que penso que toda a minha espiritualidade converge na adoração que tenho à natureza, às árvores, à perfeição das flores e do canto dos pássaros, à vastidão do céu, aos cheiros da terra. Não sobra espaço para misticismos de outra natureza.
Talvez apenas para as provas da existência da arte e da generosidade dos homens (quando elas existem, claro -- e existem).

Pensava que tinha que ir pôr o arroz ao lume, que já não era nada cedo, que tinha roupa para apanhar e outra para estender e ali andava eu a fotografar, quase em êxtase.

E a luz tinha-se extinguido, o céu tinha anoitecido de vez, as flores brancas da Robinia pseudoacacia desafiando a escuridão e eu a pensar que se um dia, em momentos assim, passa, junto a mim, um gato ou uma raposa, apanho um susto daqueles. Mas não passou e eu entrei em casa, feliz da vida como se estivesse a regressar de um magnífico espectáculo.


Depois fui aos meus afazeres. Só depois chegou o meu marido, cansado, a cheirar a fumo. Tinha ficado lá em baixo até a fogueira ficar apagada.

Enquanto os banhos não estivessem tomados, a roupa suja dele a lavar e que pudéssemos ir à janta, ainda demorou. Jantámos tarde, portanto.

Agora aqui estou, no maior silêncio, sozinha na sala. Há pouco o meu marido mexeu-se na cama e, de lá, perguntou-me quando é que eu ia para a cama e que horas é que já eram. Passa da uma e meia, respondi-lhe. Na brincadeira, perguntou a que horas queria eu que ele me acordasse amanhã. Livra-te, disse-lhe eu. Mas a verdade é que amanhã já é hoje. Espero que não me acorde para eu poder desfrutar a manhã de domingo na caminha, na maior paz. Abrirei a janela para que a luz e o canto dos pássaros me despertem com gentileza, deixarei que o meu corpo guarde este tempo longo e suave dentro de mim.

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Sergei Polunin e  Natalia Osipova em "Falling Into Place” 



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[E, caso prefiram outro tipo de danças, queiram descer até o post abaixo. Imperdível, vos digo eu]

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