Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, março 23, 2018

As desculpas de Zuckerberg e as promessas de que vai corrigir o que esteve na origem do brutal fuga de informação do Facebook, deixa-te mais descansada, ó Sta UJM, e vais, finalmente, abrir uma conta no Facebook....?


É o vais...!

Explico.

Não é possível garantir que não volta a acontecer porque já aconteceu, certamente, muito mais vezes e porque, de facto, de facto, não é possível garantir que vão corrigir o que quer que seja ou que não se forjarão novos buracos por onde os dados poderão vazar sabe-se lá para onde. E não será apenas com os bandidos do Cambridge Analytica mas com muitas, muitas outras empresas.

Como diz Steve Bannon: “Facebook data is for sale all over the world”.


É da própria natureza do Facebook: é um repositório de informação alimentado por quem lá a põe indiscriminadamente (e, por informação, leia-se: o que se escreve, as fotografias ou filmes que se partilham, os likes, etc) e é um modelo de negócio que consiste em vender publicidade e espaço para as empresas lá colocarem apps, anúncios, etc. E tudo o que lá se põe pode ser visto por gente e gente e mais gente e mais gente. E as próprias apps podem, elas próprias, ser portas de passagem para os dados ou buracos disfarçados ou armadilhas. E a larga escala a que tudo se passa e a forma aberta como tudo funciona torma tudo isto literalmente impossível de agarrar. 

Admito que provavelmente as pessoas mais incautas acham que o que estão a colocar nos seus perfis ou murais de facebook está a salvo -- ou porque dizem que é só para os amigos verem ou porque acham que é qualquer coisa que está apenas nos seus computadores. Não. Na verdade, estão a pôr essa informação em computadores da empresa Facebook, computadores que estão algures, geridos por uma rapaziada aventureira e ondem correm programas (e algoritmos) engendrados também por rapaziada que gosta de experimentar cenas.


Relembro que Mark Zuckerberg é o mesmo menino que, quando estava a começar a sua aventura facebookiana, disse: "I have over 4,000 emails, pictures, addresses, SNS. People just submitted it. They "trust me". Dumb fucks." Dum fucks - ou seja, em linguagem mais de salão, os 'totós' que lhe entregam toda a informação, mesmo a privada, sem ele ter que pedir nada. Assim falava ele dos incautos que abriam conta no Facebok.


E é que é tudo em tão vasta dimensão e cresce tão exponencialmente que o seu controlo é materialmente impossível. Ao estar aberta a milhões e milhões de utilizadores mal informados ou a apps que podem conter código malicioso, o Facebook não pode garantir o que quer que seja.

Sabem os meus Leitores que as minhas reservas e os meus cuidados sobre o Facebook são de sempre. Por isso o que se está a passar não me deixa admirada. O que está a acontecer é apenas o óbvio. 

E o que me preocupa não são os malefícios individuais de quem se vê alvo de intrigas por parte de 'amigos' ou de quem se vê objecto de perfis falsos ou de saber que fotografias suas são usadas por terceiros não autorizados. Isso é aborrecido mas é a pequena história. Também não me preocupa a distorção de comportamentos que leva as pessoas a tornarem-se exibicionistas, expondo ao mundo o que vestem, o que comem, o que vêem, o que dizem a toda a hora, tirando selfies compulsivamente. Isso perturba-me um bocado mas é um mal menor. O que me preocupa é o grande mal.

O conhecimento exaustivo de dados de populações inteiras permite, a quem o queira, fazer o que quiser com essa informação. Para já é sabido que conseguiram manipular a população de um país a votar o Brexit ou, noutros, a votar nos alarves que quiseram.

O que temo são, pois, os atentados descontrolados à democracia -- e digo 'descontrolados' porque são situações obscuras a que as instituições normais (políticas, judiciais) não conseguem aceder ou monitorizar ou evitar ou, sequer, perceber.

E não me refiro (apenas) ao facto de os partidos (e logo os parlamentos) ou as magistraduras e demais instituições dos regimes democráticos estarem infestadas de gente de quinta categoria, gente cada vez mais medíocres, mais impreparada e que, por via da sua deficiente escolaridade e experiência de vida, cai em qualquer esparrela e são pouco mais do que verbos de encher.

Anunciam-se agora inquéritos, possíveis coimas, campanhas para se apagarem as contas. Não chega.

Estamos perante potentes plataformas tecnológicas que são um risco real, especialmente quando o mundo não está preparado para saber regular monstros desta dimensão e natureza.

Estamos agora debaixo de outra polémica com as tarifas decretadas por Trump contra as importações de bens oriundos da China -- e qualquer dia podem ser sanções contra as importações da UE ou pode ele decretar guerra a um país qualquer ou pode fazer mil outras coisas que façam tremer os alicerces dos frágeis equilíbrios internacionais. E, como pano de fundo a tudo isto, teremos sempre as redes sociais, prontas a difundir notícias inventadas ou a alardear factos forjados ou a manipular opiniões públicas. 

E isto não é ficção ou futurismo. Isto é a realidade. Uma realidade perigosa.

Não sei no que vão dar todos os inquéritos e investigações que estão a ser postos em marcha mas eu não tenho dúvidas de qual a medida que a democracia e o direito a uma liberdade esclarecida e responsável deveriam impor: o fim do Facebook.


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As imagens são da autoria de  Gerhard Haderer e estão aqui apenas porque lhes acho imensa piada e colocá-las aqui no meio do que escrevi parece-me tão boa opção como outra qualquer.

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Por mera curiosidade (e não para ilustrar o que acabei de escrever):

os Williams, Lucinda e Marlon, falam do Facebook.


Já agora, para quem não sabe quem é Marlon Williams, para que este post tenha uma coisa boa, aqui fica um vídeo que mostra quem ele é. E aviso desde já: gosto dele que me farto.



Já agora, um vídeo também com a Lucinda Williams.


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