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domingo, dezembro 18, 2016

1001 Nádegas





Emilie Mercier e Frédérique Marseille, duas amigas, tiveram uma ideia da qual não se pode dizer que seja muito à frente porque, a bem dizer, tem mais a ver com a rectaguarda. E da ideia aos actos foi um ápice. Meteram mãos à obra -- e a coisa já é de envergadura.

A bem da aceitação do corpo, para que ninguém pense que os glúteos têm que ser rijos, torneados e empinados, mostram-nos de toda a espécie e feitio.

Viajando pela colecção que não tem parado de crescer, podemos ver bundas, bundinhas e bundonas, lisas, com celulites, com cicatrizes, estreitas, redondas, tranquilas, inquietas (seja lá o que isso signifique quando aplicado no contexto). E consegue perceber-se que não temos que nos submeter a padrões nem sentir complexos de culpa por não frequentarmos ginásios ou por não fazermos 'malhação' até as nalgas estarem rijas como ferro.

Como dizem as duas amigas que se lançaram neste projecto:
Les canons de beauté ont changé. Ils sont aujourd'hui irréels et mutants, coupants et impossibles à atteindre. En récoltant 1001 fesses, peut-être découvrirons-nous que le canon n'existe pas. Que le galbe de la chaire est beau. 
Redonnons à nos corps, par l’art, la grâce d'une Vénus.


1001 Fesses


(Porque todos as temos)


São as tuas nádegas
 na curva dos meus dedos

 as tuas pernas
 atentas e curvadas

 O cravo – o crivo
 sabor da madrugada
 no manso odor do mar das tuas
 espáduas

 E se soergo com as mãos
 as tuas coxas
 e acerto o corpo no calor
 das vagas

 logo me vergas

 e és tu então
 que tens os dedos
 agora
 em minha nádegas


[Maria Teresa Horta]




A bunda, que engraçada. 
Está sempre sorrindo, nunca é trágica 
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar. 
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente. 
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita. 
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda 

[Carlos Drummond de Andrade]





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E dancemos.



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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