Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, maio 20, 2017

Um dia muito bom





Dias tão ocupados... Levanto-me, abro a janela, espreito o rio e, a seguir, espreito a agenda do dia. Cheia. Todo o santo dia. 

Não tenho tempo para me preparar entre reuniões. Se consigo guardar uns minutos de intervalo para me esgueirar até ao gabinete a ver se leio mails trocados sobre o assunto que vai seguir-se, logo vejo recados em cima da secretária, mais mails que chegaram, uns a pedir informações, outros a pedir reuniões, outros com assuntos para resolver.

Tantas vezes que peço para dizerem a quem me liga que estou em reunião, que não posso atender. Tantas. Mas sinto-me sempre um bocado arrependida, como se o que peço para dizerem não fosse verdade. A quem nunca consegue que me passem o telefone passo por inacessível. Se calhar sou. Mas o meu tempo não me permite ser acessível. 

Quando, entre colegas, me perguntam quando é que tenho disponibilidade para tratar disto ou daquilo ou receber alguém ou coisa do género já não sou capaz dizer de cor, como dantes conseguia. Compromissos de um lado e de outro. Agendas diferentes sincronizadas. Respondo que só com a agenda porque sei apenas que tenhos os dias cheios. Lembro-me como dantes, se ouvia alguém dizer isto,  ficava com a impressão de que estavam a armar-se. Agora tenho receio que pensem isso de mim. Bem, receio não. Apenas a sensação de que podem pensar isso porque, em tempos, eu também pensei de outros.


Durantes estes meus dias, o Um Jeito Manso não existe. Nem os blogues que costumo ler. Nem o resto do mundo. Não sei de notícias. Acontece-me, a meio do dia, ter que atravessar a cidade mas geralmente não me apetece saber de notícias. Ponho-me na Antena 2 e é ao som da grande música que vou. Gosto de ir com as janelas abertas, a ouvir música. Lisboa está muito bonita, os jacarandás todos em flor, sol, luz. Gosto de ir olhando, gosto de me sentir turista para olhar com surpresa as belas ruas de Lisboa.

Quando consigo organizar a minha vida, coisa que muitas vezes não está completamente ao meu alcance, gosto de, pelo menos uma vez por semana, almoçar num lugar onde sinta que saí daquele meu mundo para emergir directamente num outro. Pode ser passear num parque, pode ser ver uma exposição, pode ser andar feliz da vida numa livraria. E almoçar entre gente diferente, conversar, sentir-me descansada. Não pode ser durante muito tempo e, quando me venho embora para me meter outra vez no carro e começar outra jornada de trabalho, venho com pena de não poder ficar pelo menos mais uns minutos.


Tenho aqui comigo o que hoje trouxe. Não é um livro, não é uma revista. São duzentas e muitas páginas de boa escrita, de boas ideias, de conhecimento. Bem paginado, bom papel, boas ilustrações. Desta vez Ilda David. Gosto tanto. Há muitos anos, sempre a mesma irrepreensível qualidade. 

Em volta de um livro/revista assim poderiam fazer-se tantos bons programas de televisão e rádio para estender o prazer da cultura a muita gente em vez de ficar acessível apenas aos poucos que podem frequentar lugares como este por onde hoje me passeei à hora de almoço, ou que não se deslocam até ao balcão mais ao fundo, o da crítica ou revistas literárias, ensaios, estudos.

Talvez um dia. Talvez. Um dia.


Depois a tarde. Tantas coisas durante a tarde. Convidar uma pessoa para trabalhar comigo. Ver, pelo sorriso aberto, a motivação, a satisfação pelo reconhecimento. Depois mais uma série de assuntos variados.

Acontece muito que, ao fim do dia, quando me vejo sossegada no gabinete, sem chamadas, a pensar que vou finalmente ter uns minutos de paz para pôr o trabalho em dia ou, simplesmente, olhar para a janela, me aparece alguém. Dizem que viram que estive sempre ocupada e que esperaram por esse momento. Por dentro fico furiosa, apetece-me dizer: 'E acha que não preciso de uns minutos de sossego? Ou não lhe ocorre que também posso precisar de trabalhar descansada? Quando é que tenho tempo para responder ao que me pedem ou para ler o que me mandam para próximas reuniões se, mal tenho um minuto para mim, me aparece logo um chato para me impedir?'. Mas não digo nada, tento sorrir, tento prestar atenção. Mas não é fácil. Juro que não é mesmo nada fácil.


Depois apanhei imenso trânsito. Cheguei a casa tarde. Depois tivemos que ir comprar umas coisas para uns trabalhos que temos que fazer este fim de semana. Já bem tarde fomos até à praia. Soube bem. Estava frio mas o mar à noite é muito bonito. Jantámos por lá, uns petiscos.

Regressei a casa tardíssimo, já o Expresso da Meia-Noite ia perto do fim. Quando consegui sentar-me aqui no sofá, adormeci por uns minutos. É isto. Chego a casa cansada. 

Portanto, um dia como os outros. Aparentemente como os outros.

Aparentemente porque, tal como, um dia, um professor escreveu no quadro --  e eu nunca mais esqueci:

Por fora
Tudo é fácil e vão
Por dentro das coisas
É que as coisas são.

É que, sendo um dia igual aos outros, sei que foi diferente. Sei que para a pessoa que convidei foi um dia bom. A uma outra, com quem falei para lhe dizer que há um projecto que não tardará aí e que penso que ficará em boas mãos se ficar sob sua gestão, também vi um brilhozinho de entusiasmo no olhar e apostaria que para ela, por isso, talvez o dia também tenha sido bom. E tudo isso fez com que o meu dia também tenha sido bom.


Mas há uma outra pessoa para quem o dia também foi muito bom; e, por isso, o meu também foi, de facto, muito bom. A cirugia apenas terminou ao fim da tarde e, por essa razão, todo o dia foi de expectativa. Estava nas reuniões e a olhar para o telemóvel ou a enviar mensagens: já entrou? 'Não, ainda está no quarto'. Já há novidades? 'Não, ainda está à espera'. Depois, a meio da tarde, uma mensagem: Entrou agora para o bloco. Horas de espera intranquila. Mas, enfim, isso não interessa. O que interessa é que ao fim da tarde, nova mensagem. Correu bem e apenas lhe tiraram um bocado [do seio]. E eu, quando soube disso, respirei de alívio e sorri de gosto.

Ou seja, foi um dia bom. Mesmo muito bom.


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Fotografias impressionistas de Jason Shulman

Lá em cima, Adagietto da Sinfonia nº 5 de Mahler

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1 comentário:

bea disse...

Sim, este é mais o seu hábito de postagem.
Se eu tivesse dias assim tão cheios, mal chegada a casa, espapaçava sem remédio.
Parabéns pela vitalidade. É uma mulher imparável. E também por fazer os outros sentirem-se melhor. Quiçá, também melhores:).
Bom Domingo e obrigada pela música e boa disposição da noiva realmente real.