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segunda-feira, março 27, 2017

Eu podia.
Mas melhor fora que o não pudesse.





Eu podia ter cabelos e mãos azuis e os meus olhos abstractos terem chorado cristais também azuis,

e ter ficado assim depois de ter estado a espreitar o futuro.


Eu podia adivinhar os teus pensamentos e saber como o teu coração bate e como suspendes as tuas mãos para receber estas minhas palavras

e ter ficado assim depois de ter lido sobre os algoritmos que adivinham como as pessoas pensam.


Eu podia conseguir que agora ouvisses a minha voz, uma voz sussurrada, segredada apenas aos teus ouvidos,

e ter ficado assim depois de saber sobre a propagação das ideias em ondas infinitas.


Eu podia agora, só para ti, recordar poemas que nunca soube, falas de deuses que desconheço, descrever ruas empedradas que descem até ao mar em ilhas longínquas que nunca visitei, contar-te dos muros brancos onde a luz se desvaira ou do lamento de ninfas que o tempo esqueceu,

e ter ficado assim depois de ter ouvido do tempo e espaço que se retraem e expandem numa intimidade que muitos ousam espreitar.


Eu podia ser pouco mais do que isto, palavras que surgem quando a noite se deita sobre o teu corpo, alguém sem rosto, sem nome, sem existência real,

e ter ficado assim depois de saber como é fácil simular a vida.


Eu podia pousar sobre ti o meu olhar e tu não me veres, podia saber quem tu és sem tu me dizeres, sem ninguém me dizer, tudo saber e tudo calar, devorar o conhecimento e transformá-lo em silêncio,

e ter ficado assim depois de ouvir que tudo, tudo, é possível -- mas saber que melhor fora que o não fosse.



(E daqui, deste lugar algures no espaço, envio um abraço azul a quem me lê)

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E queiram, por favor, descer até onde as formigas em carreiro se cruzam com as redes neuronais e, se um pouco mais, até ao mar em dia de invernia.

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2 comentários:

bea disse...

Muitíssimo bonito o que escreveu.

Um Jeito Manso disse...

Gracias, bea. Bom revê-la, bom ouvir palavras simpáticas suas.