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segunda-feira, dezembro 12, 2016

Cem poemas sem recebidos com alegria agradecida
- em tarde de derby cá em casa





Muitos afazeres para este domingo. Para começar bem o dia, de manhã, caminhada, fotografias. E tarefas domésticas e compromissos. Para a tarde estava combinado lanche com toda a gente. A minha filha já tinha alertado: é dia de derby, vê lá isso. O meu marido disse: não dá na televisão. Sms dela: dá na Benfica TV. E alertou que o irmão haveria de querer ver. E o meu filho também. Referia-se ao pimentinha mais velho. Mas Benfica Tv é coisa que jamais poderia haver cá por casa. Passado um bocado, sms do meu filho: o pai podia subscrever a Benfica TV por 30 dias e se for preciso eu comparticipo financeiramente. Ri. Li para o pai ouvir. Reacção imediata: nem pensar! deve estar a gozar! é que nem pensar!

Deixei que se recompusesse. Então, de mansinho pedi para ele ver como é que se subscrevia. Não queria. Tentei acalmá-lo: só 30 dias. Que mal tem? Furioso: é que nem pensar eu ir dar dinheiro ao Benfica... Pedi: para os miúdos verem. Gostam tanto de ver futebol. Pronto. Lá toquei no ponto sensível. Andámos, então, por aqui com o comando à procura, a ver onde se fazia tal coisa -- até que descobrimos. Depois era preciso código. Sabíamos lá do código. O meu marido sugeriu 0000. Nada. Sugeri 9999. Nada. Perguntei ao meu filho. Sugeriu 1234. Nada. Logo a seguir sms dele: 5555. Deu. Subscrevemos, o meu marido revoltado. Não digo os palavrões. Mas basicamente era um queixume blasfemo que continha as seguintes palavras: 'o... benfica cá em casa...'. Ou seja, uma faca entrerrada no peito.


Portanto, a combinação era: lanche reforçado no intervalo mas, à chegada, quem quisesse podia abastecer-se. 

Até que chegassem, mais tarefas domésticas. A semana vai ser preenchida, o fim de semana tem que ser produtivo.

Eis senão quando abro a caixa do correio no computador e vejo um mail que me faz sempre ficar com um sorriso aberto de alegria. Leitor amigo dizia-me que, à semelhança de anos anteriores, tinha-me deixado, no sitio do costume, um livro de poemas, colheita 2016. E enviava-me fotografias de um lugar tão meu conhecido.


Fiquei: ah e agora...? tenho que ir buscá-lo... mas e se eles chegam entretanto...? Mas tenho que ir não vá alguém descobri-lo e ficar com ele...

O meu marido, mais prático: liga aos gajos. vê onde andam, diz que não venham muito antes das seis. E despacha-te.

E assim foi. Despachámo-nos em três tempos, ala moço que se faz tarde, carro, sempre a andar.

Lá chegados, a maravilha do entardecer, o rio feito mar espelhado, a luz suavíssima, as silhuetas recortadas contra a paisagem amena, a cidade a começar a acender-se. O meu marido, puxando-me, despacha-te, vê se queres que os gajos cheguem antes de nós.

E lá fui apressadamente até ao sítio do costume.
Baixo-me, estendo a mão por entre as flores húmidas da neblina nocturna que se aproxima e... la está, o saco de plástico transparente e, lá dentro, o envelope 'para a UJM'. Feliz como uma menina que acabou de ganhar o seu primeiro presente de natal, começo logo ali a abrir o livrinho, a sorrir com o cartão, a sorrir com a dedicatória.
O meu marido puxa por mim, anda,... mas tens que estar a ler já aqui... ? e quase sem luz...? despacha-te.

E mais umas fotografias.

Depois carro. Caminho de regresso. À justa.

Logo a seguir começaram a chegar os adeptos. Primeiro os do Benfica. Logo a seguir os do Sporting.

E depois foi o habitual desgosto dos sportinguistas, a alegria dos benfiquistas. E o lanche. E o jogo das escondidas entre os mais pequenos. E o chinfrin do costume. E as canções, as guitarradas, o sapateado, a alegria de sempre.

No fim ainda houve quem se abastecesse, desta vez com uma sopinha. E depois voltei aos meus afazeres. Pelo meio, ainda fiz o post abaixo com o casal de pombinhos que hoje me enterneceu. Um mel... beijinhos, beijinhos, todos denguice, todos sedução aqueles pombinhos. E ainda voltei às minhas arrumações. E cortei o cabelo. Tomei banho e, com o cabelo molhado, umas tesouradas valentes. De vez em quando apetece-me mudar de pele. Como não sei bem como é que isso se faz, limito-me a cortar o cabelo. Desta vez um corte a sério. Fiquei até com vontade de voltar a pôr-me à rapazinho. Um dia destes, quem sabe.

E agora aqui estou, outra, a ler os poemas do Joaquim Castilho, a ouvir Horowitz a tocar o concerto para piano nº 23 de Mozart, a sorrir, satisfeita. E um calorzinho tão bom aqui na sala. E uma paz imensa instalada no meu coração.

Refugiado 
em ti
nos teus livros
na tua música
nos teus sonhos
nos teus desejos
nos teus medos
caverna translúcida
teu conforto
teu pequeno mundo
dentro de ti.


Obrigada, Joaquim. Muito obrigada mesmo!

Precisei de ler os poemas, sim senhor, para poder dizer com convicção que os achei admiráveis!


E muitos presentes para todos, destes assim, que transportam afecto, generosidade, amizade.

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4 comentários:

Anónimo disse...

Mais um subscritor do melhor canal nacional! Viva a UJM que convenceu o marido! Eu sabia que uma pessoa como a UJM não podia deixar de ser, no fundo e por natureza, vermelhinha por dentro! (Imagino os palavroes no fim do jogo...)
JV

P. disse...

Canal Benfica????!!!!!
É palavra que cá em casa não se pronuncia. E se vêem amigos, adeptos desse clube, já sabem as regras. É palavra que não existe no Dicionário cá de casa. Banida! Sempre que esse clube joga, estou, invariavelmente, do lado do adversário. Sempre! Regozijo-me com todas as derrotas do Benfica. Fiquei feliz com a derrota sofrida na Luz frente ao Nápoles e amanhã se vier a perder (como espero e desejo) contra o Dortmund (vou torcer pelos alemães, naturalmente). Nisto de futebol não há meias tintas, no que respeita a ser-se do “Benfica”, ou dos outros dois, “Porto/Sporting” (um Portista nada tem contra um Sportinguista e vice-versa, se um perde contra o outro é um azar dos cabrais, mas a coisa sara, já contra o Benfica a coisa é mortal. A arrogância Benfiquista é algo que não se aceita, nem se tolera). É assim. Ou se gosta, ou se detesta. Não há meio-termo. Daí que o canal Benfica nas nossas TVs cá de casa é o mesmo que falar de vida em Marte (também não temos o canal Sport TV, era o que faltava). Não costumo ver jogos de futebol, nem na TV, nem muito menos num estádio (esta hipótese é impensável! Misturar-me com adeptos, naquela confusão, é coisa que não me passa na cabeça), mas, tal não me impede de tomar posição. E a minha é tão, ou ainda mais clara, do que a água da Cascata da Frecha de Barjas, na Serra do Gerês. Enfim, coisas do futebol!
P.Rufino

bea disse...

Quando a JM descreve os seus dias fico pensando: que fiz eu? Bom, como o futebol não é muito a minha praia estive a emparelhar palavras que pretendo sejam amigas, pelo menos escrevi-as a pensar nas pessoas a quem as destino e que suponho as merecem. Cortei os cartões de Natal habituais e fiz por ali uns risquitos de pincel e aguarela sem treino nem nada, só a deixar ir a mão onde quer. (re)Aprendi ponto grilhão porque tenho o forno estragado e não sei se os bolinhos secos saem à cena, dei uma volta nas revistas à procura de uma flor de Natal para bordar e só achei ponto cruz - entretanto fui à cozinha e o benfica já ganhava; sentei-me uns dois minutos à salamandra e marcou outro golo (de certeza por eu estar ali). Achei que o jogo tinha perdido o interesse e fui tricotar uma meia hora enquanto ouvia um bocado de "A força das coisas". Entretanto, fartei-me de tanto trabalho manual e vi uns dois episódios de "Friends" par descongestionar e rir à parva. Dei uma vista de olhos no tlm e o meu grupo familiar estava meio possesso e ri para dentro com os sms trocados. Li uma página do Levantado do chão que o Saramago não me entusiasma nem quando fala do Alentejo, ó santo Deus que não sei que faça para gostar do homem. E depois disto terei jantado? Ná, acho que jantei no intervalo. Ora, não importa, já fiz muita coisa, estou cansada da variedade. E tudo sem pôr um pé fora de casa. Aí valente.
O seu primeiro presente teve mesmo um toque especial, JM. Parabéns. Eu também já dei um presente a mim mesma: resolvi ficar bem disposta e terçar as armas que tenho. Que ainda tenho algumas. Ora bem. O Natal não me há-de apanhar desprevenida:)

Ana Vasconcelos disse...

Belo post e belas fotos. Gostei da história do livro de poemas deixado 'no sítio do costume' entremeada com a irritação gerada pela subscriçào do Canal Benfica. E da frase: 'E depois foi o habitual desgosto dos sportinguistas'.