Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, maio 24, 2017

Só lhe queria dizer que comigo, o que me salvou foi o amor, o dos outros por mim e o meu pelos outros, e não conheço muitas mais curas.
-- Escreveu uma Leitora num mail que li com emoção.





Foi levar-me documentos para eu aprovar e, como muitas vezes acontece, ficou à conversa. Gosto de conversar com ela. Deve ser mais ou menos da minha idade, talvez uns dois ou três anos mais nova que eu. Trabalha numa outra área da empresa. É uma pessoa genuína. A única coisa que, por vezes, me perturba na conversa é ter uma certa tendência para pôr as palavras no diminutivo. Mas faço por superar. Gosta também de descrever as conversas que tem, relatando-as em discurso directo. Quando tenho pouco tempo, aflijo-me por dentro -- porque não a quero interromper -- pois o detalhe faz com o tema se espraie e eu, nas minhas pressas, não vejo fim à conversa.

Mas o que diz interessa-me sempre.

Ao fim de semana ela e o marido vão amanhar a terra. Percebo  que é um bocado de terreno relativamente perto da casa, num dos subúrbios da grande cidade. Desta vez foram apanhar batatinhas pequeninas. Depois assou-as no forno, com frango. Batatinhas pequeninas, das novas, diz-me ela. E, então, estavam lá na apanha, o marido diz-lhe: 'Olha, vai espreitar lá ao fundo' e, pela cara dele, ela percebeu logo que ele lhe reservava uma surpresa. E, conta-me ela, foi andando até que, ao fundo, viu uns arbustos, quase uma trepadeira. Faz uma pausa e pergunta-me: 'Está a ver as moitas de silvas que dão amoras...? A diferença é que as framboesas são maiorzinhas, mais encarnadas. Plantou, deixou que crescessem, tudo para me fazer surpresa. De longe gritou para eu ver se estavam boas. Oh se estavam. Comi as mais pintadinhas. As outras tapei-as com folhas a ver se os pássaros não dão por elas, a ver se ainda há algumas no fim de semana'.

E ouço-a e quase parece que me ouço a mim.

A conversa corre neste comprimento de onda. Pelo meio, enuncia-me receitas, desta vez eram os legumes num tabuleiro debaixo do frango, um limão e uns dentes de alho dentro do frango, o frango lavado com azeite, sal e louro. Explica tudo muito bem.


Conheço-a há quase vinte anos. Nunca a ouvi dizer mal de ninguém. Enquanto fala sorri. O seu trabalho por vezes é rotineiro e frequentemente intenso. Não se queixa. 

No outro dia calhou ficarmos as duas numa sala, a participarmos numa sessão por videoconferência. Criaram uma amostragem e estão a testar uma iniciativa, ouvindo antes a reacção de um grupo de pessoas. Do nosso local de trabalho, saíu a rifa a nós duas, eu na qualidade de dirigente, ela na qualidade de pessoa sem cargos de chefia. Entrosámo-nos muito bem e as nossas opiniões tiveram, como sempre, grandes afinidades. A forma como ela compreende as dificuldades de quem manda mas que está também sujeito a regras e condicionamentos quase me comove. 

É daquelas pessoas que tem uma energia positiva que faz bem a quem a rodeia. De vez em quando tem problemas de saúde mas ultrapassa-os com uma leveza que surpreende. O responsável pela área na qual trabalha, por vezes comenta isso comigo: 'Qualquer outra no lugar dela... e no entanto aí anda, sempre sorridente'. 


Uma vez estava muito preocupada com a mãe. Magra, cada vez mais magra, sem apetite, parecia que tinha uma coisa ali atravessada -- contou-me ela no meu gabinete, numa tarde. Quando a conseguiu convencer a ir ao médico, já era tarde demais. Um médico dizia que era de operar, um outro que era melhor não mexer. Ela aflita. O que fazer perante duas opiniões contrárias? Que se conhecesse alguém de confiança... Disse-lhe, então, que uma pessoa próxima é dessa especialidade, que podia ligar a ver se a podia receber. Liguei. Que ela fosse com a mãe ao hospital e que levasse os últimos exames. Foi. A mãe ficou logo lá. Pediu sinceridade total e teve-a: pouco tempo de vida, nada a fazer, apenas atenuar o sofrimento. Ela prostrada, num desgosto. A mãe ficou lá até ao fim. Fui levá-la algumas vezes ao hospital, outras buscar. Um dia ligou-me, era dia de Páscoa: o que se esperava tnha acontecido, a mãe tinha morrido. Dias depois ligou-me de novo: gostava de oferecer uma coisa ao dito médico, queria agradecer o carinho e cuidado dele com a mãe, desde o primeiro ao último dia. Disse-lhe que não, que não era pessoa que esperasse isso. Mas ela insistiu, que não imaginaria o sofrimento ainda maior da mãe se não tivesse estado tão bem acompanhada.

Por indicação médica, por prevenção, foi fazer ela um exame. Uma coisinha, contou-me ela. Biópsia. Positiva. Teve que tirar. Dias depois, já a trabalhar, animada, que felizmente tinha dado com aquilo a tempo. Depois tratamentos e ela sempre serena: tive sorte, grave é quando não se detecta a tempo.

Contudo, aqueles dois meses da mãe arrasaram-na. Diz que só se lembrava da mãe a definhar, já sem força para andar, sem conseguir comer nem reter comida no estômago. Custava-lhe aceitar como, antes de se ter descoberto, nunca lhe tinha passado pela cabeça uma coisa destas. Diz que há que tempos que a mãe se queixava que parecia que andava sempre cheia, que parecia que andava enfartada, sem fome nem vontade para nada. E nem a mãe, nem o pai nem ela atribuíram importância a isso. Pensava que, se tivesse percebido antes, talvez a mãe tivesse salvação. Com estas ideias a corroerem-lhe a mente, arranjou uma depressão. Reconheceu que não estava bem, tratou-se, esteve um mês de baixa. Veio outra vez igual, bem disposta. 


Depois os problemas com o pai. Viúvo. Ficou maluco, diz ela. Anda com mulheres, gasta dinheiro, deixa-se enganar, não aceita conselhos, não ouve ninguém. E ela sempre com tranquilidade: 'Deixa-o, é a vida dele, também não estou a fazer conta com o dinheiro dele'. Um dia o pai ligou-lhe, que tinha ido ao supermercado com a romena que estava de mulher-a-dias (mulher-a-dias e não só, comentava ela) e, quando chegara a casa, não tinha janelas, tinham-lhe roubado as janelas e as portadas de alumínio. Quando me contou, dizia ela: 'É bem feita para aprender a não meter qualquer uma dentro de casa. Ninguém me tira da cabeça que foi armação dos romenos, tanto mais que a romena nunca mais lá pôs os pés. Mas vá lá meter-lhe isso na cabeça...' 

Pelo natal faz filhoses, umas com recheio, outras simples, e sonhos. Faz sempre a mais para nos levar. Deixa na copa uma caixa para nos banquetearmos. Espreita no meu gabinete e diz . 'Há-de passar pela copa'. E eu passo.

E eu também lhe conto dos meus pais, da minha lida no campo, das receitas que invento, dos miúdos. E falamos de como por vezes, parece que é quando o tempo muda, temos dores nas articulações e ela conta-me do que lhe faz bem e tem sempre mezinhas que me parecem fundamentadas e que, por vezes, sigo. E coisas assim.

Em tantos anos, nunca falámos de política, de literatura, de economia. Nem de comentadores de televisão. Nem de tantas coisas que aparentemente me são caras. E, no entanto, gosto tanto de falar com ela. Nas nossas conversas parece que só falamos da vida, da vida sem filtros, sem intermediação.


E isto que estou a escrever também não tem nada que se lhe diga e, mais que certo, espremido vale zero -- mas eu tenho esperança que, por vezes, estas minhas conversas à toa digam qualquer coisa a algumas pessoas que me lêem.

Ontem escrevi aquilo de alguns distúrbios mentais não serem visíveis a olho nu e hoje recebi um mail que me tocou: uma pessoa dizia que reconhecia a doença da prima do meu amigo, que ela também a tinha tido mas que acreditava que a tinha superado, e contava como o amor de quem a apoiou foi relevante na sua cura. E terminou o mail agradecendo-me: 'por ir chamando a atenção dos leitores do seu blog para estas questões que fazem parte da vida de todos'. E eu, lendo este mail, fiquei comovida e a pensar que vale a pena estar aqui a escrever -- frequentemente cansada, o corpo a pedir-me descanso -- se, por vezes, as minhas palavras confortam alguém ou chamam a atenção para os problemas invisíveis para quem não os consegue sentir (ou pressentir) mas que podem machucar a vida de quem os vive ou que com eles convivem de perto.


E eu sinto-me agradecida perante quem me lê e me diz que gostou de ler.

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[Se eu pudesse trincar a terra toda]


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[E peço mil desculpas por andar sem conseguir responder a mails e comentários. Ando com muito sono e escrever um post a dormir ainda vá que não vá. Mas já uma resposta requer cuidado para não parecer desmazelo se a resposta me sair com letras trocadas ou palavras a menos]

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As fotografias foram feitas no fim de semana, in heaven.

De Hahn, "L'heure exquise" numa interpretação de Philippe Jaroussky

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Talvez até já

(Ou até amanhã -- se fizer caso do que hoje me recomendaram: que durma mais, que me deite mais cedo a ver se deixo a  melatonina trabalhar à vontade)

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3 comentários:

bea disse...

Pelo visto fez caso das recomendações. Acho bem. Aplaudo.

Quanto a escrever sobre nadas de si e do que lhe acontece... a mim desanuvia-me - se me lembro de aqui passar. É corriqueiro. Pois é. Mas é também sobre os nadas da nossa pequena vida que conversamos com os amigos. Não o fazemos para que fiquem mais ricos, mas porque são aquelas pessoas a quem é possível contá-los, elas participam desse círculo restrito de quotidiano que nos pertence.

E não se preocupe com respostas a comentários (dos mails não posso falar). Quem por aqui anda já se habituou a não as ter; a prova é que continua a passar. Portanto, avante! O vídeo é bem bonito, sem decibéis em demasia.

bea disse...

Esqueci uma coisinha: conserve essa leitora sábia.

Anónimo disse...

Belo poema e belíssima música. Creio que a compositora é Elena Karaindrou. E foi o tema do Ulysses Gaze de Angelopoulos.
Mozi