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segunda-feira, maio 29, 2017

O poder curativo das cabras



Cada vida é uma sucessão de acasos e de escolhas em cima da carga genética e das circunstâncias, tantas vezes circunstâncias alheias. Não está tudo predestinado -- mas parte está. O que talvez não esteja é o que acontece na camada opcional, ou seja, na forma como se reage perante o acaso (ou o imprevisto).

Perante a adversidade, algumas pessoas não encontram forças para superar a derrota ou o sofrimento ou a infelicidade ou o medo. Mas outras, com ou sem apoio, conseguem dar a volta por cima, reinventar uma outra vida, encontrar novos caminhos, aventurar-se pelo que parece um inextricável labirinto.

De um período difícil a nível pessoal (divórcio, descoberta de ser portadora de uma complicada doença degenerativa auto-imune) e com a vida profissional num impasse, Lainey Morse entregou-se a uma ideia que poderia ser banal mas que acabou por ser um sucesso.



Contudo, o sucesso neste caso não se mede em cotações de Wall Street, em notações de agências de rating, em contas bancárias com muitos cifrões. Neste caso, o sucesso mede-se em número de pessoas que visitam a No Regrets Farm, ou seja, a quinta de Lainey, para frequentarem as aulas de ioga em pleno campo, com cabrinhas a brincarem por perto, ao lado, em cima.


Tudo começou por acaso. Mas as oportunidades que se escondem nos acasos por vezes são postas de lado ou, quantas vezes, fechadas em si próprias, as pessoas nem se apercebem do que pode ser desenhado a partir de uma simples palavra, de uma inócua sugestão. Agarrar uma oportunidade e com ela transformar o infortúnio em esperança, isso, sim, faz a diferença.


Lainey tinha decidido ir para o campo. Depois decidiu ter cabrinhas. Depois foi arranjando o sítio e divulgando. Um dia, num leilão a favor de uma causa social, Lainey doou uma festa de aniversário para crianças na sua quinta. Uma mulher comprou a festa. Lainey decorou a quinta e a festa foi mágica. As pessoas estavam fascinadas com as cabrinhas brincalhonas e meigas. Nessa festa estava uma mãe que era professora de ioga e que lhe perguntou se ela já tinha pensado abrir a quinta para aulas de ioga. E logo ali surgiu a ideia do ioga com cabras.

As aulas esgotaram e as inscrições chegam de todo o lado. 

São apenas seis as cabrinhas mas transmitem harmonia, oferecem ternura. São uma distração, são uma terapia. Há pessoas com depressões, pessoas que tentam recuperar de situações difíceis, pessoas que querem, simplesmente, descansar, tranquilizar a mente, reencontrar a serenidade. Ou apenas passar um bom bocado.


O campo é o espaço em que mais facilmente se reencontra o ponto de equilíbrio e o afecto simples dos animais é, muitas vezes, o carinho que faz tão bem a quem vive momentos de tristeza ou pesada solidão.


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