Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, dezembro 05, 2016

'Ai minha Senhora Maria do Céu...'
- devia eu dizer face à empreitada em que passei a maior parte do meu dia



O menino põe-se a cantar e canta numa língua desconhecida. Parece que canta em grego. Põe emoção na voz, fecha os olhos. Toca guitarra enquanto canta sentado. De vez em quando, engrossa a voz, há tragédia naquelas suas palavras cantadas, requebra e inflecte-a, eleva-a, depois baixa-a. Não sabemos que história está ele a cantar. Quando se levanta, abre um pouco as pernas, põe a cabeça levemente para trás, abre os braços caídos ao longo do corpo, todo ele drama, a voz prolongada preperando-se para o trágico grande final. Aplaudimos. Ele agradece.

Por vontade dele, continuava. Mas os pais levam-no, está na hora de ir para casa, dizem-lhe.

Antes, tinhamos estado sentados no chão a jogar uma espécie de jogo da glória. Ele ri-se, tenta fazer batota e ri-se sempre mesmo quando descoberto, goza como um perdido quando a mim me saem menos pontos no dado, diz que sou lenta, ri. Pelo meio, chega-se a mim, abraça-me, deixa que eu lhe dê uns xi-corações ternos e apertados que hão-de dar-me alento ao coração até ao último dos meus dias. Quando exclamo por qualquer jogada surpreendente, exclama também e diz: 'Ai minha Senhora Maria do Céu!'. Presumo que queira dizer 'ai minha nossa senhora do céu'. Depois cansa-se de jogar, fico apenas eu a jogar com a irmã.  Vai, então, buscar um pequeno escadote de madeira, senta-se a cima e começa a relatar o jogo e relata-o com exaltação, gritando nas vitórias, quase imitando o relato de um jogo de futebol.

O meu filho diz: 'isto na internet tornava-se viral'. Fossemos nós amigos da exposição pública com rosto e assinatura e é certo que se tornaria, sim.


Se alguns de vós me acompanham aqui há muito tempo, lembrar-se-ão de eu referir que este menino ainda bebé-bebé já chilreava que dava gosto. No meio da maior confusão, os outros a brincarem e a falarem e rirem alto e bom som, ele continuava a trinar, quase num despique com os outros três. Começou a falar cedíssimo, tudo muito bem explicado, um vocabulário e uma dicção espantosas. Depois a veia artística. No judo, trata a sisuda instrutora por todas as variantes do nome, levando-a a rir mesmo sem querer. Meigo, meigo, alegre, divertido, um humorista, um comediante. Assim é o pimentinha mais novo, o que tem quatro anos.

Daqui por uns anos se verá se esta sua tendência natural se mantém. É engraçado constatar como cada um traz, dentro de si, de forma tão espontânea, os dons que guiarão a sua existência.

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Estive, salvo o bocado em que os tive cá em casa, desde depois de almoço até à hora de jantar -- e jantei tarde -- a sujeitar-me à tortura a que todos os anos, por esta altura, me submeto: escolher fotografias para oferecer pelo natal. Ofereço-as porque acho que, quem as recebe, talvez goste de ter, em papel, fotografias ou de si próprio ou de momentos que vivemos juntos ou dos que lhes são queridos. Dizem-me que são as únicas fotografias que têm em papel. Por vezes, emolduro algumas e é assim que as ofereço. E não é que não goste de rever momentos tão engraçados, ver como as crianças crescem. Nas festas de anos e natal, juntamente com os meus quatro há, pelo menos, outros tantos. Olho algumas fotografias e só se vê miudagem. Aquilo de que se diz 'uma casa cheia'.

Mas, tantas fotografias eu tiro, que isto me obriga a ver milhares e milhares delas. Chego a um ponto em que já estou esgotada. O meu marido acha que eu sigo métodos anacrónicos. Explico-lhe que não. Diz que exagero em tudo, até nisto. Mas se não passo os olhos por todas as pastas onde escrevi que estão os meninos, qual o critério de escolha? Assim, vejo uma a uma e vou copiando as que me parecem melhores para a pasta Fotos para o Natal 2016. Há pouco, exausta, cheguei ao fim. Contei-as. Passam as quatrocentas.


Agora ainda terei que fazer um novo desbaste. Depos segue-se outro pincel. Uma a uma, decidir a quem a dou: à minha mãe, à minha filha, ao meu filho, ao irmão mais novo da minha nora, ao irmão mais velho da minha nora, aos sogros do meu filho, a este, àquele, àqueloutra, para mim, etc, etc. Geralmente fico com uma de cada. Então, num papel, uma a uma, escrevo quantas. Sempre um exagero, de facto. Uma fortuna, também.

Depois, passar para uma pen. Depois ir à Fnac. Uma a uma, naquelas centenas, mandar imprimir, escrever a quantidade. O meu marido, ao lado, a dizer 'um exagero, sempre a mesma coisa, um exagero'

Depois ir buscar. Uma sacada. A seguir, outro frete. Dos valentes. Uma a uma, ver para quem é. Fazer montes, uma para este, outro para aquela, outro e outro e outro... e uma montanha para mim.

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Tirando isto, também passeei pela beira do rio, fotografei gatos, gaivotas, guinchos, gaivotas, portas pintadas, paredes de pedra trespassadas de raízes, paredes outonais cobertas de vinha virgem. O prazer habitual. Depois almoçámos em casa (pescada fresca cozida acompanhada de batata doce, feijão verde, ovo). E o meu marido pintou uma parede que estava precisada. E fiz uma máquina de roupa e sopa e arrumei o que havia a arrumar. Era para ter colado uma peça que se partiu ao limpar o pó mas ainda não foi desta. E li um bocado da Gorda. Escrita escorreita.

Esta segunda-feira, começo o dia com uma reunião e vou ter uma semana muito cheia e que tem tudo para ser stressante. No entanto, a esta distância, encaro os dias que aí vêm com um distanciamento muito estranho (passe a redundância), parece que não é nada que me diga respeito. Quando os estiver a viver, logo me enervo -- e isto, claro, se for mesmo caso disso.

Entretanto, estou a ver um filme engraçado com a Meryl Streep e o Tommy Lee Jones sobre a forma como alguns casamentos se desconjuntam -- e não é preciso esperar que se passsem os cinquenta anos para que isso aconteça. Chama-se Terapia a Dois e acredito que vê-lo seja útil para alguns casais. Um casamento, seja ele de papel passado ou não, seja ele consumado ou apenas desejado, tem que ser alimentado. Se não houver cumplicidade, partilha de interesses, generosidade, malícia, simpatia, gentileza e etc e tal e sempre tudo passado à prática, não se vai a lado nenhum. Não é preciso esgotarem a paciência um do outro com inquisições por tudo e por nada, muito menos deve ser instalado de vigilância de um sobre o outro. Basta acreditarem que estão melhor juntos do que separados, basta quererem que o outro se sinta bem, basta que saiam das zonas de conforto as vezes que forem necessárias para que, em conjunto, encontrem novos e sempre melhores caminhos. Por aí.

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E pronto. Já chega. Não são horas para me pôr para aqui numa de consultório sentimental até porque sou uma prática, falta-me a teoria para ser uma professora como deve ser. Se me permitem, vou pregar para outra freguesia.

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As fotografias foram feitas na manhã deste domingo.


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1 comentário:

bea disse...

As fotos estão bem bonitas. Acredito que as que oferece pelo natal têm valor sentimental e são cool. E não há dúvida que dá bons conselhos matrimoniais. Mas piedade e água benta...

Um noite boa para si e toda a família. Que ter uma criança dessas é sorte. Pode crer.